Já faz muito tempo que vivemos baseados em pesquisas. Pesquisa-se o clube favorito, carro adequado, perfume inebriante, mulher mais atraente etc. Há pesquisas para todos os gostos e formas. Uma delas me chamou a atenção. Via Internet foram entrevistadas 10.646 pessoas em novembro passado, sobre o que causa mais irritação ao brasileiro.
O resultado foi apresentado em maio de 2005, via Reader’s Digest, por Dirley Fernandes. Sérgio Buarque
Há até bem pouco tempo, o brasileiro era tido como um “homem cordial”, assunto abordado inclusive no livro de Sérgio Buarque, Raízes do Brasil, de 1936.
O brasileiro era alguém que levava tudo na brincadeira e aceitava os revezes com bom humor e galhardia. A coisa mudou e de forma bastante clara.
A cordialidade urbana minguou.
Até mulheres, que davam exemplos, hoje furam filas, fazem gestos obscenos ao dirigir, gritam e xingam por nada.
Dos homens, nem se fala. São os “machões” que sabem tudo, bebem em demasia, discutem muito, têm razão sempre e brigam em casa ou em público.
A pesquisa recebeu respostas de todo o Brasil. Gente de todas as classes sociais, bastando ter um computador conectado à Internet. O resultado foi por ordem de queixa. Explicando: a primeira queixa foi a que teve o maior percentual de respostas. A última: a que teve menor índice.
Deu Impunidade em 1º lugar. 65% dos pesquisados não acreditam que as leis sejam cumpridas no Brasil.
O 2º lugar (61%) ficou para a Violência, não só a urbana, nos estádios, mas a que se espalha nas cidades do interior e nas questões agrárias.
A Falta de Segurança ficou em 3º lugar (48%), incomodando brasileiros que referiram a assaltos, seqüestros, assassinatos, roubos de carros, casas e em condomínios, e a desarticulação das polícias.
O 4º colocado (43%) foi o Desrespeito às Leis. Todos se acham donos da lei, exigem-na e poucos a cumprem. Começa, por exemplo, com o vizinho que faz uma festa até às quatro da manhã e “faz porque pode”, não se importando com o descanso do outro.
A 5ª reclamação (34%) foi a Superlotação dos Hospitais Públicos. Esse item é tão claro que nem precisa explicar.
A Descortesia (33%) vem em 6º lugar. No Brasil ninguém pede licença, poucos agradecem ou dão bom dia. Um minuto de elevador parece uma eternidade.
Os Fumantes (32%) já caíram para o 7º lugar, mas ainda jogam pontas de cigarro pelas janelas dos carros, cospem após fumar, dão a última baforada dentro do elevador, e desrespeitam a proibição de não fumar em lugares fechados e climatizados.
Em 8º lugar (30%) vem o Lixo nas Ruas. Muita gente culpa as prefeituras, mas a outra acusada é a absoluta falta de cidadania. A rua é um depósito onde todos jogam tudo e esperam que retirem rápido, pois ele próprio, o Sugismundo, passa a reclamar.
Em 9º e penúltimo lugar (21,4%) vem os Engarrafamentos, muitos deles motivados por pequenas batidas de carros que não têm seguro e aguardam por perícias que pouco resolvem.
Por último, em 10º (21,3%) vem a Má Educação ao Volante. Todos têm razão, xingam, param nas faixas, pedestre não tem vez e isso, dizem, talvez se deva ao número de “flanelinhas” e pedintes que atormentam os guiadores brasileiros.
Afinal, o brasileiro é cordial ou não?
agência carta maior
por Belmiro Valverde Jobim Castor, que é professor universitário e diretor do Instituro de Ciência e Fé - O Brasileiro Cordial é uma espécie em extinção porque é difícil manter a cordialidade quando se leva uma vida extremamente estressante, lutando por emprego, passando horas numa condução superlotada e morando em cortiços.
É impossível ser cordial num ambiente em que prevalece a lei do mais forte e do mais esperto, em que o Estado se omite, em que os limites entre os agentes da lei e a bandidagem são tênues, e a vida e o patrimônio dos mais fracos estão permanentemente sob ameaça.
Mesmo que a cordialidade seja uma ferramenta de ascensão social e de acomodação de divergências profundas, que talvez devessem ser frontalmente enfrentadas para que o Brasil realmente encontrasse a modernidade social e política, é fora de dúvida que é muito mais fácil viver no país dos indivíduos cordiais do que em algumas sociedades modernas, em que direitos e obrigações individuais são defendidos a ferro e fogo, como é o exemplo de sociedade vivida pelos Estados Unidos.
O pior, dito como cordialidade brasileira - numa sociedade como a nossa a cordialidade e a tolerância extravasam facilmente para a falta de respeito mínimo aos direitos daqueles que são cordiais e tolerantes. O desrespeito aos direitos elementares dos outros, que é praticado no Brasil com o escudo da cordialidade, é um elemento detestável de nossa cultura nacional, diz Belmiro.
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