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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 27 June 2005
Nilze Carvalho, a que estava faltando
De repente, a Lapa ficou pequena para Nilze Carvalho. O regional precisou ser reforçado, para altear-se aos novos vôos da ex-menina-prodígio do cavaquinho e do bandolim, transformada agora, aos 36 anos, numa bela e sensual mulher brasileira, dona de uma arte madura e plena, como se vê em seu CD “Estava faltando você” (Fina Flor) e como pôde testemunhar, na terça passada, um Rival-BR lotado e comovido.
A estética do CD produzido por Ruy Quaresma é mais ambiciosa.
 
Soma momentos em que há uma orquestra que evoca as velhas gafieiras com outros em que as cordas dão uma dimensão, digamos, mais Gaya, ao resultado final (sentado à mesa de Nelson Sargento, falávamos do maestro e o compositor me lembrava de viagem a Cataguases, em que foi no carro de Gaya, com Stellinha, e do encontro com Sergio Sampaio, na Praça Ruy Barbosa).

E que ficha técnica tem o CD da Nilze! Pode parecer detalhe, mas é importante que o ouvinte perceba estar diante de um trabalho que lista, na última página de seu encarte, 42 músicos, aí incluídos Márvio Ciribelli (tecladista), Andréa Ernst-Dias (flauta), David Chew (cello), Léo Ortiz (violino), Alceu Maia (cavaquinho), Carlinhos 7 Cordas, Zé Luiz Maia (contrabaixo, filho do grande Luizão), Itamar Assière (piano), Marcelinho Moreira e Ovídio Brito (percussão).
 
Sem contar o coro, que incluiu Analimar, Mart´nália, Camila Costa e Rixxa (aquele ótimo puxador que enlouqueceu o numerólogo, de tanto que já mudou a grafia do nome). Parece coisa dos bons tempos das multinacionais.
 

A capa do CD "Estava faltando você", de Nilze Carvalho

Desde Clara Nunes, a quem o release do CD se refere e homenageia, a música brasileira não registra o surgimento de um timbre feminino tão agradável, com extensão que lhe permite flutuar sem dificuldades das notas mais graves aos agudos de uma composição de intervalos tão largos como “Ilusão à toa” – a velha criação de Johnny Alf é a ponte que liga Nilze não apenas ao choro e ao samba, seus gêneros de referência, mas podem levá-la a um andamento jazzy (como se viu no arranjo de Humberto Araújo, com inspirado solo de sax-tenor).
 
E podem transportá-la ao choro “Evocação de Jacob” (de Avena de Castro, letrada pelo pai e parceiro Cristino Ricardo) e à “Valsa do sonho”, de Paulinho Lemos e Agenor de Oliveira (que, num certo momento, me pareceu coisa de Edu e Chico e elogio maior não sei fazer).

No repertório, achados que logo se incorporarão aos clássicos do samba. Inevitável mencionar “Ele pensa”, de Nivaldo Duarte e Márcio Lima, de melodia fluida como água e letra com o caráter das mulheres de fibra, e a faixa-título, de Wilson das Neves e Délcio Carvalho.
 
E acrescente-se a esses os sambas metalinguísticos: “Cést fini”, parceria de Padeirinho com Nei Lopes (“vou da Lapa ao Amapá/sou sucesso no Japão/sou rei na terra do sushi e sashimi/visto qualquer figurino/e nos uribulinos/já dei c’est fini”); “Samba ao samba”, de Toninho Galente e Marceu Vieira (“o samba é mistura de Mané Garrincha com Pelé/é curtido no talo da cana e no café/é filho de santo de olho na cambona/torresmo, rabada e azeitona/é pau da braúna, é minha fé”) e “Somos nós”, de Wanderlei Monteiro, Mariozinho Lago e Paulinho do Cavaco (“somos mensageiros de vocês/mistura de loucura e lucidez/somos todo mundo e cada um/todos os lugares, lugar nenhum/por isso quando um samba/enfeitar a voz/aplaudam, pois o samba, somos nós”). Discaço.

A América por DaMatta
Meu querido Roberto DaMatta lança, amanhã, a partir das 19:30 horas, no Armazém Digital, o seu “Tocquevilleanas – notícias da América”. Espécie de forra dos brazilianistas que chegam ao Brasil com a pretensão de nos definir, DaMatta reúne aqui as crônicas e observações do “american way of life”, num balanço dos 17 anos em que dividiu a sua experiência de arraigado morador do Jardim Ubá, em Itaipu, com a cátedra na prestigiada Notre Dame University, nos Estados Unidos.

O Armazém Digital é um dos mais interessantes espaços multimídia do Rio e fica no Rio Plaza Shopping, em Botafogo. Como o anúncio fala num “pocket show do autor” e DaMatta gosta mesmo de cantar e contar histórias, a noite tem tudo para ser ótima. Não tanto quanto o livro, porém, cheios de conceitos que, não demora, serão citados por mestrandos e doutorando país afora:

“Países (ou o que chamamos de ‘Estados-nacionais’) não se esgotam nos seus territórios, na sua soberania nacional, nas suas constituições, economia, ou no seu aparelho administrativo, sendo também e simultaneamente, como tenho reiterado na minha obra, sociedades e culturas e, com isso, sujeitos de ideologia e valores.

“Se a pomposidade domina o lado acadêmico, sendo proporcional à sua penetração na sociedade: vender mil exemplares de um bom livro de antropologia social é uma façanha; na mídia ocorre o exato oposto: as colunas e os programas têm uma audiência cativa de milhares pra, salvando-se as nobres exceções, perpetrarem suas infindáveis ofensas éticas e cacofonias sociológicas.
 
“O repórter e o antropólogo distinguem-se do turista – esse palerma da modernidade – que viaja para simplesmente assistir e comprar, e não para enxergar e compreender os lugares por onde anda.”
Falou e disse.
  
Crônica do mensalão anunciado
Os leitores desta “Cultura & Mídia” não têm motivos para se surpreenderem com o aconteceu com o ex-chefe da Casa Civil. Em nota publicada aqui, em 23 de junho de 2003, sob o título “Nova dupla caipira: Ratinho e Zé Dirceu”, deplorava que o ex-todo-poderoso do governo “podia ter poupado seus antigos companheiros, os milhões de eleitores do presidente Lula e, mais que tudo, sua própria biografia do espetáculo deprimente que foi a visita a Cruzeiro D´Oeste, interior do Paraná, na semana passada.
 
Ali, no cenário em que reconstruiu a vida após os anos de perseguição da ditadura, Dirceu permitiu-se ser fotografado num palanque ao lado do radialista Carlos Massa, o Ratinho, no lançamento da campanha do filho, José Carlos Becker, o Zeca, de 25 anos, a prefeitura da cidade”. Ratinho “ajudou” a campanha com 800 mil reais.
 
Zeca foi eleito. Bem, se era capaz de brigar pelo poder na minúscula cidade paranaense, que não está nem no mapa, o que não seria capaz de fazer no Planalto?
 
Despedida das “Encantadeiras”
Depois de um mês de sucesso, o projeto Encantadeiras se despede, amanhã, do Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, com as participações especiais de Virgínia Rodrigues e do Cortejo Brincante Abayaômi. Sessões ao meio-dia e meia e às 18:30 horas.
 
Reunindo mulheres que cantam e encantam, mas que vêm de regiões diferentes do Brasil, Encantadeiras tem seu repertório baseado especialmente em cantos de trabalho e pregões, cujo maior mérito é nos lembrar um pouco da história da nossa identidade cultural, fortalecendo com a sua pureza a auto-estima tão maltratada pelo que a nossa gente tem lido nos jornais.
 
Por e-mail:
“Sobre o livro e o poema do Drummond, ‘As sem-razões do amor’, vale lembrar que nosso amigo em comum José Antônio Freitas Mucci, o Tunai, musicou-o e, em dobradinha com Milton Nascimento, cantou-o em seu disco ao vivo. Ficou lindo. A história do poema musicado é longa, pergunte a ele.  Mas acima de tudo, a parceria entre os três ficou divinal.” (Célio Albuquerque, jornalista, Rio de Janeiro, RJ)

* Célio tem razão. Tunai deu uma banho e a gravação é mesmo linda.
“Não é que Lula venha do ancien régime, mas que pisou na lama do Delúbio, pisou.” (Gutenberg Guarabira, compositor, São Paulo, SP)

“Declaro a priori não ser contra os atos de ninguém, desde que não prejudiquem ou influenciem outras pessoas. Como foi publicado, fica parecendo que estou patrulhando os hábitos dos outros, o que não é o caso. Você sabe como nosso meio é sensível a essas coisas. A gente é logo tachado de careta, direita, démodé e outros epítetos mais.” (Reginaldo Besa, compositor, Rio de Janeiro, RJ)
 

robertobienal3jk.jpgRoberto M. Moura ( 18/08/47   27/10/05), carioca,  foi jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ.

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