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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 08 August 2005
O samba, de Alcione a Elton

Quatro discos e muito samba. Um, de Alcione, “Uma nova paixão”, gerou um comentário de Hugo Sukman, em “O Globo”, sobre as contradições do repertório da cantora. Sem procuração para defendê-la, sinto que “Qualquer dia desses”, “Estranha loucura” e outras funcionam como uma espécie de calço para que a grande cantora leve ao seu público produções bem mais interessantes. É o que acontece neste novo CD em pelo menos quatro das 16 faixas.

São destaques absolutos “Xequeré”, de Nei Lopes, Magnu Souza e Maurílio de Oliveira (“chegou no nosso terreiro gargalhando no ganzá/mas na hora de abrir os trabalhos/pegou meu chocalho e não quis mais largar/sacode, remexe, balança, não pára, não cansa/e não sai do meu pé/mas o ponto melhor do pagode/é quando ele sacode aquele xequeré”); “Pedra 90”, de Serginho Meriti, Gilson Bernini e Rody do Jacarezinho; “O samba vai balançar”, de Sergio Santos e Paulo César Pinheiro (“balança que o samba onde passa pelo mundo deixa um fã/balança Paris, Tóquio, Havana, Londres, Roma e Amsterdã/espalha o samba que o samba vai balançar”) e “Causas perdidas”, de Rosa Passos e Aldir Blanc (“o meu amor vive em causas perdidas/sabe as datas vencidas/dos bens que não resgatei”).
 
Depois que saiu da BMG, Alcione passou pela Universal sem maior repercussão, até que foi contratada pela Indie Records. Nesse período, reforçou a sensação de que tinha um público enorme, fiel e popular.
 
Foi esse público que lhe garantiu a sobrevida artística – e quem poderá lhe condenar agora por ser atenta a ele (e sem abrir mão de elevar o nível de exigência desse público)?
 
Mas, no limbo mesmo, e anos, ficou Germano Mathias, um estilista, “sambista genial, arquiteto de síncopes inimaginadas”, como afirma o seu biógrafo Caio Silveira Ramos no encarte.
 
De volta num selo modesto (Atração) e prestando um tributo ao cantor e compositor Caco Velho (“Meu fraco é mulher”), Germano relê antigas gravações, acrescentando-lhe sempre andamentos insuspeitados. É o que acontece em “Nega velha” (Padeirinho), “Moleque vagabundo” (Antonio Almeida e Marino Pinto) e “Por um beijo teu” (Cyro de Souza).
 
É um item de colecionador – mas a distribuição precisa ajudar os colecionadores.
 
“Bem que mereci”, de Elton Medeiros, traz o selo Quelé, com distribuição da Biscoito Fino. Elton é dos maiores e seu último CD tinha sido “Aurora de paz” (2001).
 
No novo trabalho, além de composições inéditas, ele faz uma homenagem ao que considera o primeiro time do Zicartola, mítico espaço do renascimento das rodas de samba cariocas.
 

Elton Medeiros: "Bem que mereci" vai do Zicartola ao samba caciqueano

 
Neste primeiro time, obviamente, Cartola (“Partiu”: “partiu e não me disse mais nada/já ia distanciada/quando ela parou e acenou com a mão”); Nelson Cavaquinho (“Lavo minhas mãos”: “pra que vingar-me se o castigo vem do céu?/pra que beijar lábios que amargam como fel?/lavo minhas mãos com todos os pecados meus/pra castigar, só Deus”), Zé Kéti (“Vestido tubinho”: “os homens de hoje em dia/levam tudo pra maldade/vão olhar pra flor da nega/e a flor vai virar saudade”) e Ismael Silva (“Não avance o sinal”: “lhe cobriram de confete/e com essa toilette/estou vendo que você/ficou prosa demais”).
 
Mas estão nas obras do próprio Elton os destaques do CD produzido por Paulão 7 Cordas. Aí, somam-se parcerias com Paulinho da Viola, Paulo César Pinheiro, Carlinhos Vergueiro, Cláudio Jorge e Roque Ferreira. Com este baiano, Elton fez “Demorou”, de refrão irresistível e sabor caciqueano: “a gente estava junto, mas não estava misturado/e o amor que não mistura/não dá caldo temperado”.
 
E, por falar no Zicartola, tem o CD do Oswaldo Pereira, “As árvores” (Dubas). O que uma coisa tem a ver com a outra? Bem, na Rua da Carioca, em um dia dos anos 60, Zé Kéti perguntou o nome de um jovem compositor, depois de ouvir um samba seu: “Paulo César Batista Faria”, respondeu o novato. “Isso não é nome de sambista”, decretou o autor de “A voz do morro”: “a partir de hoje você é o Paulinho da Viola”.
 
Pois é, Oswaldo Pereira parece nome de funcionário do Bradesco, mas que não se perca por isso. Autor de todas as letras e músicas do disco, é uma aposta direta do próprio dono da Dubas, o também compositor Ronaldo Bastos. Seu trabalho (Zicartola outra vez!) tem muito de Ismael e do Estácio.

Uma das faixas, “Sorriso”, poderia ser tranqüilamente adotada como trilha sonora da CPI dos Correios: “sorriso é um privilégio da delicadeza constante/sorriso é a recompensa da pureza superior/alguém que conquista fortuna lesando o seu semelhante/devia ter, no semblante/caretas horríveis de dor./No entanto, Deus deu o direito de sorrir igualmente/àquele que é virtuoso, assim como ao imoral/roubas dinheiro do povo mentindo descaradamente/e eu sempre ti vi sorridente/em foto que sai no jornal./Mas nem com a mente mais calma/se pode aceitar/alguém com veneno na alma/ter força no olhar/quem tem duas caras devia ter paralisia no maxilar./Teu riso forçado que a tantos ingênuos cativa/não sei nem se devo dizer o que penso, se devo pensar/desperta desejo de dar-te um bom pontapé na gengiva/pra não mais sentires orgulho/do que deve te envergonhar/desmonta teu riso e recolhe o que te sobrou de vaidade/transforma a vergonha, daqui por diante, no teu bem maior/talvez te floresça um sorriso de sinceridade/e não roubarás a cidade por teres teu próprio valor”.
 
Jazz, choro e samba em Ibitipoca
 
É improvável imaginar um festival de jazz num lugar onde não há uma única banca de jornal, uma agência bancária ou um prosaico caixa eletrônico. Pois este festival não só existe como acaba de chegar à sua sexta edição. Em Conceição do Ibitipoca, distrito de Lima Duarte, cidade próxima de Juiz de Fora, Minas Gerais.

No último final de semana, as atrações lá, entre outros, foram o vibrafonsta americano Michael Carney (que se apresentou com o saxofonista franco-argelino Idriss Boudrioua), o baixista Arthur Maia, Nilze Carvalho e Ronaldo do Bandolim, Dudu Lima e Márvio Ciribelli, além de Hérmanes Abreu, arquiteto, músico lançando seu quarto CD e o produtor cultural capaz de transformar o seu sonho em realidade.

O festival, “pequeno por convicção”, só existe por causa dele e de sua mulher, Dirci – além, é claro, dos fluidos que emanam dos montes e cascatas do ecológico Parque de Ibitipoca, espiritualizados o bastante para produzirem viagens as mais psicodélicas (ainda é possível falar psicodélica?). Não obstante, já levou até o alto da Serra da Mantiqueira grupos de projeção internacional, como o Azimuth
 
Proust em Cataguases
 
Na 13ª edição do concurso “Poemas nos ônibus e no trem”, da Prefeitura de Porto Alegre, entre mais de 200 inscritos, o mineiro Ronaldo Cagiano ficou entre os trinta que terão seus versos circulando, durante um ano, junto com os trens e ônibus das linhas metropolitanas da capital gaúcha.
 
Seu poema chama-se “Exílios”: “A cidade se des(d)enha em seus próprios labirintos:/pelas serpentes de pedra e asfalto/corre pressuroso um rio de animais metálicos./Não há mais lugar para os homens./Anônimos, como areia na ampulheta,/vamos caindo, atarefados,/em busca da outra margem: a utopia.A metrópole, como um ventre,/espera o desconhecido/e na solidão geométrica/nascem catedrais de ausências./Se Paris está lendo Paulo Coelho,/eis minha vingança:/vou ler Proust em Cataguases.”
 
Por e-mail:
 
“Não sou e nunca fui analista de sistemas (sou macho, pô! Os analistas de sistemas são nerds que só conhecem o sexo feminino via sites tipo ‘xoxotas.com.br’, ‘peladas.net’ e ‘raspadinhas.bozzano.vilamimosa.ponto’ e que sabem de cor todas as modalidades de facções Jedi mostradas nos filmes do George Lucas). Sou apenas um reles projetista de instrumentação meteorológica para aeroportos - acredite, esta profissão existe (apesar de que provavelmente, no Brasil, devo ser o único representante da classe. Exclusividade é isso aí!)!” (Fernando Toledo, projetista e jornalista, Rio de Janeiro, RJ)
 
robertobienal3jk.jpgRoberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
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