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Escrito por Caiuby Freitas   
Thursday, 28 July 2005
Em terras tupiniquins está agora em voga a aparição fantasmagórica da “mão invisível” do mercado das negociatas. Morda-se de inveja Adam Smith, pois sua metáfora sobre os imanentes mecanismos de auto-regulação do livre comércio, apresentada na célebre obra “A Riqueza das Nações”, ganhou nova e sofisticada roupagem.

Eis que a evidência de sua presença no mundo real surge de onde menos se espera: das inusitadas afirmações de ilustríssimos senhores que garantem que nada viram.

Diante das denúncias sobre a existência de uma economia que, aos olhos de muitos, estava igualmente invisível isto é, até mesmo, compreensível.
 
Imersos que estamos atualmente no universo do denuncismo, fica cada vez mais difícil conceber a grandiosidade do esquema de relações espúrias entre corruptores e homens de má fé. Nisso, perdem-se aos poucos as certezas mais resistentes.
 
O jogo de interesses vinculado ao suporte financeiro às campanhas eleitorais nunca foi novidade. Em um certo sentido, seria mesmo bobagem demonstrar qualquer surpresa diante da evidência de que agentes econômicos poderiam ter se envolvido por razões outras que não fossem as da afinidade ideológica ou doutrinária.
 
Não se trata necessariamente de um vício das democracias. Se de um lado há o imperativo econômico mínimo para a marcha em direção ao poder; de outro pode haver uma vinculação lógica e razoável de interesses que não afrontam a moralidade.
 
O problema está na possibilidade de um contágio prejudicial aos interesses de outros grupos. Neste ponto, é fundamental o controle da legitimidade das representações políticas, ideológicas e doutrinárias.
 
No Brasil, os grandes partidos pós-1964 jamais possuíram qualquer consistência programática que os aproximasse do poder e, ao mesmo tempo, possibilitasse amalgamar seus quadros e seus filiados em torno de uma identidade de pensamento cristalizada e de um projeto nacional persistente.
 
Talvez pela diversidade regional, pela história política ou por uma controversa legislação eleitoral, estabeleceu-se uma atmosfera propícia a conciliação de interesses diversos e, muitas vezes, contraditórios.
 
As siglas partidárias, que raramente representaram mais do que o suficiente para seu registro na Justiça Eleitoral, até então provocaram poucas conseqüências na definição dos rumos da política nacional.

Na verdade, a cada pleito há sempre muito mais especulação sobre o significado do voto do que o desejável para dotar de sentido qualquer motivação consciente.
 
Talvez por esta mesma razão, motivações dos eleitores principiem pela construção de uma imagem estereotipada e personalista da política, que permite, como efeito colateral, transferir valores morais para esta ou aquela legenda, esta ou aquela organização.

Não raro, no imaginário popular é persistente a expectativa pelo líder que se apresenta. Reminiscências do populismo latino-americano.
 
Diz-se que o tempo das ideologias passou e que as doutrinas dissolvem face aos imperativos do particularismo e da politicagem. Embora, dito desta maneira, pareça dramático, parece ter de fato havido um certo amolescimento das idéias. Conseqüência da descoberta da diversidade. Entretanto, a riqueza do que é relativo está na busca de novos limites.
 
Desde 1985, o cenário político brasileiro tem sido refém do relativismo exacerbado dos princípios democráticos. Via de regra, este relativismo esbarrou nos limites do que pode ser considerado ético, moral ou legítimo.
 
Após a derrubada do bastião institucional da ditadura militar, elegemos um presidente civil, mas, constitucionalmente, delegamos a seu vice o governo do país nos anos subseqüentes. Vice pelo PMDB da Aliança Democrática, mas também ex-líder do PDS e, outrora, deputado pela UDN.
 
Superados os cinco anos da primeira legislatura presidencial, em 1989, por voto direto e, conforme a Constituição de 1988, elegemos Fernando Collor de Mello após derrota da esquerda brasileira, à época representativa de massas sindicalizadas e de círculos intelectuais sobreviventes da ditadura.
 
A chapa eleita, por sua vez, agremiava interesses heterogêneos de elites agrárias e industriais sem expressividade nacional. O resultado foi um governo de co-opção, sem conteúdo programático, sem sustentação no congresso e orientado em torno de uma fraseologia mediocremente populista.
 
Terminou tristemente marcado pela política inconstitucional de confisco monetário, pelo “Esquema PC” e pelo Impeachment em 1992. No intervalo, mais um vice é surpreendido pelo poder e toma as rédeas do governo.
 
Em 1995 a 2002, assume o Fernando Henrique Cardoso sob a flâmula partidária da social democracia do PSDB — na prática uma direita progressista.

Também pouco identificado com as massas populares, o presidente eleito teve um governo marcado por conturbado período econômico e controverso processo de minimização do estado, que sugeriu uma guinada neoliberal incoerente com o programa de governo defendido desde as eleições de 1995.
 
Após desgastante segundo mandato, encerrou-se com a divulgação de gravações clandestinas sobre o leilão das Teles, além de denúncias que resvalaram nos bancos Marka e FonteCindam, ambos tematizados por uma CPI do sistema financeiro.
 
Em 2002, sob ao poder o PT representando uma corrente originalmente de esquerda que, tendo em vista necessidades de garantir maior representatividade entre segmentos de mercado, deslocou-se ao longo do tempo para o centro-esquerda, embora tendo mantido o mesmo discurso acalorado dos tempos do ABC paulista.
 
Com base parlamentar pulverizada entre pequenos partidos e,  com alianças com partidos com os quais não possuía qualquer afinidade histórica, o governo eleito viu-se em meio a disputas internas entre grupos mais e menos radicais que perdiam representatividade com a redução de seu espaço de manobra política, sobretudo, no Congresso Nacional.
 
Com capital político residual das urnas dado o persistente apoio popular à figura pessoal do Presidente da República, mas sem o mesmo controle sobre suas bases, o partido perde-se numa massa amorfa de interesses em vista do crescimento vertiginoso de seus quadros.
 
Na tentativa de garantir respaldo popular para as próximas eleições e pagar tributos a seus aliados transitórios, se vê às voltas a execração pública de dignitários do governo e da cúpula partidária através de denúncias de uso indevido de cargos públicos, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.
 
Tendo em vista o curso dos acontecimentos até o presente, é crível que houve realmente muito pouco tempo para nos empenharmos na consolidação de uma democracia respeitável, capaz de levar à cabo os critérios fundamentais da representatividade.
 
Esperemos, ao menos, que estejamos à salvo de radicalismos desnecessários e inconseqüentes que costumam aparecer nestas horas. O tempo dirá.

Caiuby Freitas, é cientista político. E-mail: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

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