Graças à sua biografia e à história do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva teve a rara chance de ser o presidente capaz de pedir aos ricos que doassem e aos pobres que esperassem. Sua credibilidade entre a população pobre lhe dava o direito de pedir paciência nas mudanças. E a força com que chegou lhe permitia cobrar dos ricos que aceitassem as mudanças.
Mas a chance foi perdida. Aos pobres, a oferta foi de administrar melhor e de forma assistencial os programas antigos; aos ricos, de manter os privilégios intactos.
Foi uma chance perdida sobretudo pela história do Brasil. Dificilmente teremos um momento histórico mais favorável e um presidente mais habilitado para promover um encontro de diversas classes para construir a Nação.
Lamentavelmente, um fator impediu que isso acontecesse: Lula e o PT nunca explicitaram um projeto de Nação. Partido e líder se formaram a partir de uma visão corporativa que divide o país em pedaços, a serem atendidos separadamente.
Nunca perceberam que a Nação é um ente diferente de uma soma de suas partes, e que nos momentos de crise é preciso reorientar o destino nacional com um projeto transformador. Essa é a diferença entre a Bolsa-Escola e a Bolsa Família.
A primeira ajuda a reorientar o destino nacional pela educação, a outra ajuda no presente as famílias que a recebem.
No governo, Lula e o PT não perceberam que a doação de uns e a espera de outros trariam ganhos a todos. Transferir recursos dos que têm para investir nos serviços necessários aos que não têm teria como o resultado um Brasil melhor para todos. Essa é uma grande diferença entre o estadismo e o sindicalismo.
Pena que Lula e a equipe que ele manteve ao seu redor não conseguiram ver o Brasil na sua totalidade, nem perceberam seu papel de reorientar o destino nacional.
Não tinham um cenário de para onde queriam e poderiam levar o País; não quiseram ou não souberam pedir paciência aos pobres nem doação aos beneficiados pela política fiscal e orçamentária.
Ao contrário, pediram que o povo comemorasse a pequena esmola dos programas assistenciais, e comemoraram com os ricos as vantagens não perdidas, ao contrário do que se dizia durante as eleições.
Além de não perceberem a necessidade de um projeto para reorientar o futuro do País, o PT e o governo foram corrompidos pelas facilidades do marketing na manipulação da opinião pública. E acreditaram que, no governo, isso funcionaria durante quatro anos. E depois mais por mais quatro, até eleger o sucessor.
Não podia dar certo, e assim alertaram várias pessoas, diversas vezes, algumas do próprio governo, mas fora do núcleo central.
Os escândalos de corrupção são parte de um jogo de política superficial, retratam a arrogância do publicitário que passa a acreditar na veracidade da publicidade que faz.
O pior é que toda vez que surgiram problemas, causados pelo descompasso entre realidade e imagem, chamaram o marqueteiro para ajustar a imagem, em vez de mudarem a realidade de erros e omissões do governo.
Até que ficou tarde. O político Lula pode até continuar popular, ser reeleito e bem-sucedido até o final de um segundo mandato, perpetuando a omissão, evitando a mudança.
Mas acabou o líder que poderia mudar o Brasil, capaz de fazer o País obedecer sem usar nenhum autoritarismo, e de reorientar o nosso destino. Ele abandonou a espera e a doação.
Preferiu a encenação à transformação, ficar na esquina que herdou, em vez de nos conduzir no caminho da mudança, como todos esperavam.
Cristovam Buarque, 61, doutor em economia, é senador pelo PT-DF. Foi ministro da Educação (2003-04), governador do Distrito Federal pelo PT (1995-98) e reitor da Universidade de Brasília (1985-1989). Sua homepage - http://www.cristovam.com.br e-mail:
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