Embora persista a idéia de que o Brasil é uma “democracia racial”, professores apontam as dificuldades ainda enfrentadas pelos negros brasileiros para firmar a sua identidade
Brasil não é um país racista.
Essa é a conclusão a que pode chegar qualquer pessoa que tenha assistido a jornais nas últimas semanas e viu o caso do jogador argentino Leandro Desábato, preso após uma partida em que ofendeu com palavras de cunho racista o jogador são-paulino Grafite.
Mais do que isso, pode até inferir uma luta implacável ao preconceito. O Brasil é visto como o país da “democracia racial”, um lugar em que as diferentes raças convivem bem, sem que haja grandes problemas com a discriminação.
Mas existem ressalvas: num momento em que ações afirmativas para diminuir os efeitos do preconceito são tão discutidas e o ministro da Educação, Tarso Genro, insere nas fichas de matrícula escolar a obrigatoriedade da classificação racial, como se pode considerar o Brasil uma nação em que há harmonia racial?

"A idéia de que neste país o preconceito nas relações inter-raciais é quase inexistente vem de longe", diz o professor Antônio Sérgio Alfredo Guimarães, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
“Vem desde a época da escravidão. Tanto os abolicionistas americanos quanto os escravistas brasileiros acreditavam que aqui a escravidão era mais branda”, explica.
Segundo o professor, esse pensamento foi defendido por muitos anos por ser interessante para alguns setores da sociedade, como para os escravagistas, que refutavam a abolição porque a escravidão no Brasil “não era tão dura” como nos Estados Unidos.
Durante o final do século 19 e início do século 20, a política de branqueamento promovida pelo governo por meio do estímulo à imigração européia ajudou para que mesmo depois da abolição da escravatura os negros não fossem absorvidos pela sociedade.
“Através dos anos, a sociedade brasileira construiu uma individualidade baseada no ideal branco. Apesar de grande parte de nossa população ser miscigenada, o ideal é branco. O negro é considerado feio, pouco desenvolvido”, analisa Guimarães.
Devido à nossa história de miscigenação, o preconceito brasileiro não se dá pela ascendência, pela origem, mas pela tonalidade da pele. “A pessoa é vítima de preconceito não porque ela tem um avô que é negro, mas porque ela tem traços negróides.
Se tem esses traços, ela é classificada como tal e sofre todas as conseqüências dessa classificação”, afirma o professor João Baptista Borges Pereira, responsável pela Comissão Permanente de Políticas Públicas para a População Negra da USP.
Referências

A falta de referências é o maior problema do negro brasileiro, segundo a professora Rosângela Malachias, do Grupo de Mídia e Etnia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
“A construção da individualidade é pautada na tonalidade de pele. No sistema educacional brasileiro não se têm modelos positivos de pessoas negras. Só a partir dos anos de 1980 é que a história dos negros começou a ser trabalhada nas escolas. Na televisão, o rei da África é branco: o Tarzan. Os negros aparecem em novelas como uma família desestruturada, em que o pai é ex-penitenciário e bate na mãe e a filha adolescente tem filhos de pais diferentes. Sem referências positivas, qual a possibilidade de construir uma identidade negra positiva?”, questiona Rosângela.
A professora ressalta a falta de pares dentro da Universidade. “Aqui na USP os professores brancos não percebem que não têm colegas negros, mas o aluno que chega ao doutorado sem nunca ter tido um só professor negro, uma pessoa com quem se identificar, percebe isso muito bem.”
Não encontrando uma imagem em quem se espelhar, e acreditando que quanto mais clara a tonalidade de sua pele melhor será tratado, o afrodescendente infringe suas próprias características e nega qualquer proximidade com os negros: “Se você é branca mas tem o cabelo crespo, é levada a fazer escova diariamente, porque o cabelo do negro é considerado cabelo ruim”, exemplifica Rosângela.
Essas sutilezas do preconceito são deixadas de lado quando é retomada a idéia de harmonia racial e, nesse espírito de boa vizinhança, algumas palavras ofensivas são soltas sem que seja considerado o caráter pejorativo nelas existentes.
Rosângela conta que é comum andar na rua e ser chamada de “macaca” sem que tenha feito qualquer coisa, e as pessoas que a agridem consideram isso normal. “O Brasil sofre de uma esquizofrenia racial”, define a professora.
Casos como o do jogador do futebol Grafite, em que há punição do ofensor, ainda não são freqüentes. O professor Antônio Sérgio Guimarães acredita que isso seja causado pela rigidez da lei brasileira, em que o preconceito é criminalizado.
“O problema de a lei ser muito dura é que ela não é cumprida. Se fosse uma lei que doesse no bolso, ela seria mais eficiente, pois seria aplicada mais vezes”, pondera o professor.
jorusp/usponline
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