Qualquer que seja o resultado da CPI dos Correios, a classe política já foi condenada por uma CPI popular da Coerência. A opinião pública viu assustada o PT, que antes lutava por CPIs de qualquer tipo, lutar agora contra elas, com o mesmo empenho. E assistiu, com o mesmo susto, aqueles que antes barravam CPIs lutarem agora para que elas sejam criadas.
A oposição também perderá a CPI da Coerência. Quando luta tão enfaticamente pela instalação da CPI, o PSDB perde tanta coerência quanto perde o PT lutando contra ela.
Enquanto isso, a Amazônia está sendo desmatada, a educação de nossas crianças é uma das piores do mundo, a cada ano o Brasil fica mais para trás em relação a outros países.
Nunca os partidos brasileiros foram tão parecidos, como se em política fosse correto mudar de lado sem qualquer cerimônia, sem respeito à opinião pública e sem projetos para o Brasil.
Enquanto deixam de lutar por mudanças substanciais que o Brasil tanto espera. Lutam por serem parecidos, até na incoerência. O governo Lula não enfrentou uma única disputa por causas ideológicas, princípios, programas.
As poucas votações no Congresso sobre temas estruturais são decididas em acordos de lideranças, porque não incomodam os que sempre estiveram no poder.
Ninguém imaginava um governo petista que passasse pelo constrangimento de enfrentar tantas denúncias. Muito menos que, havendo qualquer denúncia de corrupção, o PT não fosse o primeiro a se empenhar em apurá-la.
Ao combater a instalação da CPI, cria-se uma idéia de tolerância que se espalha por toda a máquina do governo, como um exemplo nocivo. O mais grave é que ninguém conceberia um governo do PT com propostas tão dóceis, que não provocassem nenhuma reação contrária por parte da oposição.
Não fossem os escândalos, não haveria maiores discordâncias no Congresso, porque o governo não propõe medidas que provoquem debate ou reações conservadoras.
Ninguém discute propostas de distribuição de renda, reforma agrária, revolução na educação, redução da desigualdade social, proteção da Amazônia, nem mesmo leis contra corrupção.
Tão grave quanto uma ou outra denúncia de corrupção em virtude do comportamento dos políticos, é o fato de o governo Lula não ter até hoje preparado e apresentado um projeto de combate à corrupção nas prioridades da política.
Perde assim o debate político e ideológico antes mesmo de iniciá-lo, e se torna refém do debate ético.
Com isso, a corrupção se agrava. Porque CPIs não discutem as causas de um sistema corrupto em si: uma sociedade corrompida pela desigualdade social, sem coesão social, a desconfiança generalizada em relação a um Estado que vem, historicamente, servindo exclusivamente aos interesses privados dos que o controlam.
A corrupção tornou-se natural. E o governo não tem mostrado vontade de mudar nossa realidade social, nem de construir um clima de confiança no Estado.
Mesmo que a CPI dos Correios inocente a base aliada, o governo, o PT e os políticos já perderam a CPI da Coerência.
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br e escrever-lhe em
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