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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 06 June 2005
Rio das Ostras ovaciona Egberto

Se alguém lhe contar que Egberto Gismonti e seu filho Alexandre, o Branquinho, foram capazes de manter doze mil pessoas em pé, numa noite de sábado, na Praia Costazul, no mais respeitoso e absoluto silêncio, durante uma hora – e você não acreditar, eu lhe darei toda a razão.

Também eu duvidaria e, no entretanto, acredite, sem tirar nem pôr,  foi o que se viu no Rio das Ostras Jazz and Blues, na mais positiva das surpresas daquele evento que já vem se constituindo numa tradição da Região dos Lagos.

Além dos dois músicos, apenas um piano de cauda e dois violões ocupavam o palco. E foi assim, com esses instrumentos seculares, que o nosso compositor e instrumentista hipnotizou a platéia, saindo ovacionado e sendo obrigado a voltar para um bis. Na terceira e mais alentada edição do festival, Egberto só não foi mais aplaudido do que a informação da produção, num dos intervalos, de que a prefeitura da cidade acabava de confirmar, para o ano que vem, o IV Rio das Ostras Jazz and Blues.

Logo depois do show, na alegria do camarim, Egberto recebeu a cantora incumbida de sucedê-lo no palco, a americana Nnenna Freelon, diversas vezes indicada para o Grammy e uma artista que começou com Elis Marsalis, pai de Wynton, e chegou a participar de excursões e gravações ao lado de Ray Charles, Al Jarreau, George Benson e Herbie Hancock.  

Nnenna Frelon, logo depois de reverenciar Egberto Gismonti
 
Foto: Roberto M. Moura

Com cuidado, a produção perguntou se o compositor se incomodava de receber a artista. Apaziguado pela performance recém-concluída, de bem com a vida, Egberto estava num momento de enorme simpatia – e ouviu da cantora palavras sinceras e lindas de admiração à sua arte tão pessoal quanto rica.

 
E Nnenna estava, de fato, emocionada ao ser apresentada ao nosso patrício, na noite avançada da Região dos Lagos.

Mas, se Egberto é dono desse talento internacionalmente aplaudido – por que a surpresa do texto com a recepção que ele teve ali? 
Eram doze mil pessoas. Em pé. Idade média de não mais que trinta anos, numa massa de milhares de jovens da idade de Branquinho.
 
Ora, se a gente sabe o peso que a mídia eletrônica tem na formação dessas novas gerações – e se constata-se que Egberto Gismonti está longe de ser, há décadas, artista escalado para um desses programas que fingem levar música à telinha, o mistério é explicar a reverencial recepção de uma multidão a um nome pouco privilegiado no facilitário com que a mídia vem nos brindando.

Mistério, aliás, tão indecifrável quanto a constatação de vê-lo transformado em superstar de um evento que contou com Kenny Garrett (sax-ato) e Mike Stern (guitarra), dois músicos que tocaram com Miles Davis e por isso sintonizem a freqüência “fusion”; Magic Slim, um dos maiores bluesman em atividade no mundo; John Scofield, guitarrista de estilo puro que está agora homenageando Ray Charles com o CD “That´s what I say”; além da própria Nnenna; das Chicago Blues Ladies; do acordeonista Dwayne Dopsie (com seu dançante “zydeco”); e, também guitarrista, Eddie Campbell.
 
Egberto Gismonti não foi a única atração brasileira do festival. A abertura, quarta-feira, aliás, foi toda nacional, com Wagner Tiso, Ithamara Koorax e Victor Biglione, além da banda de Big Joe Manfra, responsável pelos momentos mais animados da noite. Note-se que Wagner, Ithamara e Victor são presenças muito mais fáceis na mídia e na programação do nosso show-bizz que esse esquivo e quase sempre ausente Egberto.

Na quinta, entre os estrangeiros, havia ainda Celso Blues Boy – e o que impressiona nesse blueseiro nativo é o público fiel, que sabe as letras e canta todas as músicas, mas constitui uma tribo à parte, colocada à frente do palco e vista com curiosidade pelo público geral.
 
O prefeito Carlos Augusto, do PMDB, sabe que esse investimento, desde a administração passada, de Alcebíades Sabino, resulta da circunstância de Rio das Ostras ser uma das cidades beneficiadas pelos royalties do petróleo. Tanto que, além dos shows na orla urbanizada de Costazul, os artistas se revesam em apresentações na Praia da Tartaruga e na Lagoa de Iriry, à tarde Festival à parte, o prefeito sabe também que nem o Estado nem a União podem se ausentar do processo de adequação da cidade a uma nova demanda.
 
“Rio das Ostras – diz ele – passou de dez mil para mais de cinqüenta mil habitantes em treze anos. A rede escolar, que atendia dois mil alunos, hoje tem que atender 16 mil”.

Se Rio das Ostras cresce, cresce em proporção maior o fluxo migratório de uma população de pouca escolaridade.
 
Daí a necessidade de estimular a ocupação de áreas longe das margens da Rodovia Amaral Peixoto, como a Rodovia do Contorno, de 13 quilômetros, inaugurada há cinco meses, mas que ainda se ressente de um reparo estrutural. Seu objetivo: desviar do centro da cidade o tráfego que se dirige a Campos e Macaé e servir de opção a novos investimentos e construções.

Embora alguns nomes da oposição entendam que Carlos Augusto “está longe de ser um homem da cultura”, os olhos do prefeito brilham quando ele fala da parceria com a Fundação Jacques Cousteau, para a preservação das dezenas de praias que enfeitam a cidade. É por aí que vê o futuro de Rio das Ostras: “a maior decepção que tive em termos de turismo foi em Porto Seguro; ali, vi o que o marketing é capaz de inventar; nossas praias são muito mais lindas e, agora, com a garantia de que serão cuidadas, a hora é de fazer todo mundo saber disso”..

Outra coisa: a Prefeitura tem se mostrado preocupada também com o ensino universitário, num trabalho de mão dupla. Por um lado, estimulando o crescimento da parceria com a unidade da UFF instalada na cidade e, por outro, através da criação de um programa que garante apoio para os filhos da terra que cursam o ensino superior em cidades vizinhas (Rio, São Gonçalo, Macaé, Silva Jardim, Campos, Cabo Frio e Niterói).

É um desafio que todo músico sabe quanto custa: subir o tom, uma oitava acima, sem desafinar.
 
PS – Para tentar esclarecer o mistério, criei uma pesquisa rápida, distribuída entre 50 alunos da turma de teoria do Jornalismo e Audiovisual da FACHA, em Botafogo. Vinte e três deles jamais tinham ouvido falar em Egberto. Quinze, sabiam tratar-se de um compositor brasileiro, mas desconheciam sua obra. Um tinha CD dele em casa, e gostava. Outro, tinha visto um show do compositor. Sete lembram de tê-lo visto na tevê (que tevê, oh céus?) Quanto à notícia das doze mil pessoas em silêncio, deslumbradas com o artista, um aluno disse ser mentira; sete outros afirmaram que isso era impossível de acontecer; e, 25 outros, acham que só aconteceu “por que era um público de jazz”. Quinze outros alunos arriscaram outras interpretações: “falta de oportunidade de conhecer a obra desse gênio”, “a boa música tem o poder de encantar diversos públicos”, “ele deve ser muito bom e o público soube reconhecer”, “a platéia era elitizada e informada e foi para lá sabendo o que ia assistir”, “o jazz é uma música que encanta, que envolve, mas 12 mil pessoas em pé, uma hora, é um exagero”, “a grande divulgação no município, que está com muito dinheiro, e o show sendo grátis, o que também é muito importante”, “a região não tem um público tão grande assim de jazz”, “o fato do evento ter sido gratuito”, “por causa da ampla divulgação em placas e rádios na cidade”, “dificilmente isso aconteceria num show de pagode, onde o público é mais eclético”, “o público só não gosta de jazz e música erudita por que não tem acesso”, “as pessoas que realmente compreendem e absorvem esse gênero musical são poucas e esse estilo é mais tratado como símbolo de status” e “acho impossível, mas não improvável, como diria nosso Edgar Morin”. E você, da poltrona, algo a acrescentar?
 
Por e-mail:
 
“Você matou dois coelhos com uma só cajadada e, mais do que isto, fez ver que Hermínio e eu somos farinha do mesmo saco. Finalmente, podemos aplicar esta expressão de maneira positiva.” (Haroldo Costa, escritor e produtor cultural, Rio de Janeiro, RJ)
 
“Nossas afinidades continuam. Em primeiro lugar, não é que fui ouvir "Renata Maria" dentro do Rebouças? Em segundo, meu filho me representa no festival em Rio das Ostras e encontra você por lá.” (André Valente, professor da UERJ e da FACHA, Rio de Janeiro, RJ)
 
“Estou ‘louquinha´ pra ouvir essa canção, ‘Renata Maria’! Deve ser linda... Mas... onde anda José-Itamar? Tenho muita saudade dele. Costumava  tocar umas músicas dele em shows de faculdades. Uma delas, ‘Jipe matou carro de boi’ (era cantada por Geise Monteiro) até hoje está na minha cabeça. Dá meu endereço pra ele?” (Irinéa Maria, compositora, Rio de Janeiro, RJ)
 
* E eu, que nem sabia que José-Itamar também compunha... Já me disseram que aposentou-se e mora em Juiz de Fora – mais não sei. Quem souber, pode encaminhar a ele o endereço da Irinéa: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
 

robertobienal3jk.jpgRoberto M. Moura ( 18/08/47   27/10/05), carioca,  foi jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ.

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