Em 1992, a crise do presidente Collor ameaçava ser apenas um pequeno pé de página nos livros futuros da história do Brasil.
Em 2005, a crise já ameaça capítulos inteiros: o presidente Lula e o PT, os símbolos e projetos de esquerda para o Brasil. A crise atual é muito maior do que a crise anterior, por uma simples razão: Lula é muito maior do que Collor.
A primeira foi uma crise política conjuntural, a segunda é uma crise histórica, pois reduz a chance de mudanças estruturais no País.
Na origem, não há como comparar o tamanho da crise, porque Lula não é Collor, o PT não é o PRN; as pessoas que rodeiam o Presidente e o governo têm história, princípios, propósitos completamente diferentes daqueles que rodeavam Collor.
As conseqüências também não são comparáveis: o fracasso de Collor significava apenas o fracasso de um engodo; o fracasso de Lula significará o fracasso de uma esperança.
Na origem, a crise política atual é muito menor. Em termos históricos, porém, ela é muito maior.
Por isso, a responsabilidade do próprio presidente Lula e de cada um dos líderes nacionais, do governo ou da oposição, é muito maior, do que em 1992.
Se fracassarmos agora, descaracterizaremos um partido que chegou a reunir 800 mil militantes, combativos, comprometidos, com sonhos. Ameaçaremos a crença de que é possível completar a Abolição e a República, colocando no poder um representante dos antigos escravos, capaz de conduzir as mudanças que libertariam os pobres do Brasil.
Destruiremos um símbolo que uniu esse partido e empolgou a população, dando-lhe esperança de que o Brasil seria capaz de avançar, de sair do eterno ciclo de república incompleta que não completa a abolição.
Quebrar a barreira que separa a minoria aristocrática e privilegiada de maioria popular, excluída. Inverter as prioridades que há séculos canalizam os recursos nacionais em benefício de poucos.
Transformar a sociedade para construir uma nação integrada, da qual todos se sentissem parte, sem exclusão.
Esses objetivos, que outros países souberam construir, nos foram apresentados, durante toda a nossa história, com uma utopia impossível, uma etapa postergada para algum momento no futuro distante, uma proposta demagógica para os períodos eleitorais.
Por isso essa crise é tão grande, do ponto de vista de suas conseqüências históricas, embora do ponto de vista da origem, moral e política, seja menos grave do que a crise de 92.
Lula e o PT, juntamente com outros partidos de esquerda, ainda representam a possibilidade não somente de sonhar - única possibilidade deixada pela direita para os militantes de esquerda - mas também de construir o sonho.
Daí nossa responsabilidade: não deixar de sonhar que ainda é possível construir o sonho.
Para tanto, a crise política e moral não pode ser relegada. Ela existe, independente da realidade, porque a opinião pública perdeu a confiança no PT, e a confiança no presidente Lula já está ameaçada.
A crise deve ser enfrentada com transparência, com autocrítica, com esperança. Sobretudo, com responsabilidade histórica.
Cristovam Buarque, 61, doutor em economia, é senador pelo PT-DF. Foi ministro da Educação (2003-04), governador do Distrito Federal pelo PT (1995-98) e reitor da Universidade de Brasília (1985-1989). Sua homepage - http://www.cristovam.com.br e-mail:
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