Vice-líder do PFL diz que a disposição dos colegas em querer ouvir todos os personagens do escândalo pode inviabilizar as investigações
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista dos Correios poderá fracassar se a oposição não alterar sua estratégia de atuação, avalia o vice-líder do PFL no Senado, Demóstenes Torres (GO).
Um dos cinco representantes do partido na CPI, o senador acredita que a disposição dos colegas em convocar todos os personagens do escândalo, aliada à falta de interesse do governo em apurar as denúncias, poderá inviabilizar as investigações.
“Tem muita gente (da oposição na CPI) que nunca trabalhou com investigação. Vê um negócio ali, quer pegar. Vê outro, quer pegar. Se criarmos vários focos, não vamos conseguir apurar nada”, diz o senador, com a experiência de quem foi procurador-geral de Justiça em Goiás.
De acordo com Demóstenes, apesar de ter iniciado os seus trabalhos há uma semana, a CPI dos Correios só começará a ganhar fôlego amanhã, com o depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).
“Até agora a CPI não descobriu nada. Confirmamos tão somente o que a imprensa e a Polícia Federal já sabiam”, observa.
O senador acredita que os depoimentos prestados à comissão de inquérito pelos autores da gravação que incrimina o ex-funcionário dos Correios Maurício Marinho em nada contribuíram para a elucidação do esquema de corrupção na estatal.
O caso, segundo ele, é indissociável do suposto mensalão. “O Roberto Jefferson, o Marcos Valério, o Sílvio Pereira, o Luiz Gushiken e o Delúbio (Soares) serão chamados nesta CPI (dos Correios) e na outra (do Mensalão). Os fatos em comum são inúmeros”, afirma.
Mesmo ressaltando que ainda não há elementos que incriminem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Demóstenes acusa o Palácio do Planalto de buscar no PMDB, sob o discurso da governabilidade, apoio para acobertar as investigações.
“Por governabilidade, nesse caso, devemos entender inclusive a conivência do PMDB para que as investigações não caminhem a plenos pulmões como gostaríamos”, critica.
Eleito em 2002 ao desbancar o até então imbatível senador Íris Rezende (PMDB-GO), Demóstenes estreou no Senado no papel de oposicionista, no qual, aliás, também é estreante o seu partido.
A postura beligerante deflagrada pela cúpula pefelista em relação ao governo – num tom acima da adotada pelos tucanos – revela, segundo o senador, a nova face do PFL.
“A oposição fez bem ao PFL, que hoje é um partido renovado. O PFL era considerado uma espécie de PMDB. ‘Hay gobierno, soy a favor’”, brinca.
O senhor é um senador que tem origem no Ministério Público. A CPI dos Correios já definiu uma linha de investigação? Os parlamentares sabem o que estão investigando?
Demóstenes Torres – Os parlamentares sabem o que estão investigando. O problema é que o governo tem maioria e ainda não estamos ouvindo o essencial. Estamos ouvindo espiões.
Parece que o governo está mais preocupado em saber como o repórter da revista Veja descobriu o esquema do que, propriamente, em apurar a corrupção nos Correios.
Pedi à senadora Heloísa Helena (PSol-AL) e ao deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) que tomemos todo o cuidado para que o governo não leve essa CPI apenas com o objetivo de não esclarecer. Hoje (ontem), por exemplo, foi um dia extremamente improdutivo. O que acrescentou? Nada.
Mas qual deveria ser a linha de investigação?
Seria ouvir Roberto Jefferson, Marcos Valério, a ex-secretária do publicitário e os ex-diretores dos Correios, analisar os contratos da estatal, quebrar os sigilos bancário, fiscal e telefônico de algumas pessoas e ver a movimentação financeira delas.
A linha é descobrir a corrupção. Não interessa se o araponga vendeu a fita ou se fazia parte de um complô. Interessa enxergar onde está a corrupção.
“Até agora a CPI não descobriu nada. Confirmamos tão somente o que a imprensa e a Polícia Federal já sabiam”
O que a CPI dos Correios descobriu até agora?
Até agora a CPI não descobriu nada. Confirmamos tão somente o que a imprensa e a Polícia Federal já sabiam. A CPI é importante – até porque tem maior visibilidade, o Brasil inteiro quer acompanhar o que de fato aconteceu – mas, em termos de fatos novos, ela não produziu nada.
Mas a CPI deve ter um alcance mais amplo ou se limitar às denúncias dos Correios?
É óbvio que tem de ser ampla. Se o governo tentar instalar cinco ou dez CPIs, vai ser “um deus nos acuda”. Não vamos dar conta de fazer todas as investigações paralelamente. O PT está usando agora a tática de multiplicar as CPIs. Corremos grande risco de, ao fazer muitas (CPIs), não concluirmos nenhuma.
“O Roberto Jefferson, o Marcos Valério, o Sílvio Pereira, o Luiz Gushiken e o Delúbio (Soares) serão chamados nesta CPI (dos Correios) e na outra (do Mensalão). Os fatos em comum são inúmeros”
Não tem como a CPI dos Correios fugir do mensalão?
Claro que não. Marcos Valério já operava nos Correios, ele auxiliava o PT e o Delúbio. Temos de chamar esse pessoal todo. Não tem jeito.
O Roberto Jefferson, o Marcos Valério, o Sílvio Pereira, o Luiz Gushiken e o Delúbio (Soares) serão chamados nesta CPI (dos Correios) e na outra (do Mensalão). Os fatos em comum são inúmeros. Devíamos concentrar, até para entender o processo de corrupção, nas mesmas pessoas para compreender o que está acontecendo.
Que caminhos ligam a CPI dos Correios ao mensalão e a Marcos Valério?
Se o Marcos Valério recebe dinheiro dos Correios – e ele é um dos operadores do mensalão –, já temos a conexão de um fato com outro. Esse dinheiro vinha de onde? A quebra dos sigilos fiscal e bancário vai responder.
Se, num dia, Marcos Valério recebeu tanto, o dinheiro entrou na conta e, dois dias depois, ele sacou esse montante, é óbvio que o dinheiro era aquele recebido dos Correios. Nesse caso, portanto, fica óbvio que o preço era superfaturado.
O governo tem o comando da CPI, com a relatoria e a presidência, e maior número de membros. O senhor teme que essa CPI não dê em nada?
Esse temor sempre existe. Se há um fato, não há como escondê-lo nem atropelá-lo. Em algum momento vamos descobri-lo. O parlamentar teme muito pelo julgamento do seu mandato. À medida que o PT e os partidos aliados forem fazendo manobras, com a visibilidade que isso ganha nas televisões, nos jornais e nas revistas, tudo virá a público.
E o parlamentar, com receio do julgamento popular, acabará se enquadrando e ajudando no processo de investigação.
O deputado Roberto Jefferson depõe nesta quinta-feira na CPI. O senhor considera que esse depoimento marcará o início da CPI?
Acho que sim. A partir daí a CPI começa pra valer.
Com esse embate entre governo e oposição, não há risco de a CPI dos Correios se transformar numa nova CPI do Banestado?
A CPI do Banestado foi muito complicada porque havia uma briga entre o presidente e o relator. Hoje sabemos que existiam muitas disputas até por motivos escusos. Mas acredito que vamos chegar ao fim desta comissão.
“Devíamos nos concentrar nos depoimentos importantes. Não dá pra chamar todo nome que aparece”
Tanto parlamentares da base do governo quanto da oposição têm apresentado um volume grande de requerimentos até agora. Isso não compromete o foco das investigações?
Totalmente. Devíamos nos concentrar nos depoimentos importantes. Não dá pra chamar todo nome que aparece. À medida que os nomes são apresentados e aprovados, eles têm de ser ouvidos.
Hoje mesmo ouvimos uma pessoa absolutamente sem importância para a investigação que queremos (Joel Santos Filho, um dos responsáveis pela gravação da fita em que o ex-funcionário dos Correios Maurício Marinho é flagrado pedindo propina). Para a Polícia Federal, isso pode ser até relevante, mas, para nós, não.
“Tem muita gente (da oposição na CPI) que nunca trabalhou com investigação. Vê um negócio ali, quer pegar. Vê outro, quer pegar. Se criarmos vários focos, não vamos conseguir apurar nada”
A oposição tem de rever a sua estratégia de atuação na CPI?
Claro. Nós temos de concentrar no fundamental, na apuração. Tem muita gente (da oposição na CPI) que nunca trabalhou com investigação. Vê um negócio ali, quer pegar. Vê outro, quer pegar. Se criarmos vários focos, não vamos conseguir apurar nada.
O PSDB e o PFL não estão, portanto, jogando no mesmo time?
Estamos jogando juntos. Acredito que, com o desenrolar da CPI, vamos ter a noção clara do que é realmente fundamental e tocar nessa direção.
Existe alguma possibilidade de a CPI não funcionar durante o período de recesso legislativo?
Isso é ponto pacífico. Aplica-se subsidiariamente o regimento interno da Câmara. Foi o que o Supremo aplicou no caso da CPI dos Bingos. Além disso, já há precedentes. A própria CPI do Banestado já funcionou nas férias.
Mas ainda há resistência do governo.
O governo insiste em não apurar.
Os senadores Jefferson Peres (PDT-AM) e Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) criticaram hoje a intenção dos líderes partidários de adiar o início do funcionamento da CPI dos Bingos, sob a alegação de que isso tornaria inviável o trabalho em plenário. Há condição de o Senado conciliar mais essa CPI?
O PFL amanhã (hoje) vai se posicionar em favor da imediata instalação. Mas o funcionamento vai depender muito dos demais líderes partidários, principalmente daqueles que são ligados ao governo. Ela vai ser instalada, o Supremo já determinou isso. O presidente do Senado já fez a indicação dos membros.
Mas o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), sinalizou semana passada que concordaria com o adiamento da instalação da CPI.
Eu conversei com Arthur Virgílio. A posição dele é pelo funcionamento da CPI. A decisão vai depender mesmo dos líderes do governo, porque uma coisa ninguém pode garantir: a presença dos representantes governistas na CPI.
“Por governabilidade, nesse caso, devemos entender inclusive a conivência do PMDB para que as investigações não caminhem a plenos pulmões como gostaríamos”
Como o senhor avalia a reação do presidente Lula a toda essa crise?
Primeiro, Lula se fez de besta e de desentendido. Disse aos jornalistas: “Olhem minha cara de preocupação com a CPI”.
Depois ele viu que a situação era grave porque a coisa chegou, no mínimo, ao seu quintal. Teve de demitir – ainda que dando a aparência de pedido de demissão – aquele a quem ele chamava de capitão do time ou primeiro-ministro.
O presidente conclamou a militância. Teve perto de se parecer com o Collor, quando chamou o povo a lhe dar apoio numa situação absolutamente desfavorável. Agora tenta se recompor com um partido político, o PMDB, em busca da governabilidade.
Por governabilidade, nesse caso, devemos entender inclusive a conivência do PMDB para que as investigações não caminhem a plenos pulmões como gostaríamos.
Há indícios de que o presidente tenha prevaricado ou cometido crime de responsabilidade?
Até agora o presidente não se manifestou. Não há provas, apenas indícios. Não podemos fazer ainda a incriminação do presidente da República.
Espero que ele não esteja envolvido porque o Brasil precisa da conclusão do mandato do presidente eleito, independentemente de quem seja. Não vamos fechar os olhos se houver qualquer prova no sentido contrário.
“A oposição fez bem ao PFL, que hoje é um partido renovado. O PFL era considerado uma espécie de PMDB. 'Hay gobierno, soy a favor'”
Por que o PFL está mais agressivo do que o PSDB com o governo nessa crise?
É o nosso estilo. A oposição fez bem ao PFL, que hoje é um partido renovado. O PFL era considerado uma espécie de PMDB. “Hay gobierno, soy a favor.” Agora, vamos ver se o PFL permanece com essa postura, que me parece a mais digna, que é de investigar. Se o presidente ou todos forem inocentes, vamos inocentá-los.
Essa postura mais aguerrida do PFL pode passar para o eleitor que o partido tem uma posição de independência, em relação ao PSDB, para chegar à presidência da República?
Estamos longe (das eleições) para fazer uma avaliação desse tipo. Mas todo partido tem de lançar candidato. Do contrário, deixa de existir.
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