Há 50 anos, milhões de brasileiros sentiram-se órfãos.
Morria o presidente Getúlio Dorneles Vargas, o "pai dos
pobres", um dos políticos mais contraditórios da história
do Brasil.
Criador da legislação trabalhista (CLT), da Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN) e da Petrobrás, Vargas foi o maior estimulador da
formulação da identidade nacional.
Mas também foi Vargas quem impôs ao país oito anos de
ditadura, prendeu inimigos políticos, criou um departamento de
censura da imprensa e entregou, grávida, a mulher de Luiz Carlos
Prestes, Olga Benário, aos nazistas.
Nascido a 19 de abril de 1883, em São Borja (RS), Vargas
governou o Brasil por quase 20 anos. Tomou o poder através de
uma revolução armada em 1930, depois de ter sido derrotado nas
eleições presidenciais pelo candidato Júlio Prestes.
Alegando fraude na eleição, políticos do Rio Grande do Sul,
Minas Gerais e Paraíba organizam a revolução que coloca Vargas
no poder.
Até 1934, governou o Brasil provisoriamente. Enfrentou e venceu
em 1932 a "Revolução Constitucionalista", organizada
pelo estado de São Paulo para depô-lo. Instalou uma Assembléia
Constituinte em maio do ano seguinte.
Em julho de 1934, a Constituição entra em vigor e Vargas é
eleito, pelos deputados, presidente da República.
Em julho de 1935, põe na ilegalidade a Aliança Nacional
Libertadora (ANL), movimento que integra comunistas, liberais,
socialistas e cristãos.
No mesmo ano surge a "Intentona Comunista", liderada
por Luis Carlos Prestes. O movimento militar, apesar de contar
com o apoio da União Soviética, não consegue a simpatia
popular e é violentamente sufocado por Vargas.
Uma nova Constituição é promulgada em novembro de 1937 e
Vargas aplica um golpe de estado. É o começo de uma ditadura
que dura oito anos, o Estado Novo. Todos os partidos políticos são
extintos.
O período é marcado por forte repressão através da censura
da imprensa, perseguição de inimigos políticos, intervenção
nos estados e manipulação da opinião pública através do
Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
Em 1943, Vargas edita a Consolidação das Leis Trabalhistas
(CLT).
No ano de 1945, Vargas começa a flexibilizar suas políticas. A
Constituição de 37 recebe um ato adicional que possibilita as
eleições presidenciais e, em abril, ele decreta a anistia dos
presos políticos. As eleições são marcadas para 2 de dezembro
do mesmo ano.
A oposição, preocupada com um possível novo golpe de
Vargas, organiza um movimento e no final de outubro tropas do exército
cercam o palácio do governo, obrigando-o a renunciar.
Nas eleições, o general Eurico Gaspar Dutra é eleito
presidente e Vargas se elege senador pelo Rio Grande do Sul,
adotando a oposição ao novo presidente.
Vargas volta à presidência nas eleições de 50, com expressiva
votação popular. Seu último mandato é marcado por uma política
bastante popular e nacionalista.
Liderada por Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, e
Adhemar de Barros, governador de São Paulo, e apoiada pelo
capital estrangeiro, a oposição de direita pressiona Vargas a
renunciar.
No dia 24 de agosto de 54, Vargas se suicida, saindo "da
vida para entrar na história".
"É difícil traçar um perfil de um governante que namorou
a direita e a esquerda em épocas diferentes", avalia o
professor do departamento de História da UFSC Adriano Duarte,
autor do livro "Cidadania e Exclusão: Brasil 1937 -
1945", da Editora da UFSC. Para Duarte, Vargas foi um homem
que refletiu o seu tempo.
"As décadas de 30 e 40 foram ambíguas. Aconteciam
muitas coisas no mundo, a ameaça comunista, a ascensão do
nazi-facismo. Vargas refletiu isso em seus governos",
afirma.
Um exemplo da contradição de Vargas pode ser dado através da
posição do Brasil durante a II Guerra Mundial. Ele esperou até
o último instante para definir de que lado o País lutaria no
conflito.
Durante este tempo, deu mostras de que simpatizava com o
nazi-facismo, mas acabou lutando com os aliados, após os Estados
Unidos apoiarem a industrialização brasileira.
Uma característica marcante de Vargas foi o nacionalismo.
Durante todo seu governo ele incentivou a identidade nacional,
tanto na cultura como na economia.
"Ele tinha uma certa obsessão de tornar o Brasil um país
independente economicamente no cenário internacional", diz
o professor de Ciências Políticas da UFSC, Ricardo Silva. Essas
medidas ficam claras na criação da Petrobras e da CSN.
Apesar de toda contradição, o legado de Vargas continua forte.
Muitos políticos tentam se apropriar dele, como fez Anthony
Garotinho nas últimas eleições presidenciais.
Outros tentam negá-lo, como FHC, mas mesmo assim não
conseguem. Isso mostra a importância daquele que foi, para o
professor Duarte, "o maior político do Brasil no século
XX".
Economia na "Era Vargas"
Foi Getúlio Vargas quem iniciou o processo de industrialização
no Brasil. Durante o Império, empresários tentaram implantar
indústrias no país.
Ferrovias e estaleiros foram construídos, mas, até o começo
do século XX, as indústrias nacionais não eram mais que
pequenas oficinas.
Com os efeitos da quebra da bolsa de Nova York sobre o café, em
1929, a política econômica que privilegiava a agricultura foi
alterada. Para reduzir a importação de bens de consumo, Getúlio
Vargas começa o processo de implantação das indústrias de
base no Brasil.
A principal característica da industrialização na "Era
Vargas" é a criação de empresas estatais. Em 1943 é
fundada, no Rio de Janeiro, a Fábrica Nacional de Motores e, três
anos depois, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
A Petrobras foi criada em outubro de1953, na segunda gestão
de Getulio Vargas como presidente do Brasil.
Durante o primeiro governo de Vargas, houve uma diminuição da
influência inglesa na economia nacional, presente desde a época
em que o país era colônia de Portugal.
Mas isso não ocorreu porque o Brasil estava independente do
capital estrangeiro. O que houve foi a substituição do capital
inglês pelo norte-americano.
O professor de História da UFSC, Waldir Rampinelli, explica que
esse processo começou no início do século XIX com a doutrina
"A América para os Americanos".
O pensamento era desenvolvido pelos norte-americanos e para o
professor, o real significado era "A América Latina para os
Estados Unidos".
A substituição da influência inglesa pela norte-americana começou
quando os Estados Unidos passaram a superar o domínio marítimo
inglês na América Latina.
Porém, ela só se consolidou definitivamente no Brasil
durante a segunda guerra mundial. Neste período, destruída pela
guerra, a Inglaterra não teve condições de competir com os
EUA.
unaberta.ufsc
CARTA TESTAMENTO DE GETÚLIO VARGAS
"Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo
coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me
acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão
o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a
minha ação, para que eu não continue a defender, como
sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. depois de decênios de domínio
e espoliação dos grupos econômicos e financeiros
internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci.
Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de
liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos
braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos
internacionais aliou-se 1a dos grupos nacionais revoltados
contra o regime de garantia de trabalho. A lei de lucros
extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça
da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.
Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas
riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a
funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobráz foi
obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador
seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo
dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do
trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até
500% ao ano. Nas declarações de valore do que importávamos
existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares
por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso
principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta
foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de
sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo
a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio,
tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o
povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso
dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o
sangue de alguém, querem continuar sugando o povo
brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos
humilharem, sentires minha alma sofrendo ao vosso lado.
Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito
a energia para luta por vós e vossos filhos. Quando vos
vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação.
Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa
bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama
imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada
para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória.
Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas
esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de
ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e
meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a
espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo.
Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia
não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos
ofereço a minha morte. nada receio. Serenamente dou o
primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para
entrar na história".
(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)
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