Difícil servir a dois senhores? Pior deve ser ouvir as reclamações de ambos sobre a falta de zelo com qual estão sendo servidos. No curso atual dos acontecimentos, o PT parece dar claros indícios de que está enfrentando um dilema semelhante.
Não bastasse a inapelável falta de habilidade política para garantir a governabilidade e a articulação dos interesses que, nas urnas em 2002, significaram 61% de aprovação; o partido de Lula reforça a suspeita de que ainda se considera, meramente, oposição.
A oposição mesmo — supostamente situada um pouco mais para a direita — nada de braçadas no mar de contradições no qual se perdeu o PT.
Ao que parece, nem os dirigentes nem qualquer força tarefa petista no congresso conseguiu descobrir uma maneira de ser “governo” sem, simplesmente, desvestir-se da história, programa e representatividade construídas ao longo de 25 anos de ação política.
Assim, quando não se entregam, negligentemente, ao uso de artifícios improvisados, cometem erros crassos que refletem um absoluto descuido estratégico com a imagem do governo e a de alguns de seus mais influentes correligionários.
É tropeçando desta maneira nas próprias pernas, que o partido mais uma vez tentou gerenciar mais uma questão delicada: a da CPI dos Correios.
Ao desgaste político do governo até agora, somou-se os sonoros desentendimentos internos acerca da ratificação ou não da instalação da primeira Comissão Parlamentar de Inquérito do governo Lula.
Algo cada vez mais fácil de se imaginar apesar de uma certa organicidade que sempre foi característica ao partido. Como resultado: uma verborragia desnecessária que, fora do círculo intrapartidário, deslocou do centro das atenções a prerrogativa parlamentar de apuração de responsabilidades e ilícitos.
Qual imagem pretende defender o Ministro-Chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, juntamente com o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, ao preconizarem, veementemente, a punição de correligionários que não seguiram a orientação do partido? Quê importância isto tem em vista do imperativo de saneamento moral como reflexo natural de uma verdadeira política de austeridade?
Segundo o senador Eduardo Suplicy, sua opção pelo “Sim” decorreu da percepção de que “(...) existia um contraste grande entre a vontade da população e a orientação para não assinar”, tendo ainda dito: “Recebi muitos e-mails e telefonemas pedindo que eu assinasse e eu achei que seria melhor para o presidente Lula.”, conforme declarou em entrevista (O Tempo, em 28 de maio de 2005).
De maneira mais coerente que seu próprio partido, o deputado Walter Pinheiro (PT), que se indignou com o tom das ameaças de punição, quando exercia o cargo de líder do PT na Câmara em 2001, afirmou que FHC queria tirar o foco da CPI da corrupção ao criar a Corregedoria Geral.
Tendo dito na ocasião: "Ele (FHC) está pressionado pela opinião pública que identifica corrupção no governo e tomou a iniciativa para evitar a CPI” (Folha de São Paulo, em 3 de abril de 2001).
A justificativa usual da liderança petista contra a CPI baseia-se na hipótese de que as apurações teriam um caráter mais político que investigativo, face às expectativas para a campanha eleitoral em 2006.
Presume-se que haja uma mobilização escamoteada para prejudicar o prosseguimento da agenda positiva do governo. Prática que estaria calcada na desestabilização política e moral da base aliada.
Argumento no mínimo estranho já que para buscar apoio político contra a CPI, o PT preferiu ignorar o fato de que não agiu com o devido rigor quanto ao afastamento de Henrique Meirelles (BC) e Romero Jucá (Previdência), ambos ainda sob investigação.
O que também não ajuda, é que entre aqueles que se solidarizaram com PT, estão parlamentares que no passado recente foram mencionados em escândalos, com o senador Ney Suassuna (PMDB), o deputado Ronivon Santiago (PP), a senadora Roseana Sarney (PFL).
Mais um tropeço petista que está tendo conseqüências nocivas para a imagem de lisura do processo legislativo e de seriedade das instituições públicas. Sem dúvida um duro golpe para a democracia brasileira ainda está em processo de consolidação.
Assim, vai ficando no ar o mesmo desalento que levou Dom Geraldo Majella, presidente da CNBB, a manifestar que “os políticos brasileiros não servem de bons exemplos para a população”. Um exagero, mas que pode significar muito, em breve.
Urge, portanto, atitudes definitivas do Palácio do Planalto. É preciso parar de alimentar neuroses e de improvisar soluções desesperadas.
O que convém ao PT agora é apurar, punir e desengavetar o programa de governo, até então abandonado em algum lugar de Brasília.
Caiuby Freitas, é cientista político. E-mail:
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Uma vez ouvi uma frase que me chamou muita atenção: "A pior desgraça do mundo são aqueles que não se interessam por política." Adorei sua matéria, parabéns.