|
Em geral nutrimos, a respeito de nós mesmos, uma opinião
acima de nossos méritos. E julgamos que o próximo pensa de
nossa pessoa aquilo que gostaríamos que ele pensasse.
Daí a dificuldade de indagarmos de nossos subalternos como
avaliam o nosso desempenho, quais as críticas que gostariam de
nos fazer, como ousou Jesus ao perguntar a seus discípulos como
o povo e, em seguida, eles próprios, encaravam a atuação dele
(Mateus 16,13-20).
Michel de Montaigne (1533-1592), que foi parlamentar em Bordeaux
e exerceu missões diplomáticas, em seus "Ensaios" -
que todo político deveria ler - afirmou:
"Nunca me ocorreu desejar um reino nem um império, nem
posições eminentes e de comando; não é o que viso: amo demais
a mim mesmo. A simples idéia do poder abafa-me a imaginação."
Amós Oz, romancista israelense, aconselha a literatura, exercício
de imaginação, como antídoto ao fanatismo. E indica as
leituras de Shakespeare, Gogol, Kafka e Faulkner.
O poder sobe a muitas cabeças. O que induz certos políticos à
prática da "carteirada", que consiste em exibir o
documento comprobatório de sua autoridade e indagar: "Sabe
com quem está falando?" Numa sociedade civilizada, ele
receberia em resposta a pergunta: "Quem o senhor pensa que
é?"
Católico convicto (morreu durante a celebração da missa),
Montaigne demonstrava aversão ao puxa-saquismo e profundo
respeito ao semelhante, sem distinção de posição social. Por
isso dizia: "se me desagrada lutar contra um porteiro, como
qualquer desconhecido, detesto igualmente ver abrirem-se alas de
admiradores à minha passagem.
Estou acostumado a uma condição discreta, tanto por destino
como por inclinação, e mostrei, em minha conduta na vida, que
antes me esforcei por fugir às grandezas do que por elevar-me
acima do lugar que Deus me deu na sociedade". (Livro III,
cap. 7). No capítulo seguinte, ele registrou: "É prazer
insípido e prejudicial tratar com gente que nos admira sempre e
sempre nos segue" (III, 8).
O desapego ao poder é uma ascese rara entre políticos, na linha
do que sugeriu Jesus no capítulo 22 de Lucas: "Os reis das
nações as dominam e os que as tiranizam são chamados
`benfeitores`.
Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o
maior dentre vós torne-se como o menor, e o que governa como
aquele que serve." (24-27)
Montaigne também chamou a atenção para essa dificuldade
lembrando que "Platão, que era um mestre em tudo o que
concerne ao governo dos Estados, absteve-se entretanto de aceitar
quaisquer funções" (III, 9).
É um desafio para o político ser fiel a si mesmo, às suas
origens, aos princípios que o conduziram à vida pública, livre
do risco de repetir com Fernando Pessoa "fui o que não
sou".
Montaigne teve melhor sorte, admitindo "desempenhei cargos públicos
sem me afastar de mim mesmo" (III, 10). A experiência de
quem conheceu inúmeras cortes européias levou-o à conclusão
de que "a maior parte das funções públicas tem algo de cômico,
`todos representam`, dizia Petrônio.
Há quem mude e se transforme em outro ser segundo o cargo que
assume; neste mergulham até o fígado e os intestinos, e mesmo
na privada agem como se estivessem no exercício de suas funções.
Gostaria de ensinar-lhes a diferençar as saudações que dirigem
à sua pessoa das que visam o mandato, o séqüito ou a mula que
montam" (III, 10).
Se todos que exercem funções de poder guardassem essa consciência
da "mula que montam", talvez não confundissem os
agrados de que são alvos com a sua verdadeira identidade. No
entanto, o mais nocivo no poder é exatamente a possibilidade de
reconstrução da identidade, adornada pelas rubricas do cargo.
É o que explica o excessivo apego de muitos à função pública,
ainda que tragam fama de corruptos e se metam em situações ridículas
à cata de votos.
Melhor mula era a de Balaão, o sábio que custou a entender que
Deus escolhera lhe revelar os desígnios divinos pela boca de seu
animal.
Ainda acredito que Deus continua a preferir o que é `desprezível
aos olhos do mundo`, como dizia Paulo, para manifestar-nos a Sua
vontade, como é o caso dos pobres e excluídos.
Mas há que ter humildade e prestar-lhes atenção.
Os monges, em sua sabedoria, adotam em suas comunidades
recursos para "não cair em tentação", como rezamos
no Pai Nosso. Quem se sente mais próximo de Deus corre o risco
de confundir-se com Ele, como ocorreu a Adão e Eva no Paraíso.Quando
ingressei na Ordem Dominicana, há quase quarenta anos, havia a
salutar prática do Capítulo de Culpas, embora o nome não me
parecesse adequado. Uma vez por mês a comunidade fazia sua crítica
e autocrítica. Cada frade punha-se na berlinda, de modo que
todos pudessem avaliá-lo.
* Jornalista, frei dominicano e assessor da Presidência da
República
adital
|