Criar é preciso. O Brasil começa a ser valorizado pelo desenho dos seus produtos. Várias marcas estão investindo seriamente na reformulação visual das mercadorias. O retorno vem em números. Quem apostou nesse segmento aumentou as vendas internas e também as exportações.
Os cariocas precisavam de um novo modelo de ventilador. A necessidade foi apontada pela Spirit, do Rio de Janeiro.
A empresa estudou o mercado e desenvolveu o ventilador de teto Spirit. Criou um produto bonito e funcional. Trouxe design para um setor que nunca tinha se preocupado muito com o assunto.
“O modelo tem duas hélices, é de plástico biodegradável, tem várias opções de cores e ventila mais os que ventiladores antigos de quatro hélices”, explica Felipe Pech, diretor da companhia.
O Spirit é um dos exemplos da evolução do design no Brasil. Desde que foi lançado – em 2001 – ganhou vários prêmios. O IF Design Award, na Alemanha, que é o Oscar do design mundial, o Museu da Casa Brasileira e o Ecodesign, no Brasil.
Segundo Pech, um dos segredos do produto, além do desenho inovador e da funcionalidade, é que o Spirit está dentro do conceito de design de massa.
“Tem um custo acessível, é um produto com design, pensado por um designer (Guto Índio da Costa - Ventilador Spirit), mas que também é comercial”, afirma.
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| A Coza lançou uma linha de luminárias cuja principal característica é o design inovador |
No ano passado, a empresa produziu 225 mil peças. Para este ano a estimativa são 300 mil ventiladores. Em 2004, foram embarcados os primeiros Spirit para a Europa, cerca de 1 mil peças.
“Estamos testando o mercado europeu e fazendo algumas adaptações no nosso produto, principalmente na parte de freqüência”, afirma Pech.
O mercado árabe está sendo prospectado pela Spirit. “Fizemos contatos nos Emirados Árabes Unidos, no Egito e na Jordânia”, conta Pech.
O mesmo caminho do Spirit é seguido pelas irmãs Cristina, Daniela e Manuela Zatti, donas da Coza, de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Fundada em 1983, como fábrica de saca-rolhas e abridor de garrafas, a empresa mudou de rumo em 1995, passou a trabalhar com polipropileno texturizado e investir mais em design.
Segundo Cristina Zatti, a praticidade e a facilidade do material possibilitam trabalhar cores e levar ao consumidor final um produto de qualidade.
Atualmente a companhia é líder no setor de utilidade plástica com design no país. Produz 12 milhões de peças por ano, colocou o plástico em todas as partes da casa: da cozinha, passando pelo quarto, sala, banheiro e escritório e aportando na lavanderia.
A Coza lança novos produtos a cada seis meses, ou seja, duas coleções por ano. Sempre em sintonia com as tendências mundiais.
Em 2003, a empresa lançou uma linha de decoração com luminárias. O modelo Lynix recebeu o prêmio Houseware e Gift de Design.
No ano passado, a Coza inovou outra vez: introduziu materiais diferenciados em sobreposição ao plástico, como a porcelana. Nas peças lançadas no início deste ano, a novidade fica por conta do design inspirado em formas orgânicas e da coleção com o acabamento polido.
Para desenvolver as peças, a Coza tem um Bureau de Design, que é coordenado por Cristina Zatti. Trabalham para a empresa designers de referência nacional, como Valter Bahcivanji, de São Paulo, a OD Design, do Rio de Janeiro, e as cariocas Taciana Silva e Marcela Albuquerque.
Depois de um período de pausa nas exportações, para ampliar o seu parque fabril no primeiro semestre do ano passado, a empresa retomou as vendas externas no final de 2004.
Atualmente, a companhia vende seus produtos para Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Bolívia e Venezuela.
Para a sala
Outro setor que tem apostado no design é o de móveis, principalmente os para sala, como sofás e cadeiras. O designer Emerson Borges, de Curitiba, no Paraná, é um dos nomes fortes nesse segmento.
A poltrona Fólio, desenvolvida por ele para a empresa Ronconi, está na TV praticamente todos os dias. O modelo foi escolhido pela rede Globo para ser usado em vários programas, como o jornalístico Bom Dia Brasil.
Segundo Borges, esse segmento evoluiu muito no Brasil nos últimos anos. “Até a década de 90 as empresas comerciais não tinham preocupação com design. Os sofás das casas eram do século passado.
Em 1999, começaram a aparecer modelos mais contemporâneos”, explica. “Agora, os sofás são mais retos e as poltronas mais orgânicas, o que cria uma dinâmica agradável na sala. Não é o monótono da reta, nem o caos da curva”, completa.
Pontos fortes
Para o designer Giulio Simeone, diretor da Escola de Design no Instituto Europeo de Design (IED) – tradicional escola italiana de design que abriu filial em São Paulo este ano -, o trabalho com madeira é um dos pontos fortes do Brasil e deve ser aproveitado.
“Os brasileiros dominam bem a madeira, o parque industrial é adequado e o custo de produção, inclusive mão-de-obra, é muito mais barato do que na Europa”, afirma.
Borges compartilha da mesma opinião e completa dizendo que os profissionais do país estão redescobrindo a madeira. “Tem gente desenvolvendo produtos com pinus, o que antes era impensado”, diz. Borges também tem um trabalho nessa linha, de novas madeiras, com palafitas (sobras que não são exportadas). Ele faz móveis com essas sobras.
Para melhorar
Porém nem todos os setores estão investindo em design. Para Simeone, as indústrias de brinquedos precisam investir mais.
“Não há preocupação com o acabamento e há produtos que são até perigosos para as crianças”, afirma. Um dos motivos é que as empresas brasileiras foram sucateadas no fim dos anos 80, com a abertura econômica. Perderam competitividade, passaram a ser importadoras de produtos. Apesar de passados quase 20 anos, o setor ainda não despertou para a importância do design.
Outro setor que precisa de investimentos, segundo Simeone, é de decoração que usa metais.
Mercado
Com acertos e erros, a conclusão dos profissionais é que o design brasileiro está começando a criar personalidade, e é puxado principalmente pela moda. A opinião é compartilhada por Simeone que cita o exemplo das Havaianas. “É um fenômeno mundial”, diz.
O chinelo brasileiro conquistou consumidores no mundo todo. Simples, confortáveis e baratas, as Havaianas são exportadas para várias partes do mundo.
“O futuro está aqui, tanto pelo acesso a materiais e custo de produção, quanto pelo mercado consumidor”, afirma Simeone.
Design valoriza produtos brasileiros no exterior
Pela primeira vez o Brasil ganhou um troféu de ouro na principal premiação internacional do setor, a iF Product Design Award 2005. O prêmio máximo na categoria iluminação deste ano ficou com o designer Fernando Prado, que desenvolveu a luminária Luna, com anteparo giratório nas cores preto e branco. Foi também o primeiro ouro latino-americano nos 50 anos do iF. No ano passado, o país levou três troféus de prata.
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| A luminária que ficou com o ouro em Hannover pode ser instalada no teto ou no piso |
por, Marina Sarruf
As empresas brasileiras estão investindo cada vez mais em design de produto. Uma prova disso é a conquista, pela primeira vez, do troféu de ouro na categoria iluminação do iF Product Design Award 2005, principal premiação internacional de design que ocorre anualmente em Hannover, na Alemanha.
Além do ouro, 14 produtos nacionais foram premiados em categorias inferiores, o que os permite utilizar o selo do iF.
"Um dos indicativos do crescimento e amadurecimento do design brasileiro está na expressiva participação brasileira em prêmios internacionais.
Esta participação tem alcançado índices surpreendentes de premiações em vários setores", afirmou Antônio Sérgio Martins Mello, secretário do desenvolvimento da produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
O troféu de ouro brasileiro também foi o primeiro latino-americano nos últimos 50 anos de premiação.
Para promover o reconhecimento internacional do design de produtos desenvolvidos no país foi lançado em 2003 o projeto Design Excellence Brazil, uma parceria entre a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo com a Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex) e o MDIC.
O projeto, que está em sua segunda edição, consiste em oferecer apoio logístico e financeiro para as empresas que têm interesse de participar do iF Product Design Award. Segundo informações da Câmara alemã, a cada ano aumenta a procura de empresas interessadas na inscrição.
No ano passado foram enviados para a pré-seleção mais de 200 produtos, dos quais 123 concorreram e três receberam troféus de prata em diferentes categorias. Este ano o número chegou a quase 300, porém 105 foram inscritos na premiação.
"As empresas brasileiras estão começando a investir em design. No exterior o design é algo muito bem visto, principalmente na Europa. Aqui, o design está começando a ser difundido", afirmou Fernando Prado, designer da luminária vencedora do troféu de ouro.
Luna de ouro
Prado começou a desenvolver a linha de luminárias Luna, da qual faz parte a peça vencedora, para a empresa onde trabalha, a paulista Lumini, em 2002. No ano passado ela ficou pronta. Em 2004, o profissional também foi premiado na Alemanha por ter criado a luminária Giro para a mesma empresa.
Segundo o designer, o diferencial da Luna é o anteparo giratório, que tem o acabamento preto numa das faces e branco na outra e permite controlar a intensidade da luz por um dimmer mecânico. "Além da novidade do desenho", completou.
A luminária serve tanto para o teto quanto para o piso. "A Luna é para uso residencial decorativo", disse.
De acordo com Ricardo Gutfreund, diretor de marketing da Lumini, a luminária premiada já é vendida na Alemanha, onde a empresa possui um distribuidor para a Europa. No total, a empresa exporta para cinco países: França, Uruguai, México, Estados Unidos e Alemanha.
São produzidas 15 mil luminárias por mês, 10% das quais chegam ao mercado externo. "Antes do prêmio já exportávamos a luminária. O prêmio é um aval de qualidade e abre mais portas no mercado", afirmou Gutfreund.
A Lumini foi fundada em 1979 e se destaca pelo design dos produtos. Além de um showroom e uma fábrica em São Paulo, a empresa tem filiais no Rio de Janeiro e na Alemanha. O parque fabril tem 4 mil metros quadrados e 150 funcionários.
Banheira eletrônica
Outra empresa brasileira premiada nas demais categorias do iF Product Design Award é a Ihouse, especializada em equipamentos tecnológicos para casas, hotéis e apartamentos.
A Smart Hydro, uma banheira de hidromassagem totalmente eletrônica, foi um dos produtos premiados. Desenvolvida por Guto Indio da Costa, Eduardo Azevedo, Camila Fix, Augusto Seibel e Felippe Bicudo, a banheira pode ser programada pelo telefone fixo, celular ou computador.
"O design se tornou uma peça fundamental em qualquer produto", afirmou Fernanda Miziara, representante comercial da empresa paulista.
O lançamento do produto será feito no segundo semestre deste ano, mas os produtos da empresa são comercializados apenas para construtoras e incorporadoras. A empresa tem planos de entrar no mercado externo ainda este ano.
Já a dupla de designers Marcelo Gonzaga e Juliana Faria, sócios do escritório OD Design, no Rio de Janeiro, criaram um kit de plástico para escritório, com porta lápis, porta papel e um cesto. Eles trabalham para uma empresa de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, a Coza, que fabrica utensílios domésticos.
"A grande característica do kit foi a combinação de plásticos injetado e laminado, que dão uma leveza muito grande às peças e que permite também maior facilidade para montar e limpar as peças", afirmou Gonzaga. Segundo ele, o plástico injetado é um material muito caro e o laminado é bem mais barato. Entre os produtos brasileiros premiados estão luminárias, tábua de madeira para cozinha, travessa para alimentos, maleta que vira churrasqueira, reboque de moto, terminais de consulta, anel e controle remoto para ventilador.
Planos para o Brasil
De acordo com o secretário Mello, o MDIC quer fortalecer os prêmios de design no país para gerar o reconhecimento do trabalho entre os empresários e consumidores.
Para este ano, o governo está organizando a Bienal Brasileira de Design, um projeto que poderá ser realizado em novembro de 2005 a janeiro de 2006, em São Paulo, onde deverão ser expostos 1.500 produtos.
anba
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Fredson Dias Barbosa
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