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Escrito por Cristovam Buarque   
Sunday, 26 September 2004

O Brasil completou 182 anos de um nascimento incompleto. Nasceu como país, mas não como nação.

Nossa independência foi tão incompleta que partiu do rei do país do qual queríamos ser independentes, que disse ao filho que se tornasse imperador antes que algum aventureiro o fizesse. Anos depois, D. Pedro I se fez D. Pedro IV para continuar herdeiro de Portugal. Passados 182 anos, a independência continua incompleta.

Não temos autonomia para nos relacionarmos com o mundo. Continuamos vulneráveis a decisões externas. Não transformamos um país nascente em nação consolidada, pois para ser país, basta território e uma constituição, mas para ser nação é preciso um povo integrado.

Em 1888, abolimos a escravidão de maneira incompleta: não oferecemos terra aos ex-escravos, nem escolas aos seus filhos.

Uma abolição tão incompleta quanto a independência. Um ano depois, proclamamos a República, mas não construímos uma república. Mantivemos a população separada e uma enorme concentração de renda.

Os mais ricos estudam por 20 anos, enquanto os mais pobres estudam em média quatro. Uma desigualdade superior à do império, quando nem os ricos recebiam educação.

O desenvolvimento econômico também foi incompleto, pois não produziu para todos. A democracia também foi incompleta, pois não reorientou o projeto nacional, não fez reforma social, não eliminou a desigualdade. Limitou-se à nova Constituição, à aposentadoria rural e à Bolsa-Escola Federal.

Três instrumentos incompletos: uma constituição corporativa, que impede o governo federal de oferecer escola às crianças de quatro anos; uma aposentadoria rural que não garante uma vida digna; e uma Bolsa-Escola que não controla a freqüência nem conta com educação de qualidade.

Na verdade, a independência, a abolição, a república, o desenvolvimento e a democracia foram feitos para beneficiar a elite e distribuir migalhas aos excluídos. Assim, ficamos uma nação incompleta.

Por isso, o 7 de setembro deve, mais do que comemorar o passado, olhar para o futuro. Em 18 anos comemoraremos o bicentenário da independência, mas não podemos fazer uma comemoração hipócrita do que não ocorreu plenamente.

Por isso precisamos de um Choque Social, uma revolução orçamentária para investir nas necessidades sociais, especialmente na educação. Até lá, nossas bandeiras não serão mais “independência ou morte”, “viva a república”, “diretas já”, e sim “toda criança na escola aos quatro anos”, “ensino médio obrigatório”, “toda casa com água e esgoto”. Bandeiras de um Choque Social capaz de completar a nação brasileira.

Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br e escrever-lhe em Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (1)Add Comment
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escrito por francilaine aparecida, 2006-09-02 12:56:28
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