O mundo cão do “Caldeirão”
O poeta e apresentador Michel Melamed, por falar em baixaria na tevê, enviou-me por e-mail um texto a que deu o título de “Tortura nunca mais”. Confiram e reflitam se é coisa que pode explicada dentro da lógica da grade de programação de uma tevê aberta, aos sábados, às 14:25 horas:
“Estou abismado, ultrajado e revoltado. Pela segunda semana consecutiva assisto ao programa ‘Caldeirão do Huck’, da Globo, e deparo-me com o quadro — melhor dizer fosso — chamado ‘Agora ou Nunca’. Trata-se do mais vil exemplo da espetacularização da tragédia, da exploração da miséria na tevê brasileira. Em linhas gerais, é apresentada a pessoa mais indefesa e abandonada possível, para fazê-la concorrer em uma prova infantil, onde, se vencer, será contemplada com dez mil reais."
“Na penúltima semana, o casal 'concorrente' havia perdido os sete filhos no desabamento do barraco... No último sábado, uma senhora, moradora da Rocinha, que esteve presente na tragédia do ônibus 174, e, que, após o desfecho, entrou em estado de choque, perdendo a voz. Hoje, ela só se comunica através da escrita. Seu desafio é empilhar copos plásticos no prazo de alguns minutos. Algum tempo depois do seqüestro ela sofreu um derrame e ‘passa por dificuldades financeiras’. Imagens de arquivo são apresentadas — até o momento em que o seqüestrador, Sandro, sairia do ônibus com a menina Geisa... O fim é de conhecimento geral mesmo... — destrinchado num dos mais estarrecedores e fundamentais documentários do cinema brasileiro. "
“Voltamos ao estúdio e o apresentador pede para que ninguém mais toque no assunto, pois, por razões médicas (sic), ela não deve ser lembrada do ocorrido e, é claro, o show tem que continuar... A senhora, com muletas, adentra o palco e sob uma música de suspense é (digo, somos) submetida à tortura. Nos últimos segundos, no último copo, a pilha desaba."
“Acredito que a simples descrição deste episódio nefasto, por si só, dê a dimensão da total ausência de ética, moral, bom-senso, enfim, qualquer que seja a palavra empregada. Porque, depois disso, a legitimação da violência contra a mulher no teste de fidelidade do João Kleber ou o desvio de verbas, compra de votos, crianças nos sinais, tortura no Iraque ou qualquer atrocidade, torna-se tolerável. Um verdadeiro show. E seguimos em estado de choque, sem voz, tentando nos comunicar..."
“Luciano Huck refere-se a uma suposta ‘Gangue do Bem’ quando o cantor Fábio Júnior em prantos, após a queda dos copos, entrega um cheque à senhora. Resta a torcida para que de fato ela exista e não seja mais um blefe do apresentador. Ao final da sessão, ele avisa que está ‘seguindo o barco...’. Não é barco, Luciano. É canoa furada, crivada do Mal.”
Michel é jovem, moderno e inteligente – essas coisas que quase nunca caminham juntas nos dias que correm. Se resolveu enviar a esta “Cultura & Mídia” a sua queixa, é por que de alguma forma se afina com seu mau-humor televisivo, fruto de um espírito muito mais conservador e antigo, ou, como diria o Francis, tecnicamente morto. O que faz de Cataguases, Cataguases
Em pé, na terceira fila dos espectadores do balé que abriu e encerrou o I Cineport, em Cataguases, na semana passada, olhando aqueles jovens que transformavam o gesto e o movimento em arte e risco (e quem não temeu por aquelas evoluções próximas à torre da Igreja de Santa Rita?), só uma questão se me afigurava inarredável: que mistério explica essa vocação artística e cultural de uma cidade na Zona da Mata mineira, ao pé do Rio Pomba?
Era domingo à noite. Por que aquelas mais de mil pessoas amontoavam-se na velha praça enfeitada pelo mural de Djanira para se emocionarem com o balé mantido pela Fundação Ormeo Botelho, a mesma que produziu o festival afro-luso-brasileiro de cinema? Em centros muito maiores, o povo está, no mesmo horário, acabando o domingo diante do “Fantástico”. O que faz, enfim, de Cataguases, Cataguases?
Ando pela praça. Cruzo com o indomável Paulo César Saraceni. Mais cedo, na feirinha, já encontrara Nelson Pereira dos Santos. Na festa de encerramento, o congraçamento, com Tarcísio Vidigal, Jom Tob Azulay. Depois, o encontro com os filhos da terra, os que estão lá, como o poeta Ronaldo Werneck e o publicitário Antonio Jaime Soares, e os que a ela tornam sempre, como Carlos Torres Moura, ator do cult “O anunciador – o homem das tormentas” (todo rodado lá), e o jornalista Acir Vidal. Nas andanças, a alegria de perceber o prazer com que voltejam em volta da praça os convidados portugueses e africanos de várias culturas. Nos bastidores, conta-se que os angolanos aproveitaram a viagem para tratarem dos dentes com os odontólogos do lugar, mas o resultado do I Cineport informa que eles vieram mesmo foi para ganhar o festival, com “Na cidade vazia”, de Maria João Ganga.

Angolano "Na cidade vazia" foi o melhor filme do I Cinepor
Filho de miraiense cuja família migrou quase toda para Cataguases, agrada-me fazer parte indiretamente dessa terra abençoada. Também a ela volto sempre – e com um prazer que só não é maior que a emoção. Junto com a Praça Onze, aquele povo em torno do meia-Pataca ocupa minhas mais diletas lembranças – e gosto de saber que não estou sozinho nisso. Sim, para cada cataguasense (e sou quaseguasense), é como se Humberto Mauro, o pessoal da revista Verde, a Eva Nil, o Rosário Fusco, Lúcio Alves, o pessoal da poesia-concreta, a minha rapaziada do Cineclube Serguei Eisenstein, a Maria Alcina, e os mais novos que chegam, o Luiz Ruffato e o Ronaldo Caggiano, fossem da família. Sem contar os que construíram por outras vias laços indeléveis com o lugar – e aí podemos citar de Ary Barroso a Villas-Boas Correa, de Patápio Silva a Dori Caymmi e Chico Buarque.
Família grande a que se juntam agora esses rapazes e moças do balé e a Mônica Botelho, desvairada o bastante para acreditar na cachoeira do cinema que começa em Mauro. De Gaulle
Agora, que Dirceu já era, é bom que se diga que não é verdade que o presidente Lula tenha respondido “depois de mim, o Delúbio” a um jornalista que lhe perguntara quem manda de fato no Brasil.. As sem-razões do amor
Única alternativa para os que se esqueceram do presente do Dia dos Namorados. É o livrinho “Declaração de amor – Canção de namorados”, de Drummond. Edição delicada da Record onde se lê, entre outros, “As sem-razões do amor”: “eu te amo porque te amo/não precisas ser amante/e nem sempre sabes sê-lo./Eu te amo porque te amo./Amor é estado de graça/e com amor não se paga./Amor é dado de graça/é semeado no vento/na cachoeira, no eclipse./Amor foge a dicionários/e a regulamentos vários./Eu te amo porque não amo/bastante ou demais a mim./Porque amor não se troca/não se conjuga nem se ama./Porque amor é amor a nada/feliz e forte em si mesmo./Amor é primo da morte/e da morte vencedor/por mais que o matem (e matam)/a cada instante de amor.” Por e-mail:
“A propósito do Prêmio Tim, quando vi, no final, a rapaziada cantando “Samba da bênção” (Baden/Vinícius), dizendo que ‘o samba nasceu lá na Bahia’, não resisti e fiz essa versão: ‘o samba não nasceu lá na Bahia/ele é filho de Donga e Ciata é a Tia/ele também é negro na poesia/ele também é negro na poesia/e é no Rio que bate o seu coração’. Beijos.” (Cláudio Jorge, compositor e arranjador, Rio de Janeiro, RJ).
“O que me surpreendeu mesmo foi ouvir o Marcelo, ao declamar os versos, apresentar-se como ‘Marcelo D2, capitão do mato queimado...’. Fui amigo de juventude do pai dele, meu querido Dark, já falecido, que ouvia e incentivava os meus primeiros trabalhos musicais - uma doce pessoa da família Peixoto. Não vejo relação entre criador e criatura e isso me deixa triste. Marcelo, não precisava...” (Reginaldo Bessa, compositor e produtor musical, Rio de Janeiro, RJ).
Roberto
M. Moura ( 18/08/47
27/10/05),
carioca, foi jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos,
roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ.
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