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Pesquisas Que Radiografam O "Povo Brasileiro" PDF Imprimir E-mail
Escrito por Antonio Fernando Beraldo   
Thursday, 04 August 2005
Todo poder emana do povo, não é? Numa democracia como a nossa, essa emanação se dá de tempos em tempos, quando das eleições. Admite-se que alguém assuma o cargo de presidente da República pela vontade expressa da maior parte – não confundir com a maioria, algo que raramente acontece – dos eleitores (o povo); estes, depois de, teoricamente, analisarem demorada e meticulosamente os candidatos e suas propostas, e sobreviverem a tsunamis de propaganda política, cumprem o dever cívico e exercem o direito de sufragar o nome de seu preferido.

Depois, confiam que o eleito dedique-se durante o tempo de seu(s) mandato(s) a realizar, ou, ao menos tentar, o que foi proposto na campanha, e que, misericórdia, nos deixe a nós, o povo, em paz por outros quatro anos.

Porém, como não querem nos poupar o sossego nesta vida, inventou-se de sentir de tempos em tempos as emanações do povo através de pesquisas de uma tal de opinião pública.

O resultado das pesquisas, uma espécie de termômetro, fornece um farto material para que a mídia produza especulações, passadologias e futurologias diversas, que explicam direitinho para o distinto público como é, e, en passant, como deveria ser sua opinião.

Nos dois últimos meses, como é de conhecimento de 84% dos brasileiros (nota 1), descobriu-se uma vasta rede de corrupção, compra de votos, lavagem de dinheiro, suborno, chantagens e outras safadezas como há muito não se descobria [31% acham que a corrupção aumentou no governo Lula – os demais acham que está do mesmo tamanho (45%) ou que diminuiu (17%!), e 6% não sabem, nem ouviram falar e não querem se envolver].

O que se imaginava, antes das pesquisas, é que a maré marrom e malcheirosa já tivesse impregnado o presidente, dadas as espirais de denúncias estentóreas a espocar a cada meia-hora na TV.

E isso num enredo que começou pra valer com o deputado-cantor e chutador-mor-do-pau-da-barraca Roberto "Sou, mas quem não é?" Jefferson e seus silêncios teatrais; num cenário onde assombra a calva sinistra do Marcos Valério (que só falta depor de monóculo, acariciando um gato preto no colo, feito aqueles vilões dos filmes do early James Bond); num cast com nomes premonitórios como Jacinto Lamas, Márcia Milanésio, Genu & Genoíno, Robson Pego e Delúbio do PT; em que não faltam perigosas secretárias, reveladoras ex-mulheres, inconfidentes atuais mulheres e, quem sabe, futuras mulheres ainda sem adjetivos...

Enfim, muitos já batiam os últimos pregos no caixão do governo Lula (nota 2).

Chama acesa

Qual não foi o espanto de quase todos (e alívio de alguns) quando verificou-se que o percentual dos que acham o governo Lula ótimo ou bom apenas oscilou levemente dentro da margem de erro (40% ou 51% de aprovação, dependendo da pesquisa), e que 65% acham que o presidente tem pouca ou nenhuma responsabilidade nesta farra de milhões a brotar de malas, malões, valises e cuecas! E mais: caso a eleição fosse hoje (ontem), Lula seria reeleito! Vai ser blindado assim lá longe...

A explicação não tardou a aparecer: o culpado por tamanha alienação do povo era ele, o povão alienado! Como escreve Gilberto Dimenstein, num surto de genialidade incontida:

"Está cada vez mais claro que parte da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se sustenta nos baixos níveis de escolaridade e desinformação [sic]. A última pesquisa do Datafolha, publicada nesta quinta-feira na Folha de S.Paulo, é mais uma prova, ao mostrar que, na área social, o que mais agrada aos cidadãos é o programa Fome Zero. Nem mais o governo alardeia esse plano." (Folha Online, 28/7/2005).

Essa gentinha, que é o pessoal do panis et circenses, não entende mesmo nada de política... e insiste em gostar do Lulinha-paz-e-amor.

Já para o mesmo povo, de acordo com as pesquisas, a culpa é dos políticos, a culpa é do Congresso que não presta (para 46% dos entrevistados), a culpa é da canalha a quem o PT realmente prodigalizava mensalões (segundo 67% dos entrevistados) para manter acesa a chama da fidelidade(?) da base de apoio. Pior, dois terços disseram ter "mais vergonha do que orgulho" dos deputados federais. Que fizemos nós? Que tipo de gente exerce o poder em nosso nome?

"Década perdida"

Todo poder emana do povo e em seu nome, será exercido. Já que não lhe pespegam dolo nem culpa, e revigorado por números tão afetuosos, sai o nosso presidente em andanças junto ao seu povo (olha ele aí, de novo), inaugurando até expansão de fábrica de marmitas, repetindo para o "espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais ético do que eu?"

Cita 3,2 milhões de novos empregos criados no seu governo, a inflação sob controle, as exportações em alta, e coisa e tal. Só não faz mais por culpa de uma tal de "elite", que é uma espécie de não-povo, coisa-ruim, o torto, que conspira dia sim, dia também, contra o progresso do país e contra a sua mais-que-provável reeleição ano que vem – o que, para Mr. da Silva, dá no mesmo.

Elite: será o que antigamente se chamava de "classes dominantes"? Se for, são um insignificante 1% da população, que detêm (e como detêm) uma renda igual à soma das rendas de outros 50% menos abençoados pela riqueza, o chamado "povão" – ou "povinho", conforme o palanque.

Ora, Excelência, essa elite quer qualquer coisa desde que não mude em nadica de nada o modelito econômico do governo Lula, espécie de samba-de-uma-nota-só criado pela turma do FHC, o Limpo, e entoado com cada vez mais vigor por Palocci & Cia. (estes, sim, blindados pra valer), agora quase encorpada (sem trocadilho) pelo Delfim "Czar" Neto. Dê só uma espiada nos lucros dos bancos...

No meio dos dois povos, se debate e "se vira" a turma da ex-classe média, agora classificada como "pobre-alta", pelos espíritos mais panglossianos. Essa parte do povo já não vê mais nenhuma graça nos tropeços verbais do Lula; acha que o presidente trabalha pouco (42%), é indeciso (40%), é pouco inteligente (38%), cifras que vêm aumentando ao longo dos dois anos e meio do governo. Essa parte do povo é a que mais sente a perda de poder aquisitivo (15% a 18%, nos dois anos, dependendo da fonte), e a que mais se ressente de mais uma rasteira, de mais uma "década perdida". A reeleição não é coisa assim tão fácil.

Água no chope

Não quero perturbar este momento de popularidade estável do presidente, mas, por dever de ofício, gostaria de chamar a atenção para dois pontos:

1. Esse negócio de ficar comparando a aprovação/desaprovação do governo Lula com a de outros presidentes (ou dos prefeitos, ou dos governadores) é uma bobagem imensa – para ser delicado. Não faz o menor sentido nem em termos lógicos nem em termos estatísticos: é o próprio "alhos com bugalhos". Dizer que FHC, com um ano de governo, tinha tantos por cento de aprovação, mais do que o Collor, porém menos do que o Sarney, um pouco mais que o Itamar e a metade do Getúlio Vargas, um terço acima do Tomé de Sousa, um quarto abaixo do Washington Luiz ... que tal parar com isso e gastar tinta com coisas mais sérias, como, por exemplo, uma matéria extensa sobre a coleção de bonés do presidente?

2. É prudente conferir a série histórica do percentual dos que acham o governo Lula péssimo+ruim.

Avaliação do Governo: Ruim + Péssimo


Fonte: Datafolha (23/7/2005). Nota: jun05* – 15/06/2005

Tirante os erros do gráfico, que reproduzimos como está no Datafolha (com as datas das pesquisas fora de escala), o prezado leitor pode ver que a coisa não está tão fácil para o presidente. Nos demais institutos, os números são parecidos: Ibope, avaliação do governo, 24% de ruim+péssimo; Sensus, avaliação do governo, 20% ruim+péssimo (todas elas ascendentes).

Para as avaliações do governo em bom+ótimo, Datafolha 35%, Ibope, 36% e Sensus, 40%. As margens de erro em torno de 2% e as tendências das curvas mostram que as extremidades da escala (desaprovação/aprovação) estão em tendência de aproximação, o que não é nada bom para as pretensões do candidatíssimo.

Para piorar um pouco mais a situação, ainda aparece o senador Eduardo Suplicy, que ameaça...

"...presentear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o livro A Democracia na América, de Alexis de Tocqueville. Suplicy quer que Lula reflita sobre as vantagens e desvantagens da reeleição, a partir das observações do filósofo francês." (Folha Online, 28/7/2005).

Lula irá ler, sim, nobre senador. Embora lame duck, é candidatíssimo, e estando em plena campanha, vai se debruçar sobre as pertinentes considerações do filósofo enquanto põe as barbas de molho, pois, afinal, entramos em agosto, um mês complicado na história política do Brasil, em situações muito parecidas como as de hoje. E esta semana promete.

***

nota 1: Para compilar estas estatísticas iniciais, imitando os jornalões, fiz uma verdadeira salada com os números de três institutos, Datafolha, Sensus e Ibope. Estes têm periodicidade, metodologia e amostragem diferentes, mas os resultados são similares.

nota 2: Um dos coveiros, o professor Luiz Carlos Bresser Pereira, 70, surfa na onda e quebra todos os recordes de caradurismo em um artigo para a Folha:

"O governo Lula terminou. Foi um curto governo, que no seu breve período frustrou esperanças e realizou pouco. As perspectivas de urna "volta por cima" são mínimas e o melhor que podemos esperar é que termine formalmente daqui a 18 meses sem maiores traumas. (…) os governos anteriores tiveram de fazer concessões aos parlamentares dos partidos aliados. Mas jamais da maneira como ocorreu desta vez, por meio de uma mensalidade por fora. O que se fazia era controlar as emendas dos parlamentares e reservar alguns cargos. O presidente Fernando Henrique, por exemplo, jamais confundiu seu governo com o PSDB e em nenhum momento sugeriu que seu tesoureiro operasse politicamente no governo. O presidente mal via a lista de doadores, para os quais era deixado claro que a doação não implicava nenhuma troca nem novas doações depois do pleito. (…) o governo perdeu sua base social de sustentação e, com isso, perdeu legitimidade política." ("O curto governo Lula", Folha de S.Paulo, 19/6/2005, pág. A3).

Sem comentários.

Engenheiro, professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

 

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