Pinturas rupestres estampam as cerâmicas produzidas por artesãos da Serra da Capivara, no Piauí. As ferrovias e as montanhas mineiras inspiram os móveis de indústrias de Ubá, em Minas Gerais. É o Brasil mostrando a cara.
Ou melhor, as caras. As duas iniciativas, que têm o apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e de parceiros privados, fazem parte do projeto Cara Brasileira, uma estratégia para agregar identidade cultural a serviços e produtos brasileiros.
Segundo Christiano Braga, coordenador do Sebrae na área cultural e responsável pelas ações do projeto, trata-se da "culturalização dos negócios".
"O Brasil tem uma identidade cultural muito rica e as empresas podem se beneficiar economicamente disso criando peças com elementos da cultura local", afirma.
Nada de estereótipos, nem caricaturas, trata-se da releitura de traços culturais em produtos que podem - e devem - ser globais. Braga também chama a estratégia de "economia de cultura".
No Brasil, a idéia ganhou força em 2002, a partir de um estudo encomendado pelo Sebrae à consultoria do sociólogo italiano Domenico De Masi.
O objetivo era saber se, como a Itália está relacionada com design e a Suíça com a precisão dos relógios, o Brasil também tinha uma cara. O resultado reafirmou a vocação brasileira para a diversidade: o país pode se diferenciar pela exuberância natural, hospitalidade e alegria do povo.
A partir das informações da pesquisa, setores começaram a se movimentar. O artesanato saiu na frente. "Fizemos um trabalho de resgate cultural com artesãos de diversos estados.
Eles foram buscar suas raízes, visitaram museus, estudaram e começaram a dar uma nova cara aos seus produtos", conta Durcelice Cândida Mascene, coordenadora nacional do programa de artesanato do Sebrae. Outro ponto foi criar um selo de indicação de procedência.
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| Vasos com desenhos que imitam pinturas rupestres. Empresa produz 5 mil peças por mês |
A cerâmica feita na Serra Capivara é um dos exemplos bem sucedidos do casamento artesanato e identidade cultural. Lá o trabalho exigiu ainda mais empenho, pois havia também a necessidade de preservação ambiental do parque da Serra Capivara, um dos mais importantes sítios arqueológicos das Américas.
Com o apoio da Fundação Museu do Homem Americano, o Sebrae capacitou antigos caçadores e agricultores para trabalhar como ceramistas. Montou-se uma empresa privada.
Em meados de 2002, a cerâmica da Serra da Capivara ganhou o aspecto que tem hoje: rústica e com reproduções de pinturas rupestres. "A cerâmica é de alta temperatura, pode ser usada em fornos, por exemplo. É decorativa e utilitária", explica Gisleide Maria de Oliveira, gerente da empresa.
A produção mensal da Cerâmica Serra da Capivara é de 5 mil peças. São pratos, xícaras, conjunto de sopa etc. A maior parte é comercializada no Brasil, em importantes redes de loja de decorações.
"As exportações começaram este ano, fizemos duas vendas para a Itália e estamos prospectando o mercado francês", afirma. Para a Itália já foram 6 mil, todas com a brasilidade bem estampada.
Cara mineira
Em Ubá, Minas Gerais, foram as indústrias de móveis que investiram na estratégia Cara Brasileira. Em 2003, as fábricas perceberam que precisavam dar um salto de qualidade e design se quisessem continuar crescendo.
A missão foi dada ao designer mineiro Dijon de Moraes. No início do ano passado, 11 empresas foram escolhidas para um projeto piloto: o desenvolvimento de uma coleção de móveis que tivesse design inovador, qualidade e fosse comercial.
O programa de Ubá foi logo incorporado às estratégias do Cara Brasileira: os produtos deveriam reunir aspectos regionais, "mineiridade", no caso. Um estudo foi encomendado ao antropólogo Antônio Grecco. Ele apresentou um dossiê sobre "o que é ser mineiro".
No trabalho apareciam três características importantes que foram usadas no desenvolvimento da coleção: a arquitetura barroca, a topografia e a riqueza mineral do estado.
Com essas informações, Moraes reuniu um grupo de 10 jovens designers e começou um trabalho para decodificar o estudo de Grecco.
A arquitetura das casas - sempre de paredes caiadas (brancas, pintadas com cal) e janelas escuras, azuis, principalmente - foi traduzida na presença de um contraste entre claro e escuro nas peças. "Todos os móveis têm partes claras e escuras", explica.
Os produtos também têm harmonia entre a reta das ferrovias, que transportam os minérios, e a curva das montanhas mineiras.
A riqueza mineral virou pré-requisito para a escolha do material. "Todas as peças têm metal e madeira", conta Moraes. Inicialmente, foram desenhados 66 produtos.
Depois de várias seleções, o grupo de Moraes chegou em 11 peças. São cadeiras, sofás, mesas e estantes que serão apresentadas ao mercado paulista no mês que vem, durante a 24° Feira Internacional de Vendas e Exportações de Móveis (Fenavem).
Para as empresas, o resultado veio ainda mais rápido. Segundo Moraes, dos 11 modelos, 10 entraram na linha de produção das empresas e, desses, quatro têm encomendas externas. Para o designer, um dos segredos da coleção é que os traços culturais dos móveis de Ubá são sutis.
"Não há elementos temáticos em excesso, não criamos móvel em formato de pão de queijo, por exemplo. E é isso que torna as peças de Ubá interessantes, podem ser vendidas em qualquer mercado", afirma.
anba
Jose Paulo Pinho 21-81218888