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Patota d'O PASQUIM PDF Imprimir E-mail
Escrito por Eduardo Phillipe   
Saturday, 28 May 2005
Meados de 1970. Época difícil. Censura e muita esperança em um progresso que, finalmente, nos colocaria entre os primeiros do mundo. Foi neste cenário que nasceu O PASQUIM. A sede por informação e bom-humor era tanta que o sucesso foi imediato.

O significado do nome não é dos mais lisonjeiros. Pasquim é um jornal difamatório espalhado clandestinamente. Esse nome foi idéia do Jaguar que, junto com Henfil, Ziraldo, Millôr, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Glauber Rocha, Ivan Lessa e alguns outros singulares, formavam a linha de frente da patota d'O PASQUIM.

A idéia era, basicamente, tirar sarro enquanto os mais variados temas eram discutidos. O humor ácido e inteligente foi usado de maneira criativa e sutil contra a censura, uma vez que não se podia envolver diretamente o governo militar.

O AI-5 estava decretado. Dava cana e tal. Eles contavam até com uma simpática censora particular que ficava o dia todo na redação fazendo o que as mulheres melhor sabem fazer: mandar. Coitados. Os militares também tinham senso de humor.

Os verdinhos, aliás, davam muita importância à mídia. Hoje, inverteu. A mídia dá importância demais aos verdinhos. Mais do que deveriam. Houve perseguições, mortes e tudo mais. Números moralmente altos.

O dado oficial gira em torno de trezentas pessoas mortas em vinte anos de governo. Se pouco, talvez quantas? Quinhentas? Mil pessoas? Claro que todo protesto contra a violência é válido, mas, convenhamos que postas ao lado de Mao, Stalin, Pol Pot, Hitler entre outros açougueiros, nossas forças armadas não passavam do jardim da infância do terror.

A violência, por sinal, foi um dos temas mais debatidos na coluna do Paulo Francis. Uma boa recomendação é Paulo Francis nu e cru, coletânea de crônicas enviadas a'O PASQUIM entre 1971 e 1975.

Em uma passagem, contou o encontro entre um amigo comuna e um diplomata da URSS que Francis conhecera lá durante uma viagem a convite.

O diplomata reclamou das críticas que Francis fazia contra as violências do regime soviético, mas reconheceu que ele não poderia ser um "agente do imperialismo norte-americano" pois atacava igualmente, ou até pior, a truculência dos EUA.

Sem muito esforço, o diplomata descobriu que o verdadeiro nome de Francis era Heilborn, concluindo, curiosamente, que ele só poderia ser um agente da Alemanha Ocidental. Até que Francis gostaria.

Esses agentes ganham uma bolada de dinheiro. Já um jornalista conhecido, mal consegue garantir o privilégio de não se dar ao esporte do transporte público.

Hoje, só restou o imperialismo norte-americano cuja história alegra a vida dos catedráticos brasileiros de humanidades por dar-lhes a chance de demonstrar seus dotes humorísticos. Um dos capítulos mais queridos é a Guerra contra o México.

A turminha do Tio Sam matou mexicano às pampas na sua expansão territorial -- muito elogiada por Marx e Engels pela "bravura norte-americana em civilizar esses mexicanos primitivos"(sic).

Os norte-americanos são uns imperialistas sem coração mesmo. O problema é que em matéria de imperialismo, o Brasil não fica muito atrás -- e os argentinos concordam.

Matamos 75% dos homens do Paraguai e não tivemos nem o bom senso de prosseguir em direção ao Oceano Pacífico. Com acesso a dois oceanos, o Brasil teria possibilidade de enriquecimento rápido e de financiar a nossa industrialização ainda no século XIX.

Duque de Caxias demonstrou que ninguém podia nos parar militarmente. Por que não continuamos? Sei lá. Mistérios do sub-desenvolvimento.

Na época d'O PASQUIM, Francis era um trotsquista do Partidão. Nos 1980, mudou. Virou um neoliberal. Entendeu que as teorias de Hegel foram derrubadas pelos cientistas e reconheceu que esse negócio de revolução do proletariado é de rir aos baldes.

Proletário não quer revolução coisíssima nenhuma. Só quer um pouco de mordomia. Atingindo um mínimo aceitável do padrão-de-vida, a revolução se torna desnecessária. O ser humano não troca o certo pelo duvidoso.

Ou seja, os revolucionários, no Brasil, são universitários de classe-média que tresleram a história, que nunca viram um torno mecânico na vida, que se fantasiam de Che Guevara e que passam o dia todo brincando de movimento estudantil. Se Marx previsse onde suas idéias terminariam, ele mesmo teria as jogado no lixo.

Aliás, sorte desses universitários por vivermos, hoje, num sistema capitalista democrático: temos o direito de pensar e dizer o que bem entendermos. Na ditadura, eles, por muitas vezes, foram alvo da esquizofrenia lunática dos militares.

O episódio mais odioso foi na PUC de São Paulo onde a TUCA foi incendiada numa invasão para acabar com uma suposta reunião comunista da UNE. Se realmente existiu, não passou de um piquenique de escoteiros engajados.

Não era necessário toda aquela repressão. O odor da truculência fedeu aos céus e até hoje militares não podem entrar armados por lá. É uma imposição compreensível, porém criou-se um dos maiores altares para a veneração de maconha da cidade.

A patota d'O PASQUIM também teve seus affairs com os militares.

Em 1970, pouco depois de atingir 250 mil exemplares por semana, o exército tomou a redação e prendeu todo mundo.

É verdade que o maior aborrecimento foi ficar, de fato, preso. Não houve agressões físicas nem nada. Sérgio Cabral conta que, neste episódio, depois de um tempo na cadeia, o oficial abriu a cela e foi conversar com ele e com o Ziraldo.

No final, acabou oferecendo uma cerveja e o sentinela até tocou violão. Paulo Francis, em seus livros, conta que foi preso quatro vezes e que também não teve maiores contra-tempos. Logo depois, Francis foi morar em Nova Iorque assim como Ivan Lessa foi para Londres.

Em Londres, Lessa foi logo avisado que para entrevistar um político ele precisava ter em mente apenas três coisas: eles mentem, eles mentem e eles mentem.

Esta é uma definição bem precisa do jornalismo de opinião. Sua função é duvidar, criticar, caluniar, perseguir e difamar as autoridades públicas.

Porém, isso quase não existe mais no Brasil desde quando o poder foi transferido para os civis. E os poucos que existem são taxados de derrotistas, entreguistas, etc.

A democracia, de certa forma, nos prejudicou. A idéia de que basta apertar alguns botõezinhos para que tudo se resolva nos atordoou e nos tornou ainda mais submissos, ainda mais levianos.

A grande sacada da democracia não está na escolha, mas no poder de vigilância que é transferido do Estado para a sociedade.

Se ninguém exerce essa vigilância, de nada adianta a democracia, de nada adianta apertar botõezinhos. E continuaremos, eternamente, com a esperança de um progresso que nunca chegará.

Eduardo Phillipe, cursa Economia. Alinhado à direita liberal, é influenciado por personalidades do calibre de Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Locke, Paulo Francis e Olavo de Carvalho. Profissionalmente engajou-se com a área de publicidade. Seu site: http://eduphillipe.blogspot.com email:  Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (1)Add Comment
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escrito por Visitante, 2006-03-05 00:50:29
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