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A Coisa Tá Preta, Anão Barbeiro! PDF Imprimir E-mail
Escrito por Fritz Utzeri   
Tuesday, 10 May 2005
“Oi crioulo,

Tô escrevendo esta pra dizer que aqui a coisa ficou preta. Imagine você que o Governo faz baianada em cima de baianada e a gente vai levando e se conformando, porque está careca de saber que os políticos são todos farinha do mesmo saco. É que esses baitolas acham que nós temos cara de palhaço. 

Como governantes, temos verdadeiros anões morais, todos filhos de mulheres de vida fácil e ladrões, alguns posando de comunistas, outros de xiitas, mas no fundo são todos uns veados.

Alguns ministros são tão ruins que dirigem seus ministérios como mulheres ao volante: são uns verdadeiros barbeiros. Severino, o mais notório cabeça-chata do pedaço, detesta homossexualismo, aidéticos, giletes e sapatões, mas transformou boa parte de sua família em funcionários públicos, sabe como é?

Adora beatas, mas quando morrer vai direto para o inferno junto com todas as ovelhas negras, menos as de alma branca, que essas têm lugar garantido no céu. 

Um abraço.” 

Bom, a carta acima já deve dar uns dez anos de cadeia se o Governo do neoPT cismar de mexer com a língua e transformar a Secretaria de Direitos Humanos no Ministério da Verdade — ou “Miniver” — e conseguir emplacar a sua cartilha de 96 palavras e expressões politicamente incorretas que devem ser evitadas pelos brasileiros.

A cartilha, uma dessas irrelevâncias com jeitão autoritário que caracterizam o atual Governo, foi elaborada, sob encomenda, por um professor universitário de Brasília. 

Como exemplo de absurdo, ela desaconselha o uso da palavra “barbeiro” para designar motorista inábil que dirige de um lado pro outro, pois isso poderia ofender a categoria dos barbeiros (coisa de sindicalista).

Então, como vamos chamar o motorista que nos dá uma fechada? “Barbeiro” é gentileza; a maioria chama mesmo é de “f.d.p”! 

E aí piora, pois as ofendidas serão as mães. Eu não sei como surgiu a expressão “barbeiro”, mas se prestarmos atenção à maneira como o barbeiro corta cabelo, de modo aleatório, aparentemente desordenado, indo de um lado para outro, talvez a expressão faça sentido.

E, além disso, não conheço um só barbeiro que se sinta ofendido nem pela palavra nem pelo gesto de passar a mão ao largo da cara que se faz para reclamar da barbeiragem.

Há quem mostre a mão com todos os dedos recolhidos menos o médio, o que me parece sensivelmente mais grosseiro. 

Houve uma época em que os homens usavam barba e a aparavam ou cortavam no barbeiro. Hoje a maioria esmagadora dos homens vai ao salão para cortar cabelos.

Barba e bigode ficaram no caminho, a não ser que algum talibã nos imponha de ficarmos parecidos com Luiz Inácio. 

“A coisa ficou preta” é outra expressão que os politicamente corretos detestam — e que está na cartilha do “Miniver”. O problema é que, quando se fala em coisa preta ou em nuvens negras, não se está necessariamente sendo racista.

As nuvens de tempestade são negras mesmo e isso é um fato, como a noite é negra e os gatos negros são associados ao azar, isto desde a Antiguidade, quando o negro ainda não era comum na Europa.

Quase todas as referências a negro ou preto associadas a tempo referem-se mais ao medo, ao desconhecido e à ansiedade provocados ancestralmente pelo escuro e não por algum “negão”. 

O preto é usado como sinal de luto e tristeza entre nós, ocidentais, por motivos culturais, sempre associados ao temor da noite e que antecedem o nosso conhecimento do homem negro.

No Oriente, a cor do luto é o branco, que nem por isso é visto como algum forma de racismo antibranco.

Expressões como “denegrir” e “judiar” têm origem associada a preconceito, mas já foram tão usadas pela língua que perderam completamente o sentido original. Já “ovelha negra”...
 
Mas convenhamos que, se fôssemos levar na ponta da faca toda a etimologia, o empobrecimento lingüístico seria terrível. Vamos proibir boa parte dos melhores sambas da música brasileira que poderiam ser facilmente qualificados como racistas, sexistas, antigays (será que se pode dizer isso)? Podíamos começar por “Teu cabelo não nega”, do velho Lamartine. 

E gilete? Troque por bissexual. Veado é entendido, entendido em quê? E aidético? É igual a leproso (aaaaarggghhhh!). Não se pode dizer aidético.

O politicamente correto manda dizer “soropositivo”. Ora, qualquer um de nós pode ser soropositivo para dezenas de doenças ou não doenças e não necessariamente a Aids. Morfético, então, é caso de fuzilamento imediato. 

É claro que os doentes têm direito a respeito, mas o respeito não deve limitar-se a tratá-los como hansenianos.

Fica difícil dizer que Cristo curou hansenianos ou que São Francisco tinha mania de abraçar e beijar hansenianos, ou portadores do mal de Hansen (epa!), já que o Hansen — que descobriu o bacilo da lepra — estava ainda muito, mas muito longe de nascer... 

Preferia que a gente continuasse politicamente incorreta no vocabulário e combatesse melhor a doença. O

Brasil é o segundo país do mundo com maior número de lep... hansenianos. Só perde para a Índia e, proporcionalmente, tem mais doentes. Esta é a verdadeira falta de respeito ao ser humano. 

Chamar cego de “deficiente visual”, surdo de “deficiente auditivo” ou anão de “verticalmente prejudicado” (é isso?) é burro, redutor, empobrecedor e — acho — ofensivo.

Não me incomodaria de ser chamado de cego ou surdo, mas por que o “deficiente”? Deficiente visual sou eu, que tenho miopia, o cego simplesmente não enxerga. 

“Baixinho”, “careca”, “gordo” não constituem necessariamente ofensas, a não ser quando complementadas, como em “gordinho safado”, “careca desgraçado” ou “baixinho veado”. São ofensas que revelam preconceito mas, e daí? É a mesma situação que indignou o jogador Grafite (epa! Esse apelido não é racista?

Bom, e o que diria um atleta albino, alto e magro que recebesse o apelido de Giz?). Só ficou ruim porque o “negro” veio acompanhado de “safado” ou algo assim.

E se o argentino simplesmente xingasse a mãe do crioulo? Xingar a mãe pode? Não é sexismo? E se a essa senhora (como ocorre às genitoras dos juízes de futebol) for atribuída a profissão mais antiga do mundo? Difamação no mínimo com muitos anos de cadeia. 

O que é ofensa tem tom e circunstância. O racismo, também.

Dizer que vivemos tempos negros não tem nada a ver com ofensas racistas nem com as bobagens do politicamente correto que chama negro de “afro-descendente”.

Não tenho uma só gota de sangue negro por parte de pai (de mãe, sendo ela italiana e descendente de sardos, não posso garantir nada, no mínimo um sarraceno — pode-se dizer assim? — deve haver na família), mas por parte de pai eu sou afro-descendente de primeira geração, ou seja, mais próximo da África do que a maioria dos negros brasileiros.

Explico. O velho Fritz nasceu na Namíbia, que era território colonial alemão no século XIX. Toda a família era alemã e, se dependesse deles, a mulata (hum... aí temos um terreno imenso para sexismo, racismo etc. etc., um verdadeiro Código Penal) não existiria. Sem imaginação, esses alemães... 

E por falar nisso, o que dizer de “alemão cascudo, carrapato barrigudo”? 

 

ABI

Comentarios (1)Add Comment
Fritz!!!
escrito por Marcy, 2005-05-14 14:50:00
Sensacional.
Adorei o texto. Tb achei absurda a idéia dessa cartilha. Acho que só seus elaboradores concordam com isso.
É praticamente uma intervenção na cultura. Daqui a pouco seremos vigiados. Só poderemos falar o que é aprovado por lei.
Que nem você disse.... Se fosse gasta toda essa energia em outras áreas que o Brasil precisa tanto.........

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