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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 04 July 2005
Padeirinho e a semiologia musical
Até onde dois livros sobre a música podem ser diferentes, tudo separa “Padeirinho da Mangueira” (Hedra), de Franco Paulino, de “O combate entre Cronos e Orfeu” (Via Lettera), de Jean-Jaques Nattiez

– mas faço uma provocação: aqueles que forem capazes de entender, e amar, a música para além das fronteiras dos gêneros, só têm a ganhar se dedicarem algum tempo às páginas que retratam o partideiro e compositor mangueirense e aquelas que focalizam a semiologia musical, em cuidada tradução de Luiz Paulo Sampaio, professor da UNIRIO que foi orientando do próprio Nattiez na Europa.

Perdi – e vejo pelos jornais que foi um sucesso – o lançamento do livro de Franco Paulino. Mas sua visão de Padeirinho andava comigo pelo passeio que tive que dar a Salvador, Cachoeira e Feira de Santana, na Bahia. As páginas do “retrato sincopado de um artista”, ademais, me levaram de volta ao Pára Quem Pode, às tertúlias em que nós, jovens, babávamos diante da verve de um Carlos Cachaça e da poesia de um Cartola.             

A obra de Nattiez é densa. Ao contrário da leitura antropológica, o que me atrai no pensamento do musicólogo canadense, é que ele não descarta, em momento nenhum, a estética nem o juízo de valor. Diz, por exemplo (e eu assino embaixo): “certas interpretações são mais válidas e, mesmo, mais verdadeiras (não tenhamos medo das palavras) que outras”.

Franco afirma a mesma coisa quando lembra que João Nogueira “conseguiu registrar em disco aquela que é considerada por todos – público e crítica – a melhor de todas as gravações de ‘Linguagem do morro’, dos mais executados sambas do ‘filólogo’ Padeirinho”. 

 Novo CD de Leo Gandelman marca a sua volta ao Brasil

O “Lounjazz” de Leo Gandelman
Sem ser experimental ou pseudo-vanguardista, Leo Gandelman é músico com absoluto domínio do que faz e do que pretende com o que faz. Este “Lounjazz”, lançado agora pela Rob Digital, marca a sua volta ao Brasil depois de um período em que viveu nos Estados Unidos, empunhando com a dignidade de sempre a sua variedade de saxes e estilos. Como o nome diz, contém faixas de assumido apelo comercial – mas mesmo nelas se vislumbra sua alma de artista.

Ouçam, por exemplo, seu “Tico Tico Lounge”, uma variação em cima do clássico de Zequinha de Abreu, que vai de Ray Conniff à percussão eletrônica, e “Canto de Ossanha” (Baden Powell e Vinícius de Moraes). Ou, em releitura mais sóbria, o clássico “Inquietação” (Ary Barroso), em que conta com a participação especial da cunhada Zélia Duncan. Entre as faixas autorais, um destaque absoluto: “Bossa rara”, melodia fluente em arranjo nobre com solo de sax-tenor.
 
De embuçado e marialva
Descubro num blog alfacinha, O Acidental, uma crítica musical de certo Rodrigo Moita de Deus sobre um show perto de Lisboa. E sua coluna é música pura, irresistível:

“No que toca ao fado nem sou conservador. Tenho preferências, é certo. E olho com desconfiança para as meninas que insistem em tratar o tom da varina como se fosse um clássico americano para cantar em cima de um piano. Nem de propósito chegou-me ontem às mãos um CD de João Ferreira Rosa ao vivo no Cassino do Estoril.

Quem gosta de noites caturras, sabe que o senhor não tem vasta discografia. Que a voz lhe sai melhor quando o caldo parece entornar. Que gosta das coisas simples e que pelo meio suspira um inspirado Viva o rei! Por duas vezes tive o privilégio de o ouvir, ao vivo, cantar o embuçado.

É uma sensação de pertença depois de ver os amigos trautear a letra ao ritmo das imperiais. É uma espécie de iniciação para o marialva, tão importante como o segundo olho negro ou o primeiro pifo de carrascão. O embuçado está para o caturra como o venham mais cinco está para o barnabaico. Depois de Ferreira Rosa deviam queimar a letra da música, para que nunca mais ninguém o voltasse a cantar.”

Essas charadas com a língua são comuns mas, no caso do Moita de Deus, ainda não consegui traduzir o que sejam, musicalmente, o embuçado (mascarado) e o venham mais cinco.

O mais, é simples: varinas são vendedoras de peixe, barnabaico se refere aos barnabés, funcionários públicos. E imperiais são os nossos chopes. Pifo de carrascão é porre de vinho rascante. E marialva é o fado boêmio, malandro.
 
“Saravah” em DVD
A Biscoito Fino convida para um bate-papo e noite de autógrafos com o cineasta francês Pierre Barouh, autor de “Saravah” - filmado em 1969 no Rio de Janeiro e lançado agora em DVD, com Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Baden Powell, João da Baiana e Pixinguinha. Vai ser nesta quinta, dia 7, na Livraria da Travessa – Ipanema (R. Visconde de Pirajá, 572), a partir das 19:30 horas.

Por coincidência, como me lembra o Ricardo Vilas, no mesmo dia em que Martinho da Vila faz show no Olympia, em Paris, cercado de chamadas como “um concerto excepcional”, “um dos mais populares sambistas do Brasil”, “esta é a voz do autêntico samba”.

Martinho, aliás, depois de dedicar um CD às afinidades franco-brasileiras, acaba de lançar o livro “Os lusófonos” (Ciência Moderna), em que mergulha, mais uma vez, no seu objeto de pesquisa predileto: as questões que envolvem a língua portuguesa, de Macau à Ilha Terceira, de Duas Barras ao morro do Pau da Bandeira.
 
Boudrioua e Raízes do Samba
na festa do SINPRO

No Copa Leme, clubezinho simpático da Ladeira Ary Barroso, vai ser a festa da chapa “Movimento e Ação”, liderada por Francílio Paes Leme,  à presidência do Sindicato dos Professores do Rio.

Começa às 19 horas, com entrada franca e programação eclética: Idriss Bourdioua e quarteto (jazz e música brasileira), Roberto Mendes e regional (choro) e o grupo Raízes do Samba.
 
A morte de Gerard Behague
Como Verger e tantos, Gerard Behague era um europeu apaixonado pelo Brasil e pela cultura brasileira, que conhecia como poucos (e desde os tempos em que estudou no Liceu Molière, em Laranjeiras). Nos últimos anos, era professor de Musicologia na Austin University, nos EUA – e devo registrar que dele só ouvi conselhos e toques pertinentes, usados sem parcimônia na minha tese “No princípio, era a roda”.

Em 2000, num Congresso na Colômbia, saímos juntos para um jantar inesquecível, em Bogotá, junto com o também musicólogo Antonio Ikeda, de São Paulo. Esperava revê-lo, em agosto, num outro congresso, em Buenos Aires, e recebo por e-mail a notícia de que ele se foi no dia 13. Tenham certeza: a discussão sobre as nossas questões musicais ficou mais pobre.
 
Blues no CCBB
Ivo Pessoa e Big Joe Manfra, Blues Power Trio e a Jefferson Gonçalves Trio são as atrações da série “É tempo de blues”, que começa amanhã, no CCBB.

Vai até o dia 26, sempre às terças, 12:30 e 18:30 horas, com ingressos a R$ 6,00 e R$ 3,00. Manfra, como o leitor sabe, foi um dos destaques do recente Rio das Ostras Jazz & Blues
 
Por e-mail:
“O website www.joyce-brasil.com, criado originalmente em 2000 por um fã nos Estados Unidos, agora virou meu website oficial, mantendo o mesmo endereço, mas todo redesenhado por Philippe Leon, com textos de Iz Sato e Daniella Thompson, fotos, raridades, discografia, obra completa, etc. Ficou lindo! Confiram.” (Joyce, cantora e compositora, Rio de Janeiro, RJ)

Roberto M. Moura, é carioca jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ (atualmente, faz parte da equipe fixa do “Comentário Geral”). Email: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (1)Add Comment
...
escrito por Maria Lucia, 2007-11-21 18:14:56
Acabei de lê sobre a morte de Gerard Behague e fiquei muito triste. Sou ex cunhada dele e já estou separada de seu irmão algum tempo tendo perdido o contato com a familia. Gostaria de me comunicar com as filhas dele. Se tiverem algum e-mail da familia por favor me enviem. Obrigada

Maria Lucia L. Corrêa

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