Política e cultura em 1975
A Internet é implacável – e graças a Deus. Um e-mail do jornalista e professor da UFF, João Baptista de Abreu, me obriga a voltar àquele texto em que a emoção diante da parceria Ivan-Chico causou-me certa amnésia política.
Jotabê chama a atenção para o fato de que, pelo menos com relação à última frase do texto, há controvérsias. Termino dizendo que “a gente era feliz e não sabia”. E recebo de volta: “pois é, a gente se esquece tão facilmente da ditadura que é capaz de pensar que aqueles eram bons tempos”.
Isso depois de João afirmar que “nunca é demais lembrar que apesar do caráter e da competência do Zé-Itamar de Freitas, dificilmente ele conseguiria emplacar um clip com música de Chico Buarque no Fantástico de 1975.
Nesta época, por recomendação do regime militar, Chico Buarque fazia parte de um index de políticos e artistas alijados da mídia. Talvez o Julinho da Adelaide merecesse um breve registro”.
É possível, mas lembremos: entre 70 e 75, a Rede Globo teve programa com Ivan Lins (“Som Livre Exportação”), especial de Elis Regina, prestigiou músicas censuradas de João Bosco e Aldir Blanc e estreou, em 73, o Fantástico, que era um jornalístico bem musical (e não um policial superficial como o atual).
Chico podia estar no índex, mas Ivan era queridinho nas hostes. Sei não. Leio os versos de “Renata Maria” e quase ouço-os num programa como aqueles eram.
Mas tem muitíssima razão o João Baptista, embora seu viés seja, senão exclusiva, prioritariamente político. Sofri a censura no Pasquim e aqui, nesta Tribuna, quando assinava a coluna “Corda solta”, exato naqueles setenta.
Mas, talvez por um mecanismo psíquico que Jaguar chama de “memória seletiva”, excluo as amargas. Minha área de afeição é a cultura – e é circunscrito a seu universo que posso reafirmar que a gente era feliz e não sabia.
Primeiro: a tevê e o rádio (a mídia eletrônica, enfim) não tinham chegado aos níveis de indigência intelectual e moral dos dias de hoje; segundo: as escolas públicas conservavam algumas das qualidades que tiveram seu apogeu nos anos cinqüenta e sessenta; terceiro: como estávamos numa ditadura, o governo não tinha medo da mídia, como passou a ocorrer desde a Nova República, ininterruptamente (ao contrário: a mídia é que tinha medo do governo).
Quem viveu dias de censura não pode jamais querê-la de volta. Só que, como nos ensinam todos os países do Primeiro Mundo, isso não significa abrir mão da obrigação que um governo eleito e democrático tem de regular o que os empresários fazem com as concessões públicas, transformando a tevê num baú de mil e uma futilidades.
Aqui, a esquerda escaldada tem medo de água fria. Não dá um pio nem para apoiar o projeto da Ancinav, a melhor coisa nascida no bojo do governo Lula e devidamente engavetado por que mexe com os interesses dos que se locupletam há décadas com a casa-da-mãe-joana instalada nas nossas Comunicações.
Aliás, semana passada, Lula foi definido como “um político bisonho”. Por alguém do PFL, do PSDB? Da oposição?
(Por Chico de Oliveira, sociólogo, fundador do PT). PS – Pouco depois de escrever as linhas acima, abro a "Folha” (24/05/05) e leio, estarrecido, a coluna de Daniel Castro: “o presidente Lula tirou parte da tarde de sábado para assistir, na Granja do Torto, ao ‘Programa Raul Gil’ (Record). Por volta das 13h, pediu a um assessor da primeira-dama para entrar em contato com a tevê. Queria falar com Raul Gil, o que ocorreu uma hora depois: ‘o presidente estava vendo o programa e ligou para agradecer’. Lula já foi duas vezes ao ‘Programa Raul Gil’. E vai voltar. ‘Ele me disse que não perde um programa quando está no país. Sabe até o nome dos calouros. Falou que Dona Marisa estava me mandando um beijo’. (...) A assessoria de Lula confirma que ele ligou para Raul Gil”. Por puro preconceito, claro, alguém poderia perguntar se o presidente da República não tem nada de mais importante para fazer, num sábado à tarde, entre uma viagem e outra, do que perder tempo com o lixo eletrônico da Record? Música boa para todos os bolsos
Um programa musical chique na Lagoa: As pianistas Diva Evelyn Reale e Sheila Migue fazem um recital a quatro mãos na Fundação Eva Klabin Rapaport (Av. Epitácio Pessoa, 2480), nesta quinta, 16, às 19:30 horas.
No programa, as “Danças Húngaras” (Brahms) e peças de Debussy e Gershwin. Ingressos: R$ 35,00. Bem mais em conta, de graça, é o encontro dos violoncelos do duo Santoro com a gaita de José Staneck, no Barra World, na Av. das Américas. Sexta, 17, às 20:15. No repertório, Bach, Mozart, Villa-Lobos, Piazzolla, Verdi e Bizet. Por e-mail:
“Mais do que um emocionante relato do show de Egberto Gismonti, você nos fez um convite a uma reflexão sobre arte/cultura/educação e o tratamento dado pela mídia.
Gostei muito da consulta aos seus alunos. Também faço com os meus. E que dados revela sua pesquisa! Para botar mais lenha na fogueira, segue consulta feita por um doutorando por mim orientado na UERJ. Ele dá aula numa turma de Comunicação numa faculdade em Niterói e quis saber quem conhecia Aldir Blanc.
Quarenta alunos ignoravam a obra do genial poeta/letrista/cronista. Juntando as duas pesquisas, já temos - e os que pensam como nós - assunto para muitas reflexões regadas a chopes, que ninguém é de ferro.” (André Valente, professor da UERJ e da FACHA, Rio de Janeiro, RJ)
“Comentários pertinentes, tão plural. Incrível como vivemos uma televisão tão alienante, com a principal finalidade de promover-se, ignorando descaradamente personagens da vida real e alimentando a cabeça das massas com lixo. É preciso termos a mente aberta, sermos criticos, olhar além-telinha. Felizmente, há você e outros poucos, faróis nessa treva de fantasia.” (Luiz Nascimento, Natal, RN)
* Luiz Nascimento se refere ao artigo “Ninguém agüenta essa tevê que a gente vê por aqui”.
“Acabei de ver o Prêmio Tim e fiquei com uma dúvida: eu escutei isso mesmo, Zélia Duncan chamando Marcelo D2 de 'meu poeta'?” (Marcella Goulart, univeristária, Rio de Janeiro, RJ)
* Deve ter sido o subconsciente. Zélia estava cantando o “Samba da bênção” e o D2 entrou para dizer o velho texto de Vinícius: “aqui é o capitão do mato Vinícius de Moraes, o branco mais preto do Brasil. Saravá”.
Quando ela disse “meu poeta”, era certamente no velho Vina que estava pensando. Mas, por falar no Prêmio Tim, que raridade, mesmo perto da meia-noite de um domingo, poder ver na tela da Globo músicos como Dirceu Leite, Helio Delmiro, Beto Cazes, André Boxexa, Nelson Faria, Marco Pereira e Ulisses Rocha, sem contar os mais conhecidos, como João Bosco e Wagner Tiso. Todos apareceram sem nenhum crédito, é claro – mas aí seria pedir demais.
Roberto
M. Moura ( 18/08/47
27/10/05),
carioca, foi jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos,
roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ.
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