Ele já passou pelos maiores canais de tv do país. Já sofreu processos e ameaças, teve a conta e o telefone grampeados e atualmente "usa" os serviços de um segurança particular. O jornalista Paulo Henrique Amorim está prestes a lançar um livro e uma fundação que prometem mexer com a história da mídia no Brasil. Seu lema é simples "sou independente".
Anarquismo de gravata
Paulo, o jornalista, é visto como um cara difícil. “Obsessivo”, para quem trabalha para ele; “briguento”, de acordo com quem já o contratou; “workaholic”, segundo os que convivem com ele.
Paulo Henrique, o profissional, é dono de um dos currículos mais raros do jornalismo brasileiro. Antes da Globo, passou pelo jornal A Noite , pelas revistas Realidade , Exame e Veja [foi o primeiro correspondente da publicação em Nova York], para depois dirigir o Jornal do Brasil entre 1976 e 1984. Estreou na televisão há 21 anos, na extinta TV Manchete. Depois da Globo editou telejornais na TV Bandeirantes, na TV Cultura, dirigiu todo o jornalismo do megaportal UOL para, finalmente, chegar à TV Record, onde atualmente apresenta um programa diário nos fins de tarde chamado Tudo a Ver.
Paulo Henrique Amorim, o apresentador, só ficou realmente famoso no Brasil com o casamento com a Rede Globo. Foram cinco anos como comentarista econômico e editor de economia, e mais sete como correspondente da emissora em Nova York.
O divórcio, no entanto, não foi amigável. “A hegemonia da Globo é supernociva”, diz ele nesta entrevista exclusiva, no momento em que prepara o lançamento de Plim, Plim — A Peleja de Brizola Contra a Fraude Eleitoral [Conrad Editora, com previsão para julho].
Paulo Henrique, o pai de família, contradiz a versão oficialesca do apresentador que ancorou milhões de televisores na emissora do plim. Pai de Maria, fruto do único casamento, ele não economiza entusiasmo em relação ao trabalho da artista plástica Cláudia Amorim, sua esposa, juntos desde 68. “Aquela é minha mulher, aquela também”, aponta Amorim para as telas de uma das fases mais producentes da artista — uma série de auto-retratos nus.
Em três horas de conversa franca e objetiva, o bem-humorado apresentador ensina que para ser independente profissionalmente é preciso ganhar dinheiro.
Mas ataca o silêncio de jornalistas, escritores e artistas que, ao enxergarem injustiças nas empresas onde trabalham, viram o rosto com o argumento de que precisam trabalhar.
Sua mais recente paixão é a filosofia, mas acredita em software livre, torce pelo Google e defende a contracultura.
Paulo, o homem, garante que é feliz e, aos 62 anos de idade, sonha: “Quero ser mais anarquista”.
Jornalismo decadente
Como confiar no jornalismo? Paulo Henrique Amorim: As perspectivas são assustadoras, a queda da qualidade do jornalismo é muito grande. Mas como diz um grande amigo: “O jornalismo é essencial para a democracia”, então é possível que a sociedade acabe encontrando mecanismos para melhorar isso.
Você costuma criticar bastante a opinião no jornalismo. Por quê? Paulo Henrique Amorim: Isso sempre me preocupou muito. Quando você troca fato por opinião, você perde.
Mas seu programa atual na Record não é só feito de fatos, é? Paulo Henrique Amorim: Estou fazendo um programa que tem ingredientes de show business e ingredientes de jornalismo. Cada vez é menos perceptível o limite entre o entretenimento e a informação, e isso é um perigo. Agora, depende da mão de quem está lá. Eu espero deixar claro para o meu telespectador quando estou fazendo entretenimento e quando estou fazendo hard news [notícia] — o que já é um desafio.
Que tipo de informação você mais consome? Paulo Henrique Amorim: Televisão, telejornalismo e Internet. Sou um blogueiro e vivo acrescentando blog na minha área de trabalho. Estou louco para ver o que o Google vai fazer com o vídeo nos blogs. Isso me interessa muito, é sensacional. Quero que o Google ganhe, torço pelo Linux.
O problema dessa informação de Internet, de blog, é que os bloquieros precisam encontrar uma maneira de ganhar dinheiro, para poder investir na informação de qualidade. Do contrário, vai haver uma substituição da informação pela mera opinião.
É fácil você pintar um quadro assustador, “o fim do jornalismo informativo de profundidade”. Porém, com o blog, o Google e a Internet você rapidamente sai da informação superficial — se quiser. A Internet pode te levar a um blog, que te leva para as universidades, que te leva para os livros. Você pode domar a tecnologia, usá-la a seu benefício.
Contra o mainstream, pró-Linux... Você é um anarquista? Paulo Henrique Amorim: Eu gostaria de ser mais, mas sou obrigado a não ser [risos]
Livro Bomba
Você está para lançar um livro que investiga uma possível tentativa de fraude nas eleições para governador do Rio de Janeiro, em 1982, contra o Brizola, que acabou ganhando. Por que reviver essa história agora? Paulo Henrique Amorim: Porque algo precisa ser dito. Quando ainda estava no UOL, fiz uma série de entrevistas por conta da morte de Brizola. Ao término, escrevi um artigo intitulado “O outro golpe que o Brizola evitou”, que mereceu uma resposta muito dura de um funcionário da Globo chamado Ali Kamel, e uma réplica minha bastante mal-humorada. Foi quando surgiu o livro com a versão oficial da Globo [ Jornal Nacional — A Notícia Faz História , lançado por conta dos 35 anos do programa]. Eu disse “bom, então vou fazer a minha tréplica em forma de um blog na Internet”, que eu chamei de Plog, o blog do Paulo [www.plogdopaulohenrique.zip.net]. Por não ter condições de fazer esse levantamento sozinho, contratei uma equipe de profissionais e preparei esse Plog, que é a base do livro.

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| O jornalista em trânsito; Ouvindo José Simão, na época do UOL; Comemorando com a equipe e amigos do Tudo a Ver , seu atual programa na Record; “Orgulho da minha carreira” — com Mr. Jordan. | |
O debate que mudou o Brasil
Como foi aquele 14 de dezembro de 1989, o dia da famosa edição do debate entre Collor e Lula? Paulo Henrique Amorim: [...] A história é inequívoca, lapidar, cristalina no meu modo de ver. Você acha que na véspera da eleição do segundo turno, numa eleição entre Collor e Lula, o Dr. Roberto não ia dizer nada sobre a edição do debate? E no livro [ Jornal Nacional ] tem depoimentos de todos, só não tem o mais importante...
Comparamos as versões dos depoimentos no livro e nenhuma bate com a outra... Paulo Henrique Amorim: Claro, é aquela coisa, entrevistaram a orquestra, mas falta o maestro. Eu apareço no livro mais do que o Dr. Roberto! Uma maluquice desenfreada... [risos].
Quando o debate foi ao ar a Globo tinha grandes jornalistas trabalhando para ela que, mesmo depois de 16 anos, nunca se pronunciaram sobre o assunto. Gente do calibre de Armando Nogueira, Joelmir Betting, Lillian Witte Fibe, Monica Waldvogel... Paulo Henrique Amorim: Não posso falar por eles. Quando escrevi sobre isso, disseram que eu era um ressentido porque tinha trabalhado na Globo. Ora, eu trabalhei no jornal A Noite, na Editora Bloch, na Abril, na TV Bandeirantes... Uma discussão interessante é a confusão entre o trabalho servil e o trabalho assalariado. Fico perplexo com esse tipo de argumento pois eu não era trabalhador escravo, não tinha grilhões, não ia para o pelourinho, não andava descalço para não fugir da senzala. Eu sou trabalhador livre e vou trabalhar para quem eu quiser.
Você chegou a dizer que tinha “autonomia de vôo de uma barata”? Paulo Henrique Amorim: Lá na Globo, sim. Eu, editor de política, despachava com o Dr. Roberto...
Qual a sua versão sobre a edição do debate? Paulo Henrique Amorim: É importante observar que o Dr. Roberto entrou na eleição do Collor vendido. O Collor me disse em Nova York: “Eu não era o candidato do Roberto Marinho”. Dr. Roberto não era Lula e não era amigo do futuro presidente. O candidato dele foi o Covas e depois o Quércia. Ele errou a mão e depois usou o Alberico [de Sousa Cruz, diretor de telejornais de rede na época] como um instrumento da aproximação dele com o Collor.
Qual é a memória que você tem da figura do Dr. Roberto Marinho? Paulo Henrique Amorim: Eu tive pouco contato... Ele era uma pessoa muito gentil, muito arguta e muito objetiva. Uma vez dei uma notícia política delicada e ele me chamou na sala para dizer que eu não podia dar esse tipo de notícia sem sua autorização. E eu disse: “Mas Dr. Roberto, na minha coluna do Jornal da Globo, eu tenho dado muito furo”. E ele disse: “A coluna não é sua, a coluna é do Globo ” [risos] .
na parede
Você passa a impressão de ser um cara com bastante independência e que sempre diz o que pensa. Já sofreu retaliações? Paulo Henrique Amorim: ...de alguma independência e que às vezes diz o que pensa [risos]. Eu costumo dizer que a essência do sistema capitalista é você ganhar dinheiro para contratar advogado.
Você pensa na morte? Paulo Henrique Amorim: Ah, eu vou morrer num blog quando o blog tiver vídeo, nessa fundação que a gente está fazendo...
E tem a última? Paulo Henrique Amorim: A ultima é que eu sou um workaholic alucinado e preciso ir trabalhar! [Risos.]
trip
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__COnconrdo com muitos aspectos do que ele fala. É preciso usar o capitalismo para atacar a ele próprio: Encha o cofre de dinheiro e aí metralhe todos com sua opinião própria. Michael Moore faz isso, Frank Zappa fez, e espero que ele também, com seu livro bombástico!