Está ficando cada dia mais difícil a situação nacional. Ninguém sabe ao certo o desfecho que poderá ter a crise política. Em vez de desatar o nó, as investigações parecem enrolar ainda mais, baralhando os fios, que cada um puxa para o seu lado.
Em todo o caso, quanto mais complicada a crise, mais urge nossa responsabilidade de cidadãos. E’ preciso estar alerta, pois se aproxima o momento em que a consistência política da cidadania vai ser colocada à prova.
Vivemos um conjunto de desafios, que precisam ser enfrentados com discernimento e firmeza.
De um lado, o país não pode ficar paralisado. Nisto está a primeira responsabilidade da cidadania, que aliás sempre garante as atividades essenciais que sustentam a continuidade da vida.
As instituições precisam funcionar, mesmo que revelem a urgência de transformações.
A extensão da crise atual requer, em primeiro lugar, mudança de posturas, indispensável para chegarmos a mudanças institucionais efetivas.
Diante das reiteradas comprovações de corrupção, não basta a indignação ética, tão cultivada pela Igreja e inculcada a seus fiéis. Pois em política, a indignação ética acaba ficando estéril, se não é seguida por aquilo que tanto falta à prática dos cristãos: o engajamento nas mediações, que requerem o comprometimento pessoal com ações concretas, em que cada um entra com o peso de sua participação. Se acreditamos que os partidos políticos são importantes, por que a grande maioria dos cristãos não se engaja em nenhum deles?
Nem é o caso de imaginar que a crise atual torna possível a implantação de modelos políticos completamente diferentes, idealizados na teoria mas descolados da realidade. Ou que seja possível passar de imediato para um modelo econômico radicalmente diferente do praticado até agora.
O caminho a seguir aponta para decisões realistas e viáveis. Que se suprima o malfadado estatuto da reeleição, que se tornou instrumento perverso de busca obcecada pelo poder.
Que se regulamente o artigo da Constituição que preceitua mecanismos diretos de consulta popular, para que sejam usados com mais freqüência, para decidir questões vitais para a nação, e que sirvam de instrumento prático de articulação da cidadania, tão difícil de acontecer num país tão extenso e tão desigual como o nosso. A primeira consulta, após o referendum marcado para outubro, seja sobre a auditoria da dívida, para assim abrir caminho para mudanças concretas na economia.
Que se discipline com rigor as campanhas eleitorais, que foram depravadas pela mistificação da propaganda e contaminadas pelo poder econômico.
Que se estabeleça a fidelidade partidária como primeiro passo para uma nova legislação sobre os partidos políticos.
Que se limitem drasticamente os cargos de confiança, e que os diversos órgãos de direção das Estatais sejam preenchidos através de concursos entre os seus funcionários.
Que sejam suprimidas as “emendas orçamentárias” dos congressistas, evitando que se tornem instrumentos de manipulação governamental.
Todas as mudanças propostas precisam ter como rumo inspirador a implantação progressiva da “democracia direta”, com a cidadania se articulando para decidir as grandes questões nacionais através de consultas populares. Pois o que está em crise é a democracia representativa, que se perdeu nas armadilhas da corrupção.
D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, São Paulo. Visite seu site www.diocesedejales.org.br. Você pode se comunicar com ele pelo email:
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