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Eles chegaram no país a partir do século
19.Traziam na bagagem muita vontade de trabalhar e sonhos de riqueza. Vieram em
navios para aqui estabelecer suas residências, suas lojas, suas indústrias.
Hoje, os árabes, seus filhos e netos somam 12 milhões de pessoas. Estão à frente
de algumas das mais importantes fábricas e entidades empresariais. Sua cultura e
seus costumes estão na nossa culinária, música, vocabulário.
O empresário Gabriel Issa Bonduki desembarcou no Brasil em 1897. Bonduki tinha então apenas 18 anos. Veio da Síria para São Paulo de navio. Trouxe pouca coisa na bagagem, mas muita vontade de desbravar o país que na sua pátria era descrito como o paraíso do trabalho, a terra das oportunidades. Os europeus já sabiam disso e chegavam no Brasil aos milhares. Os árabes também começaram a chegar.
Para Bonduki não foi nenhum esforço comprar tecidos e rendas, colocá-las na mala e vender de loja em loja, de casa em casa. O Brasil era uma grande promessa de riqueza. E foi no país que falava um idioma bem diferente do seu que o jovem ficou. Chamou os irmãos, abriu duas lojas, mais tarde uma fábrica.
A história do patriarca Gabriel Issa Bonduki, já falecido, cuja família hoje mantém uma das mais importantes fiações da cidade, pode ser repetida com nomes e sobrenomes de outras mulheres e homens sírios, libaneses, egípcios, iraquianos, palestinos. A comunidade árabe começou a desembarcar no país há mais de cem anos. Hoje são mais de 12 milhões de imigrantes e descendentes espalhados pelos principais estados do país.
"Eles vinham atrás de uma nova vida", conta o jornalista e historiador goiano José Asmar, filho de imigrantes libaneses. A profissão de mascate, que a maioria exercia assim que punha os pés em terra brasileira, era uma honra para quem tinha viajado milhares de quilômetros em porões de navios, sem nenhum tipo de conforto. A maior parte dos imigrantes era pobre, sem terras para plantar ou trabalho no país de origem.
Não foi só por isso, no entanto, que eles ficaram. Mesmo quem tinha vindo apenas para fazer patrimônio e retornar, acabou mudando de idéia. O Brasil se tornou uma segunda pátria. Os imigrantes e seus descendentes são a maior colônia árabe do mundo.
"Os imigrantes árabes se adaptaram muito bem aqui, se integraram ao povo brasileiro. Hoje encontramos muitos árabes mais apaixonados pelo Brasil do que os brasileiros", diz Asmar.
Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Goiás foram escolhidos por eles para estabelecer residência, abrir suas lojas e indústrias. Em praticamente todos os estados, porém, há descendentes de árabes. No Paraná, onde chegaram entre 1915 e 1920, foram eles os pioneiros na indústria de madeira, móveis e construção. "Os árabes favoreceram a industrialização, a agricultura, o comércio e o setor bancário", diz o dirigente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira (CCAB) do Paraná, Kamal David Curi.
Em todo o Brasil eles se tornaram conhecidos como "homens de negócios". E fizeram jus ao título. Em São Paulo, são os filhos e netos de imigrantes que levam adiante centenas de lojas e indústrias da área de confecção. A maioria começou pequena, no Bom Retiro, no Brás, na Rua 25 de Março, abriu filiais, se tornou rede.
Hoje os árabes não estão apenas no comércio e na indústria, mas também no setor de serviços, na política e na saúde. Alguns ocupam o top do ranking de se seus setores e profissões, como Adib Jatene, reconhecido como o mais importante cardiologista do país, e Fuad Mattar, presidente da Paramount, uma das maiores indústrias têxteis brasileiras.
Guilherme Afif Domingos, presidente da maior associação comercial da América do Sul, a Associação Comercial de São Paulo, e Paulo Skaf, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) que toma posse ainda este mês como presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), são outros dois descendentes de árabes à frente da indústria e do comércio brasileiros.
Até no samba!
A cultura árabe se incorporou até mesmo às coisas mais simples do cotidiano brasileiro, como ao idioma. De acordo com o historiador Asmar, muitas palavras que começam com al, como alface e algarismo, são de origem árabe. "A cultura árabe está muito enraizada aqui", diz. Em torno de cinco mil palavras originárias do idioma árabe fazem parte do vocabulário brasileiro. Algumas foram assumidas regionalmente, como alfombra, usada pela população dos estados do Nordeste para denominar "cortina".
A cultura e os costumes árabes se misturaram até aos pratos e à música brasileira. Kibe e esfiha, por exemplo, podem ser encontrados em todo lugar pelo Brasil. Há influência árabe até no samba. O instrumento de percussão adufe, árabe, deu origem a um tipo específico de batida de samba, utilizada hoje por escolas como a Portela.
Brasil, a nova pátria
A comunidade árabe brasileira é formada principalmente por sírios e libaneses, mas há imigrantes e descendentes de quase todas as nações árabes. Os imigrantes árabes e seus descendentes somam 6,5% da população brasileira. Há no Brasil mais libaneses do que no próprio Líbano, onde são 3,7 milhões os habitantes. Tanto que as histórias dos árabes que chegaram no Brasil entre o final do século 19 e 20 são numerosas.
Todas elas contam sobre muito trabalho. O empresário brasileiro Emílio Bonduki, 95 anos, gosta de relatar a história que começou em 1897, quando seu pai, Gabriel, chegou da cidade síria de Homs no Brasil. "Papai contava que todo mundo queria vir para América, pois diziam que era mais fácil arrumar emprego e começar um negócio", diz Emílio.
Depois de trabalhar como mascate por vários anos, Gabriel abriu, em 1905, sua primeira loja de varejo na rua São Caetano, no bairro da Luz. Mais tarde, em sociedade com o amigo Bechara Moherdaiu, abriu a loja de tecidos B. Moherdaiu e Cia, que vendia por atacado na rua 25 de Março. Já em 1915, Bonduki e seus sócios construíram a fábrica de fiação de algodão. Gabriel também foi o primeiro presidente sírio do Clube Homs, formado por ex-moradores da cidade síria.
"Papai adorava o Brasil. Era um país que oferecia grandes possibilidades de negócios e recebia os imigrantes com muito carinho e uma atenção fora do comum", explica Bonduki. Gabriel gostou tanto do país que acabou convencendo os irmãos e os primos, que estavam na Síria, a se mudarem também para o Brasil.
Emílio Bonduki acabou nascendo, em 1909, em um dos ninhos árabes de São Paulo: no bairro do Bom Retiro, pólo de confecções. Em 1921, Emílio foi estudar na Síria, onde recebeu do governo um diploma de literatura árabe de Damasco. "Aprendi a falar árabe, francês, alemão e inglês", diz Bonduki.
Depois de se formar, ele trabalhou por cinco anos no Banco da Síria e do Grande Líbano e voltou para o Brasil, no final de 1934. Encontrou um país devastado, se recuperando de uma crise. Foi a vez de Bonduki retribuir e dar sua contribuição ao país.
Trabalhou como gerente na fábrica de fiação de um primo e alguns anos depois, em 1941, abriu a loja Bonduki Bonfio, que vende todos os tipos de tecelagem para costura e funciona até hoje sob sua direção. Ele também foi diretor da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB) e responsável pelo reconhecimento oficial da entidade perante a União Geral das Câmaras em 1994. Emílio é ainda um dos diretores do orfanato Lar Sírio Pró - Infância e ajudou no desenvolvimento da Sociedade Beneficente A Mão Branca, que cuida de idosos.
"Meu apelido era 'o mendigo', pois sempre procurava firmas que tinham posses para arrecadar fundos para as crianças carentes", lembra Bonduki. "Como eu sempre gostei do Brasil, achava que tinha que fazer alguma coisa para a classe menos favorecida", diz.
Do árabe
Alguns exemplos de palavras árabes incorporadas ao vocabulário brasileiro: alface, almanaque, alfaiate, bazar, mascate, almofada, alcaide, arroz, açúcar e alfombra.
anba
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