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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 11 July 2005
Eles passarão, diria o Quintana
Doeu quando Sarney (sim, esse mesmo Sarney que agora é pilar de sustentação do governo) nos deixou com una inflação de 90%, mas ele não era o Tancredo que o povo elegera pondo fim à ditadura.

Quando Collor, representante de uma oligarquia nordestina, assumiu, a burguesia tinha medo do Lula, mas o tempo deixou bem claro ser restrita a confiança do homem da rua naquele sujeito de olhar vidrado (ou seria melhor travado?).

Sem contar que a farsa da edição do debate pairou sempre como nuvem negra sobre a licitude do resultado da eleição.

Com Itamar, além do mandato-tampão, estávamos apenas diante de um baianeiro, mais baiano que mineiro, um destrambelhado cujas pirações começavam em Juiz de fora e iam até, e por falar em tampão, a Miriam Ramos sem calcinha na Sapucaí.

Quando FHC partiu para a política de alianças, em nome do pragmatismo político, também não foi o que se esperava, apesar das inegáveis conquistas do plano Real, que o próprio Fernando Henrique ajudara a implantar no governo Itamar e que consolidaria no seu.

De qualquer modo, todo o PT, além de parte da imprensa e do pensamento dito progressista, cobravam dele firmeza suficiente para fazer o que devia ser feito sem pedir a bênção ao ACM.

Em todos esses momentos, o PT aparecia no fundo da cena como a última reserva ética e moral, como a grande vestal imune a todas as tentações, a todos os vícios, a todas as mazelas da degradação humana e política que afligia os brasileiros impuros, isto é, aqueles ainda não tinham percebido que “dá pra ser feliz”, que “Lula lá, brilha uma estrela”.

O descaso de FHC com os servidores e a falta de carisma de Serra criaram o terreno fértil que Duda Mendonça adubou como um encantador de serpentes – e Lula alcançou uma votação mais de duas vezes maior do que o número de petistas podia assegurar.

Estava feita a aposta – vencida e comemorada nas ruas como nenhuma outra. Com o PT haveria de ser diferente. O PT era vinho de outra pipa, mas não tardou muito para que se percebesse que o Romanée Conti não era só uma metonímia equivocada e perversa.

Com a laparotomia do governo Lula, à vista da opinião pública e sem anestesia, enfim, perde-se mais do que das outras vezes – por que não se vê, no fundo do quadro, nenhuma perspectiva, nenhuma esperança, nenhuma nova liderança capaz de emocionar ninguém.

Nenhuma luz no fim do túnel. Esse é o grande dilema da crise – inclusive por que está todo mundo convencido que Roberto Jefferson só sabe o que sabe por que era parte do problema.

E Garotinho, embora a pretensão descabida de ser o salvador da pátria, precisa cuidar antes de salvar a própria alma, já de si tão pecadora.

O drama, enfim, é exatamente esse: qual é a alternativa? O que fazer diante de uma desilusão que não deixa pedra sobre pedra e não permite ao eleitor agarrar-se a nenhuma tábua de salvação?

Cá entre nós: só com muita cara-de-pau esses que aí estão, e passarão, não passarinho, terão a coragem de entrar em sua casa, no horário eleitoral e pedir o seu voto.
 
Um soco no saco
Perdão, leitor. Em tempos internéticos, qualquer coisa que tenha ocorrido há mais de uma semana é mais velha que um pandeiro adufo. Mas faço questão de registrar: a força do Flamengo, em campo, hoje em dia, é rigorosamente proporcional à força fora de campo.

No jogo com o Atlético, o time sofreu um pênalti irregular, teve um pênalti ignorado e o adversário deveria terminar o jogo com pelo menos dois jogadores a menos (um deles, deu um soco no saco do Renato, na cara do juiz e das câmaras).

Resultado: 3 x 1 para o Atlético e bastaria um mínimo de honestidade e podia ser, ao menos, 2 x 2. É que o presidente do Flamengo é tão inerte quanto aquele outro que não consegue decidir nem uma reforma ministerial.
 
Duas faces do Rio
Clube Renascença, Andaraí. Tarde de segunda-feira. Moacyr Luz anima uma roda ironicamente chamada de “O Samba do Trabalhador”. Mais de cem pessoas cantam e dançam, bebem e brincam, aplaudindo Beto Cazes, Zé Luiz do Império, Marquinho Santanna, Adilson Bispo, o próprio Moacyr e diversos outros sambistas.

A quadra do clube que primeiro se orgulhou e proclamou a negritude no Rio, ainda nos anos sessenta, pulsa outra vez..

O sucesso e a alegria do evento justificam que se queira passar a Moacyr a faixa de prefeito espiritual da cidade, honraria vitalícia de Albino Pinheiro; quem duvidar que vá, numa dessas sextas, à feira-livre que acontece na rua em que ele mora, a Garibaldi, na Muda.

Lá, entre 11 e 15 horas, o compositor vem reunindo a nata dos boêmios do Rio, entre copos de cerveja, doses de cachaça, peixe frito na própria barraca e o humor de amigos como Lan, Monarco, Zé Renato, Jaguar, Chico Caruso, Luiz Carlos da Vila, Mello Menezes, Chico Paula Freitas, Paulão, Henrique Cazes, Carlinhos Sete Cordas e tantos outros. Pode ser melhor?

Moacyr Luz: "O Samba do Trabalhador" em contraponto ao Prêmio Multishow

Terça, à noite. Prêmio Multishow, canal 42 da Net. Pode-se imaginar o que leva pessoas com o passado de Caetano Veloso, Nelson Motta, Jorge Benjor e o grupo Fundo de quintal a participarem daquele embuste.

Mas é impossível não deplorar o nível de indigência a que chega a tevê brasileira, querendo levar à reboque a nossa música popular. O telespectador, que não sabe como se processa o resultado do concurso (fala-se, vagamente, em votos pela Internet, jamais conferidos ou auditados), deve ter certeza de que aquilo que a emissora vende como uma festa da música brasileira é uma fraude.

Inclusive por que é difícil, senão impossível, buscar, na nossa história musical, um espaço onde encaixar talentos como os de Tati Quebra-Barraco, Pitty, Junior, Marcelo D2 e similares.

Para coroar o evento como manobra mal-disfarçada das multinacionais do disco, lá pelas tantas, Nelson Motta chamou André Midani para entregar um prêmio. Um Dramin, por favor.
 
Festivais, de Angra a Búzios
“Pra invejar Caymmi”, de Marcos Lima, foi a grande vencedora do IX Festival de Música e Ecologia de Angra dos Reis. A final foi no ambiente paradisíaco de Ilha Grande e no júri estavam Elton Medeiros e Zezé Motta.

Em segundo, ficou “Boi de arrebatação”, de José Carlos de Oliveira, que era a preferida das mais de vinte mil pessoas que acompanharam o festival, que terminou bem depois da zero hora de domingo. Registre-se que a multidão não arredou pé, prestigiando o show de encerramento de Ivan Lins.

E, por falar em festival, começa neste dia 15, sexta, o 8º Visa Búzios Jazz & Blues. Às 22 horas, no Pátio Havana, apresenta-se o Pagodes Jazz Sardinha’s Club.

À meia-noite, no Chez Michou, é a vez do gaitista Flávio Guimarães. O festival prossegue no sábado com Beach Jam (Praia da Tartaruga, 18 horas), Jefferson Gonçalves (Praça Santos Dumont, 20 horas), o grupo australiano The Blues Fusion (Pátio Havana, 22 horas) e os americanos Jamie Wood e Johnny Rover (Chez Michou, meia-noite).

Semana que vem é a vez de, na quinta, Carlos Malta (Pátio Havana, 22 horas) e os argentinos Dall & Botafogo (Chez michou, meia-noite); sexta, Bech Jam (Praia João Fernandes, 18 horas), Septeto Euphônico Moderno de Ed Motta (Praça Santos Dumont, 20 horas), os ingleses Trevor Watts e Jamie Harris (Pátio Havana, 22 horas) e Kurt Brunus e Cynthia Bland (Chez Michou, meia-noite); sábado, Beach Jam (Praia João Fernandes, 18 horas), Leo Gandelman (Praça Santos Dumont, 20 horas), Dall & Botafogo (Pátio Havana, 22 horas) e Vernon Reid e The Masque (Chez Michou, meia-noite).

Tomara que o tempo ajude.

Por e-mail:
“O que você falou sobre o livro do Nattiez foi sumário, mas de absoluta precisão: ele não tem medo de tomar posições, coisa rara nos dias que correm.” (Luiz Paulo Sampaio, musicólogo, Rio de Janeiro, RJ)

robertobienal3jk.jpgRoberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (1)Add Comment
Prêmio Multishow no nível de indigência
escrito por Visitante, 2005-08-09 22:33:39
um dramin pra mim também, por favor...
na boa, não posso nem pensar em ouvir a mediocridade musical de um junior lima, um felipe dilon, uma wanessa camargo, latino(o cara late mesmo)... coitada da galerinha da geração teen só tem lixo pra curtir e consumir ... imagine só de pensar que estes rascunhos de projetos mal feitos de cantores ganham "prêmios" de melhores representantes da música brasileira... me dá verdadeira "ânCia"..de tão falsificados que os caras são. ehehe.. putz...

Zeca

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