Ninguém vai me convencer que a atitude do Juiz Jeová Sardinha Moraes, de Goiânia, foi seguindo as normas estabelecidas na Constituição Federal. Na semana passada, o Juiz expediu uma ação cautelar com pedido de Busca, Apreensão e Cominatório em favor do deputado federal Ronaldo Caiado.
Iniciou ai o recolhimento de todos os exemplares do livro “Na toca dos Leões” de Fernando Moraes.
Caiado se sentiu ofendido com um trecho do livro em que é citado. O livro conta a história da W/Brasil, uma das maiores agências de publicidade do país.
Mas o deputado se incomodou por causa da declaração de Gabriel Zellmeister, um dos sócios da agência, em que ele conta seu encontro com Caiado durante as eleições presidenciais em 89.
É até compreensível a insensatez de Caiado, um grande orador, mas que nunca teve grande habilidade em negociações. Do contrário, se primasse pelas ações articuladas e sensatas, teria transformado a UDR – União Democrática Ruralista – em uma grande força política, no lugar de tê-la caracterizado como núcleo de abastados e desocupados latifundiários.
Hoje a UDR está sendo ressuscitada, mas dificilmente irá conquistar o respeito que teve a oportunidade de conquistar, não fosse pela postura estereotipada de Caiado, um inábil estrategista.
No livro, os sócios da W/Brasil contam que fizeram um comercial para a Vulcabrás em que o garoto-propaganda era Paulo Maluf (na época também candidato a presidência).
Logo depois disso, alguns jornalistas perguntaram a Washington Olivetto (outro sócio da agência) se ele toparia repetir o anúncio com outros candidatos a Presidência. Olivetto respondeu que só não daria para fazer com Ronaldo Caiado, porque a Vulcabrás não fabricava Botinas. Uma brincadeira com a imagem de Caiado, criada por ele mesmo, é bem verdade.
Os sócios da W/Brasil contaram que Ronaldo os procurou na tentativa de contratá-los durante a campanha presidencial e que chegou na agência “acompanhado de uma dúzia de agroboys”, uma forma pejorativa de tratar os produtores rurais.
Não li a “Cartilha do Politicamente Correto”, mas deveria inserir nela a palavra agroboy e substituí-la por “agro-descendentes”.
A verdade é que essa imagem do produtor rural está sempre sendo confirmada pela mídia e consentida por eles próprios.
Hoje, a novela América da rede Globo, caracteriza o produtor rural como explorador, esperto para os negócios, mas de frágil caráter, casado com uma mulher fútil e consumista. Apesar de não ser do meio, conheço a luta desse povo com a lavoura e sei que isso não é verdade.
Voltando ao comentário da discórdia Gabriel Zellmeister disse:
“O cara era muito louco. Contou que era médico e tinha a solução para o maior problema do país, "a superpopulação dos estratos sociais inferiores, os nordestinos". Segundo seu plano, esse problema desapareceria com a adição a água potável de um remédio que esterilizava as mulheres...".
Não acho remota a veracidade do episódio, afinal, essa era a imagem que Caiado sempre passou. Pode ter sido uma brincadeira, de mau gosto, mas uma brincadeira. Mas, mais estúpida que a tal formula, foi a reação do deputado.
Ele simplesmente despertou o mundo para um episódio que poderia ser transformado em folclore político. Mas, como eu disse, Ronaldo Caiado nunca foi um estrategista eficiente.
Deixando o erro estratégico do deputado de lado, o que o Brasil não pode admitir é a decisão opressora e inibidora do Juiz. Descabida e claramente uma interpretação equivocada e confusa entre o que é prejuízo moral, do reclamante, com censura a um princípio básico da democracia que é o direito de se expressar.
Além da violência de recolher os livros, ao inserir no processo o “Cominatório”, o Juiz cerceia o direito que Fernando Moraes, Gabriel Zellmeister e a editora Planeta têm de se pronunciarem a respeito. Decisão louvadamente desobedecida por Fernando Moraes.
Ditaduras não iniciam de uma hora para outra, existem sinais sintomáticos que precisam ser observados.
A preservação do estado de direito, da imprensa livre e do direito de expressão, devem ser vorazmente defendidos por nós em nome da consolidação da democracia, que nos últimos anos, tem sido colocada a prova a todo instante, mesmo que de forma camuflada.
Que a Toga saiba que a imprensa livre e pensante jamais acatará atos dessa natureza.
Adriana Vandoni Curvo, é economista, especialista em Administração Pública pela FGV/RJ. Articulista do Jornal A Gazeta de Mato Grosso, escreve neste espaço as quartas-feiras e domingos. E-mail:
Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
Blog: http://argumento.bigblogger.com.br
|
Este é um sinal que a libertade está sendo ameaçada por pessoas que fazem parte das instituições e que deveriam ser afastadas logo.
Giuseppe