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Escrito por Luiz Carlos Mattos   
Tuesday, 17 May 2005
Uma "tapera" feita com duas varas do mato com as pontas em forquilha, fincadas no chão de terra batida, unidas por uma vara comprida e outras desta até o chão formando uma espécie de tenda coberta por uma lona de plástico, Destas amarelas, usadas pelos sem terra, rasgada aqui e ali. Era tudo menos o que podemos chamar de casa. No máximo um abrigo precário. Seis cães magricelos e sarnentos se coçando no terreiro. Oito gatos andando por cima do que, com muito custo, podemos chamar de mesa e que não passa de um pedaço tosco de madeira lavrada como um tampo, sustentado por quatro paus tirados da capoeira e, feitas da mesma forma, os arremedos de bancos a circundando.

Em cima da tosca mesa alguns gatos comem um resto de macarrão com arroz, tudo cozido junto com nada mais que um pouco de sal, dividindo com as crianças que, entre uma bocada e outra de um dos gatos, enfiam as mãos na panela e de lá sai com um pouco daquela mistura diretamente para a boca.

O que lhes importa é mitigar a fome, fome daquelas que não se mata, no máximo se aplaca.

Jogada numa "tarimba" imunda onde podemos ver os restos do que foi um dia um colchão, coberta por um pano roto, o corpo de uma mulher morta.

Sua cabeça pendendo para fora do catre imundo deixa escorrer pela boca uma baba quase seca, gosmenta e meio esverdeada, como se a bile quisesse, por ali, abandonar, junto com a vida, aquele corpo esquelético e miserável. Trinta e um anos num corpo de sessenta.

Seus quatro filhos, a mais velha com treze anos e a mais nova com seis juntaram-se, sentados no chão de terra batida, debaixo de um arbusto, com o pai.

Fazem parte integrante daquela cena dantesca que revela a verdadeira miséria em que vive o ser humano que teve a má sorte de ter nascido índio nesta reserva, neste pais desumano e de irresponsáveis.

Podemos dizer que estão tristes? Sim. Claro que a morte da mãe e da companheira traz tristeza ao ser humano e, o índio, em razão da miséria e da pobreza em que vive, nos faz duvidar quando o vemos, de que é nosso semelhante, pela rudeza e brutalidade com que a vida o tratou e, pela figura sofrida e desesperançada que vemos à nossa frente que é no que a vida o transformou.

Mas, apesar de tudo, ele é humano, dono de sentimentos e alma, tristeza e sofrimentos. Em algumas ocasiões chega a rir.

Um riso de criança. Ri tão facilmente quanto chora porém seu choro tem mais tristeza que, seu riso, alegria. Seu choro e seu riso retratam sua vida, mais cheia de tristezas que de alegrias.

A cena faz parte de um destes filmes documentários que nos trazem ao alcance dos olhos a Etiópia ou um destes outros paises africanos que vivem em guerras tribais e quem mais sofre é o povo?

Não. A cena é contemporânea, dos dias atuais e foi testemunhada por policiais civis e funcionários da perícia médica além de repórteres policiais e alguns funcionários da Funai e da Funasa e pode ser presenciada na Aldeia Bororó, casa 177, em Dourados, Mato Grosso do Sul, onde morava Lourdes Batista, agora morta, seu marido Isaltino Fernandes e seus filhos, todos filhos da miséria e vítimas da política irracional praticada pela Funai e Funasa com relação aos índios de nossa terra.

Desde o ano passado, precisamente no Dia do Índio, 19 de abril que estamos denunciando a irresponsabilidade com que tem sido tratados os índios de nossa terra, principalmente no que se refere à saúde.

Naquele dia, o índio guarani Acácio, com seu português bruto e quase incompreensível dizia ao Marçal Filho, âncora do "Jornal da 94", da 94 FM de Dourados:

- É "Seu Marçá". A situação "tá pecuária" (queria dizer "está precária").

Acácio estava em nosso programa denunciando o descaso com que ele e sua família estavam sendo tratado pela Funai e pela Funasa em razão de que dois membros de sua família estavam a ponto de morrerem por falta de tratamento médico: sua mulher e sua mãe. Devem ter morrido.

Acácio dizia que o índio era a roça da Funai e ela esqueçe disso deixando-os morrerem à mingua e os "antropólico" (antropólogos no seu português) não vêem.

Terminava sua fala, dizendo com revolta que:

- Índio, só abre a boca quando morre.

Tinha razão o guarani Acácio. Lá estava a índia bororó Lourdes com sua boca escancarada como se dali tivesse saido um grito lancinante o suficiente, terrível o suficiente, alto o suficiente para fazer com que todos se levantem, todos nós e tomemos providências que evitem estas tragédias que não podem nem devem acontecer na Dourados do século XXI, no Brasil do século XXI.

Temos escrito, mostrado, falado, gritado no rádio e nas esquinas, sussurrado nos ouvidos das autoridades, nos indignado, implorado, pedindo, conscientizando, deixando que percebam toda nossa revolta pelas mortes que aconteceram, estão acontecendo e, infelismente, continuarão a acontecer mercê a inércia e a falta de providências por parte do governo.

Não tem adiantado. Não tem surtido efeitos. Gritamos para ouvidos moucos. Mostramos para olhos cegos. Surdos e cegos da pior espécie, daquela que não quer ouvir e nem ver.

Nossa miséria e nossas mortes sairam no "Jornal Nacional" e então o Presidente montou uma comissão inter-ministerial que aqui esteve e, pelo jeito, não foi à reserva e assim não viu a miséria.

Agora chega. Agora chega de mortes e chega de vergonha.

"Presidente Lula,

Ouça o grito da bororó Lourdes que morreu por falta de educação e orientação, de comida e de nutrição, suja, bêbada, doente e sem esperança, morta está, como as outras que ocorreram e as demais que virão, fruto da falta de responsabilidade enfim daqueles que tem a obrigação de impedir a "branquinha" cheia de pinga que todos sabem que é vendida à solta na reserva e ninguém faz nada.

Da maconha e outras drogas que já fazem parte da vida do índio. Da falta de higiene já que não tem ninguém ali para ensinar mães e mulheres de sua importância e de como praticar a higiene.

Da falta d'água potável que é escassa na reserva tendo os índios, todos eles que, de mamando a caducando, beber água poluída dos córregos e nascentes, água poluída por eles mesmos por não terem noção de saneamento básico e que os leva mais rapidamente para a morte.

Presidente, mande os responsáveis pela saúde do índio levantarem os traseiros das poltronas macias de seus gabinetes e virem para perto dos índios cuidar deles e tomar providências para que o vício e a fome não dizimem os índios de nossa terra.

Presidente, levante o seu traseiro também e mostre que neste pais tem quem mande.

Mande. Determine. Obrigue. Demita. Faça como o Figueiredo, prenda e arrebente. Mostre que alguém ainda tem vergonha neste pais. "

Luiz Carlos Mattos é advogado e jornalista em Dourados (MS). Vice Presidente do CID - Clube de Imprensa de Dourados.

Comentarios (1)Add Comment
visite itambe antes que ele se acabe
escrito por itambe, 2007-02-17 15:10:43
Srº presidente nossa cidade esta um lugar onde os bandidos tomaram conta dela naum podemos ter nenhum bem que eles vem e leva tudo um absurdo p/ uma cidade com 40.000 habitantes olha p/ nossa cidade presidente por favor!!!!! por favorrrr!!!!!!

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