Como existem os “pecados capitais”, de onde brotam os pecados pessoais, assim também existe a “corrupção capital”, geradora de muitas corrupções derivadas e conseqüentes.
A palavra “capital”, no contexto da corrupção costuma aparecer em forma substantiva. Na verdade, “o capital” tem um potencial inato de corrupção. Mas a palavra aparece também em forma adjetiva, qualificando as raízes da corrupção. Assim, existem “corrupções capitais”, capazes de suscitar muitos atos de corrupção concreta.
Essencialmente, corromper é desvirtuar as finalidades, é inverter os valores, é tornar mau o que em princípio deveria ser bom.
A primeira corrupção capital é praticada pelo sistema econômico mundial. Ele corrompe o Estado, colocando-o a serviço das multinacionais. Desta maneira, o Estado fica impedido de direcionar a economia para o bem comum.
Esta corrupção do Estado se faz de diversas maneiras. Primeiro, diminuindo o Estado ao seu tamanho mínimo, para que seja fraco e submisso aos interesses maiores das transnacionais.
Depois, minando as responsabilidades do Estado através de privatizações de setores que mais possuem incidência econômica, sob a falsa alegação de que não cabe ao Estado lidar com economia.
Se o sistema esbarra na consciência das pessoas, ele parte direto para o suborno. Fica-se sabendo, por exemplo, que determinada obra é a “usina dos dez por cento”, tal a propina levada por quem mediou a compra das turbinas. Com isto, propaga-se a cultura da corrupção, como se ela fizesse parte da engrenagem natural da economia.
E’ sobretudo este mau exemplo vindo do funcionamento do sistema econômico mundial que difunde a mentalidade de que corromper pessoas faz parte do próprio processo político e econômico.
O neo liberalismo, que reduz a finalidade do Estado à função de suporte jurídico dos contratos, é o maior patrocinador da prática da corrupção, envolvendo esferas públicas e privadas.
As licitações são terreno propício para o concubinato entre empresários particulares e funcionários públicos. Muitos atos de corrupção nascem desta promiscuidade de interesses particulares, em detrimento do interesse público.
Mas existem outras corrupções capitais, com suas respectivas corrupções derivadas.
O político populista corrompe as expectativas da gente simples, com a falsa promessa de que ele vai resolver os problemas. Assim a participação da cidadania fica desvirtuada e impedida de atuar.
O messianismo corrompe a religiosidade do povo, tirando-lhe a energia positiva que ela possui, colocando-a a serviço da promoção pessoal. A mistura de religião com a política propicia muitas corrupções, tanto piores quanto mais revestidas de motivações transcendentais.
O político oportunista se elege para encontrar abrigo para suas trapaças na imunidade parlamentar. Corrompe para ser eleito e corrompe depois com mais segurança.
As “emendas no orçamento”, pelas quais os congressistas dispõem de determinadas quantias para distribuir à sua clientela, corrompem a finalidade do Legislativo, e viciam o relacionamento com o Executivo, fazendo os parlamentares parecerem um bando de chupins abrigados em ninho alheio, prontos para um grande alarido quando alarmados por alguma CPI.
E’ por estes caminhos que a corrupção vai se infiltrando na mentalidade e na prática política e econômica.
A inversão desta tendência exige uma atenção contínua e uma firme disposição de pautar a conduta por critérios éticos, repelindo com firmeza toda cumplicidade ou conivência com atos ilícitos.
Contra a corrupção capital, a vigilância radical, a denúncia firme, e o testemunho de coerência ética!
* Bispo de Jales, São Paulo
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