Costuma-se dizer que aos políticos que decepcionam seus eleitores as urnas oportunamente dão o recado.
Esta verdade parece ter perdido a validade há alguns meses, quando a população do pequeno município goiano de Cidade Ocidental, enfurecida com o aumento que seus nobres vereadores concederam a si mesmos, iniciaram uma rebelião que só foi contida pela polícia a muito custo.
Talvez lá, como dito em artigo anterior, a politicalha tenha entendido que as coisas não são mais bem assim. O exemplo ficará na história da cidade como uma espécie de vacina contra a legislatura em causa própria, a falta de compostura no trato da coisa pública e outros quesitos relacionados.
Como Rondônia fica um tanto distante daquela cidadezinha goiana e seu governador e deputados talvez não tenham lido a reportagem sobre Cidade Ocidental, os maus costumes continuaram a nortear o comportamento de suas excelências.
E a corrupção correu solta, como de resto ainda corre Brasil afora; vide episódio Correios, ainda em cartaz.
Mudaram talvez os costumes, pois se antes ouvia-se um resmungo aqui e ali, ou uma passeata percorria ruas em protesto contra os deploráveis e sempre recorrentes atos de usurpação da coisa pública, agora, com a devida vênia do secretário dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, pode-se afirmar sem sombra de dúvida que a coisa ficou preta. Pretíssima.
Lá em Porto Velho, aonde a reportagem da TV Globo não chegou, por obra e graça dos préstimos do subserviente - para dizer o mínimo - Judiciário, a fúria dos munícipes suplantou a mais pessimista expectativa, se alguma havia por parte daqueles a quem cabia a nobre tarefa de zelar pela coisa pública.
Dir-se-á: Os tempos mudaram! E como! Tudo aquilo que a complacente Justiça local tentou abafar veio a público com a força de um vendaval, na forma da mais legítima indignação popular.
Bem organizada, a torcida levou até notas de 50 mil reais, com a inscrição: Válida somente para a compra de um deputado corrupto, o mesmíssimo valor que os dignos representantes de si mesmos, jamais do povo, pediam ao governador, a mesada do apoio.
Num país onde ações de barbárie são toleradas pelas autoridades, aquelas mesmas em que o leitor está pensando, do MST- Movimento dos Sem-Terra, esta surra moral e quase física que aqueles legisladores tomaram da população adquire um tom de legitimidade incontestável.
Desta vez, a soberba e a (não mais) certeza da impunidade destruíram a ponte que ligava, ainda que de forma precária, representantes e representados, se assim pode-se a ambos referir.
A ausência do Estado, do Estado legítimo, coerente com leis e princípios levou ao ponto de não-retorno , de ruptura, cansou. O episódio teve, como tudo, dois lados: O didático, que define quem é quem numa situação-limite, e o reprovável, - não fosse o tanto de deboche com que foram os cidadãos tratados por tanto tempo – que é ver as pessoas chegarem às vias de fato.
Não é bom que se repita, mas para isto, salutar seria que todos aqueles que detêm alguma parcela de poder pelo povo gentilmente delegado observassem os limites em que se dá a ruptura, tão claramente demonstrados neste democrático, didático acontecimento.
Luiz Leitão, Articulista (Brasil) e-mail:
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