Diante dos indícios de corrupção nos Correios, foi constituída a Comissão Parlamentar de Inquérito, para apurar os fatos, e se for o caso, apontar os culpados.
Mas todos ficamos com a sensação de que o problema não se limita a este episódio. Não que agora se deva engolir, ingenuamente, todas as acusações que vão surgindo, e que alimentam tiragens excepcionais de revistas e de jornais.
Pois é preciso também não embarcar nas ondas tramadas para desmoralizar as pessoas e tirar proveito da confusão causada pelos noticiários.
O problema é que se implantou, endemicamente, uma mentalidade perversa, segundo a qual os cargos políticos e os recursos públicos são objeto de pilhagem, à disposição dos que conseguem abocanhá-los com mais esperteza.
Assim, a política passa a ser vista como uma farra, onde se justifica o abuso, e a consciência vai perdendo os escrúpulos pela constância da prática que vai ficando impune.
Para corrigir este mal não bastam remédios superficiais. Quando o organismo manifesta uma hemorragia profunda, requer uma intervenção urgente.
Este o diagnóstico a ser feito, olhando não só os episódios de agora, mas observando-os à luz de uma tradição que vem há muito tempo. Existe uma espécie de sangria desatada.
Requer-se uma reforma política em profundidade. Esta a esperança que ainda é possível ter nas circunstâncias em que nos encontramos.
Alguns lances apontam, com evidência, para vícios que precisam ser corrigidos. Diante da gastança política, é preciso advogar com vigor a austeridade, a dedicação ao bem público, a seriedade, a competência.
É estranho que um presidente da Câmara, eleito por "acidente" político, logo pense em abocanhar uma diretoria da Petrobrás para os seus compadres. Como se as estatais que funcionam bem devessem estar a serviço da ambição dos políticos!
Esta deveria ser uma das decisões: recuperar a valorização e o respeito pelos funcionários públicos que se mostram responsáveis e competentes.
As diretorias da Petrobrás, por exemplo, não deveriam ser distribuídas como se fossem cargos políticos. Mas deveriam ser ocupadas por funcionários de carreira, através de adequados concursos públicos.
Um dos serviços públicos que mais honravam a administração federal eram exatamente os Correios.
Agora, os funcionários dos Correios se sentem constrangidos de levarem a fama das falcatruas que as cúpulas políticas andaram fazendo. Mas quem disse que era para nomear políticos para ocupar estes postos? Para a coordenação política basta a orientação que deve ser dada pelo respectivo ministério.
Nesta semana, indo a Brasília a serviço da Cáritas, me encontrei com três prefeitos de pequenos municípios da região. De pires na mão, iam suplicar as verbas que um deputado tinha colocado como suas "emendas" no orçamento. Está aí outra prática condenável.
Quem diz que os recursos para os municípios devem depender dessas famigeradas "emendas", que desvirtuam a função do parlamento, e cultivam a subserviência dos políticos?
Mas o mais pitoresco da história foi constatar quem era o dito deputado. Foi eleito, por S. Paulo, com somente seiscentos votos, na cauda de outro famoso candidato, cujo nome nem precisa ser dito, pois sua propaganda política consistiu somente em dizer o próprio nome.
Pois bem, agora o deputado que ele carregou nas costas nem é mais do seu partido. Passou-se para outro, e também se diverte na vida com suas emendas no orçamento.
Diante deste fato é evidente a urgência de repensar a função dos partidos políticos, definindo os compromissos dos seus candidatos, para que sua eleição não signifique um cheque em branco que pode ser usado para qualquer negociata.
Em suma, a reiterada constatação de atos de corrupção nos oferece uma preciosa oportunidade. Não para provar que a política é assim mesmo, corrupta por natureza, como alguns querem exatamente mostrar. Mas para provocar uma profunda reforma, para a qual todos devemos colaborar.
* Bispo de Jales, São Paulo
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