** Um fotógrafo é assassinado em serviço e fica por isso
mesmo.
** O presidente da Câmara do Deputados comete uma infração grave mas acusa a
imprensa de distorcer os fatos.
** O coordenador do MST prega a subversão da lei e denúncia a mídia como burguesa.
** A organização Repórteres Sem Fronteiras reclama contra abusos do governo cubano e é suspensa da ONU.
** A BBC acusa o governo inglês de manipular um relatório sobre as armas de Saddam Hussein e logo é apontada como responsável pelo suicídio do cientista que teria servido de fonte.
Os meios de comunicação erram, erram muito. Se não errassem não existiriam instituições como este Observatório da Imprensa e seus similares em todo o mundo.
O caso do repórter fraudador Jayson Blair desvenda a vulnerabilidade de uma instituição cujo funcionamento repousa exclusivamente na confiança e na boa-fé.
Repórteres confiam nas fontes, editores confiam nos repórteres, leitores confiam nos veículos produzidos pelos editores. Mas ao contrário de governos, governantes, políticos e representantes dos poderes formais, a imprensa hoje está permeada pela autocrítica.
Pode-se mesmo dizer que no turbilhão de mudanças que sacodem o mundo, a mídia, como instituição, conseguiu manter aquele mínimo de credibilidade graças à sua disponibilidade – forçada ou voluntária – para a exposição de suas mazelas.
E, no entanto, o desempenho da imprensa converteu-se na desculpa prioritária de todas as figuras públicas que cometem erros, abusos, deslizes ou incorrem em mentiras.
Isso é grave porque neste mesmo turbilhão mundial a democracia está sendo ostensivamente desrespeitada e atropelada – tanto por aqueles que pretendem falar em seu nome como pelos que ostensivamente a desprezam.
O fenômeno não é novo: nos anos 1930, Hitler e Goebbels justificavam a violência dos métodos nazistas alegando que reagiam contra as "mentiras" espalhadas pela imprensa internacional.
Setenta anos depois, multiplicaram-se os hitlers e goebbels: a fronteira que sempre separou a verdade da mentira está sendo atravessada pela legião de líderes incapazes de enfrentar a exposição a que são submetidos senão apelando para o bode expiatório da imprensa.
Os falsários que chegam ao poder – qualquer poder – independente de suas opções políticas ou religiosas, hoje atuam juntos numa única direção: desacreditar a imprensa, destruir paulatinamente a confiança que a sociedade deposita neste poder-sem-poder.
Esta gigantesca caça às bruxas precisa ser urgentemente desativada. O jornalismo jamais será imune a erros, jornalistas falham, o sistema de apuração não é infalível mas a imprensa como instituição periódica e permanente tem condição de corrigi-los.
A crítica ao desempenho da imprensa é recurso legítimo e democrático, não pode ser adulterado e convertido no instrumento para desacreditá-la. O que está em jogo é a democracia e o Estado de Direito.
observatóriodeimprensa
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