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Escrito por Roberto M. Moura   
Monday, 30 May 2005
robertobienal3jk.jpgCaixa de Hermínio, pacote de Haroldo

É de admirar que algumas pessoas, a despeito de toda a maré contrária, insistam em perseverar. De tanto ver triunfar as nulidades já barboseava, farto, o velho Ruy, imagine que oração faria aos moços, lendo os jornais ou vendo a tevê de hoje. Somos o país que inverteu o célebre dito americano: aqui, alguém tem que fazer o trabalho limpo, a coisa nobre – que o sujo é a regra, é o que se infiltra em todas as nossas camadas sociais, pervertendo de colunistas deslumbrados a manifestações como o futebol e a música popular, ambas de peso indiscutível para a argamassa da nossa identidade nacional.

Hermínio Bello de Carvalho e Haroldo Costa são dois desses quixotes modernos. Poderiam prostituir o talento que têm, alugando-os por força de mercado a tarefas medíocres – que é isso o que se vê no panorama geral. No entretanto, acreditem, aí estão.

Um, Hermínio, festejando 70 anos de inabalável compromisso com as coisas em que acredita – e é tão obstinado nisso que é capaz de conquistar aliados inclusive para as causas perdidas.

O outro, Haroldo, a despeito daquela elegância e discrição, daquele jeito de quem não briga com ninguém, erigindo obra igualmente à margem, sempre preocupado com o carnaval, o Salgueiro e, agora, com Nazareth.
 
Pode haver coisa mais fora de moda que Ernesto Nazareth? Arrisco dizer que essas duas palavras, juntas, são impronunciáveis na mídia eletrônica, vão conseguir no máximo uma citaçãozinha nos cadernos literários dos maiores jornais. Não mais que isso.

Pois Haroldo Costa, com a coordenação de projeto de Armando Daudt, convenceu a Eletrobrás e o SESC a bancarem um projeto que dá ao criador de “Odeon”, “Brejeiro”, “Gaúcho”, “Tenebroso” e “Apanhei-te, cavaquinho” um renascimento de alto luxo, montado num livro de capa dura, acompanhado por um CD que transpõe as partituras pianísticas de Nazareth para os timbres igualmente raros do também tão esquecido Quinteto Villa-Lobos.
 
Oxalá, depois dos inevitáveis brindes a amigos e fornecedores, as duas instituições permitam o acesso da obra a estudiosos e admiradores de uma arte brasileira de verdade.
Chama-se “Ernesto Nazareth – o pianeiro do Brasil” o novo livro de Haroldo Costa. E diga-se que nunca o instrumentista brasileiro responsável pela conversão de Radamés Gnattali à música popular nos surgiu tão ricamente ilustrado, tão completamente decupado, inclusive com os fac-símiles da notícia de sua morte misteriosa, por afogamento nas águas de um reservatório da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, em fevereiro de 1934.

Há um capítulo, idéia brilhante, que alinha depoimentos de intérpretes de Nazareth sobre seu estilo único e sua complexidade harmônica. Para Edino Krieger, Nazareth é “uma das figuras emblemáticas da identidade sonora do Brasil”. Henrique Cazes lembra que “até hoje, quando alguém puxa um Nazareth menos conhecido na roda, boa parte dos instrumentistas depõe os instrumentos.
 
As sofisticações que consagraram o gênio do pianismo brasileiro até hoje atrasam sua divulgação”. Wagner Tiso parece concordar: “sim o choro pode ser também uma obra pianística. Quem mostrou isso foi Ernesto Nazareth”.
 
Joel Nascimento, bandolinista e ex-pianista, realça que “a imponência, a erudição, o lirismo e a forma acadêmica que o piano dá à obra de Nazareth jamais será reproduzida fora dele”.
Transpor Nazareth era o desafio do Quinteto Villa-Lobos, que agora e sempre me lembra seu fagotista-fundador, Aírton Barbosa. E o CD é peça camerística de primeira linha, escorada na competência com que Paulo Sergio Santos (clarinete), Philip Doyle (trompa), Aloysio Fagerlande (fagote), Luís Carlos Justi (oboé) e Toninho Carrasqueira (flauta) mergulham na transcrição.
 
Agora, vejamos Hermínio, bafejado pela bela caixa de cinco CDs com que a Biscoito Fino comemora suas sete décadas, vividas quase todas em meio aos ídolos que transformou em amigos e parceiros da vida inteira. 
 
O primeiro dos CDs, “Timoneiro”, teve produção de Zélia Duncan, e é o único que terá vida própria. Será vendido com a caixa e sem ela, com seu repertório que visita “baús e gavetas” dos guardados do poeta, como o samba “Quarta-feira”, parceria com o já centenário Ismael Silva e que aparece em bela gravação de Mart´nália e Moska (“nossa vida era complexa/desconexa por demais/mas faltava concordância/e outros predicados mais”).
 
Além dele, outros parceiros menos comuns, como Fátima Guedes (“Monotonia”), Cristóvão Bastos (“Alecrim”), Moacyr Luz (“Quem mandou”), Suely Costa (“Cobras e lagartos”), Rildo Hora (“Senhora da Glória”) e Francis Hime (“Descompaixão”).
 
Os outros, são antigos elepês reeditados com capricho, como “Pastores da noite”, que introduzia o compositor Vital Lima (seu novo CD foi recentemente saudado aqui); “Lira do povo”, que tem intérpretes que vão de Elizeth Cardoso e Clementina de Jesus a Zé Renato e o próprio Ismael em “Ando cismado”, parceria com Noel; “Cantoria”, que repete o formato, desta vez trazendo, entre outros, Ângela Maria, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Martinho, todos amigos, embora de tribos diferentes; e, finalmente, “Alayde Costa canta Hermínio Bello de Carvalho”, em que a voz da estilista relê delícias como “Mas quem disse que eu te esqueço”, “Doce de coco”, “Mudando de conversa”, “Pressentimento”.

Como se vê, Hermínio, na prática, não realizou o pregado em seus versos famosos: “não sou eu quem me navega/quem me navega é o mar”. Sempre soube muito bem o que quis - e é nessa direção que trabalha.
 
 Roupas comuns dependuradas 

Termina hoje, na Casa de Artes de Paquetá, a exposição “Chão de estrelas”, focalizando a obra de Orestes Barbosa. Organizada por Maria Luiza Falcão, a mostra pode ser vista entre 10 e 17 horas. Orestes foi um dos grandes da música brasileira mas, sic transit gloria mundi, quase não se fala nele. Foi grande no jornalismo também, bem maior que muita “celebridade” desses dias de enganação explícita.
 
Contraponto no Clan Café

E, por falar em Paquetá, amanhã, 31, o quinteto Contraponto apresenta o show “De amores”, no Clan Café, na Rua Cosme Velho, 564, com couvert a R$ 10,00. O que isso tem a ver com Paquetá? Ora, é de lá (e filho do grande Roberto Martins) o pianista do grupo, Jorge Roberto Martins, também jornalista e apresentador do programa “Sala de Música”, da Rádio MEC.
 
Por e-mail:

“Querido, me emocionei muito com tuas palavras. Ganhei o dia! Te agradeço por elas e te digo que a minha alegria com este novo disco é imensa. O que ele tem causado às pessoas, o que elas têm me dito, me escrito, já valeu tê-lo gravado. Te espero no Canecão no dia 23 de junho, quando vou poder cantar ‘Renata Maria’ ao vivo pra você. Vou convidar Chico para este duo. Comece a torcer pra que ele aceite meu convite. Joyce já aceitou e estará lá. Um beijo com muito carinho e obrigadíssima!” (Leila Pinheiro, cantora, Rio de Janeiro, RJ>
 

robertobienal3jk.jpgRoberto M. Moura ( 18/08/47   27/10/05), carioca,  foi jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos, roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ.

Comentarios (1)Add Comment
Cara tu eh o reI
escrito por JoaUmm, 2006-11-04 00:22:42
Mermao vai lê um livro cara!!!

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