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Escrito por Vera Silva   
Wednesday, 04 May 2005
Ultimamente, na imprensa, vemos desfilar coisas como denúncias de prevaricação contra dirigentes e políticos, invasões de terras, crimes contra a vida e o patrimônio, exposição da sexualidade, exposição de doenças estranhas, exposição da miséria.

Digo desfilar porque tal é a proporção deste tipo de notícia, em relação ao noticiário geral, que nos dá a impressão de um desfile, como aqueles que fazem os circos nas pequenas cidades, para avisar à população que o espetáculo vai começar.

Este constante e intenso desfilar de "horrores" faz-me pensar no direito à liberdade. Vejo o desfile dividido em três tipos:

  • os "horrores" da elite - são as chamadas prevaricações dos dirigentes e políticos;
  • os "horrores" do povo - são as invasões de terras, os crimes contra a vida e o patrimônio, a exposição de doenças estranhas e a exposição da miséria; 
  • os "horrores" da classe média - exposição da sexualidade.

Ora, um quadro que assim se divide mostra, no meu entender, três preconceitos que avançam contra a liberdade de ser único, enquanto parte do coletivo.

Estes preconceitos são:

  • somente a elite pode dirigir o povo, então, somente ela pode prevaricar;
  • como o povo é uma massa infantil, então, somente ele pode desrespeitar as leis coletivas e sofrer de problemas tão estranhos, sem saber como resolvê-los;
  • como a classe média, incluamos neste grupo os artistas, sabe de tudo, já que é intelectual, somente ela poderia ser sexualmente tão pública, a ponto de nos contar como ser feliz fazendo sexo.

Por que afirmamos que estes preconceitos avançam contra a liberdade? Tenha um pouco mais de paciência para me acompanhar nesta incursão sobre nossa realidade social. Os "horrores" e os preconceitos vêm da forma como estruturamos nossa sociedade. Os princípios são:

Primeiro

Convencionamos que os dirigentes nacionais - presidentes, ministros e senadores - devem ser homens públicos de elite, pois são de famílias tradicionais, ricos, bem educados (isto é, ocupantes das colunas sociais ou das páginas políticas), têm controle sobre suas famílias e seguidores, e que, sobretudo, têm uma imagem e uma linguagem de gente bem-nascida.

Estas imagens nos levam ao pai que representa aquele que é o nosso pai social; que diz o que é certo, que provê nossa sobrevivência; que nos pune, quando erramos; e que, acima de tudo, nos dirige aqui na Terra e nos impede que, por inocência, cortemos nosso caminho rumo à salvação.

Alguém parecido com o ex- presidente Collor ou com ACM. Estes homens ganham a nossa confiança e o nosso voto incondicional. Por isto, quando parecem prevaricar, nós nos indignamos, colocamos o fato nas manchetes dos jornais, esperando que o pai nos explique o que está acontecendo.

Eles sempre o fazem, mostrando como somos apressados em julgar e como nada conhecemos; assim, entendemos nosso erro e tudo acaba em pizza.

Segundo

Decorrente do primeiro princípio, convencionamos que o povo, a grande maioria da nação, é uma criança: uma massa de modelar, feminina e dócil, que é moldada à imagem da elite, com ela se identifica e a ela segue.

O povo não pode dirigir o país, porque não tem instrução; não sabe ganhar dinheiro; é preguiçoso, indolente; não conhece as leis; não sabe fazer acordos; não entende de contratos; tem uma moral duvidosa, não sabe dirigir nem a própria casa nem sua saúde; em resumo, é um seguidor por natureza e, para compensá-lo, dele será o reino dos céus.

Um homem chamado Hitler convenceu meio mundo de que isto era verdade, e, apesar de uma grande guerra haver acontecido, continuamos a viver como se isto fosse verdade.

É claro que, sendo assim, somente o povo pode cometer tantos crimes contra a vida e o patrimônio; viver sempre doente, entulhando os hospitais; multiplicar-se como coelho e viver invadindo terras, como uma horda de bárbaros, sem nenhum respeito à propriedade privada; e, barbaridade das barbaridades, nunca conseguindo viver com o salário que ganha; está sempre desempregado, porque não consegue acompanhar as flutuações do mercado; provoca terríveis déficits na previdência social, porque não entende que é preciso fazer poupança.

Só mesmo Deus, em sua infinita bondade, pode amá-los e dar-lhes seu reino.

Terceiro

Quem iria comandar para a elite estas crianças, que chamamos de povo? Somente a mãe poderia ensinar ao povo as regras do pai. Somente ela poderia ser a intermediária entre a elite e o povo.

Assim surgiu a classe média: é estudiosa, disciplinada; sabe fazer poupança; conhece o sistema político; é trabalhadora, respeita a propriedade privada; controla sua reprodução; respeita as leis e ocupa os cargos dos escalões intermediários com eficiência.

Mas qual seria a sua recompensa por tão espinhosa tarefa de tanger a massa? Ela não está apta a dirigir, não pode ficar rica, não é bem nascida, mas, tem vocação para liderar.

Caso não seja vigiada, poderá querer tomar o poder, qual uma feminista desvairada. A solução é o prazer: dar-lhe o acesso ao prazer. Foi isto que fez a elite: deu-lhe a mídia para expor sua grande vantagem sobre o povo - é adulta.

A classe média tem prazer com a lei do pai; ela goza, ensina como gozar e mostra seu gozo; expõe sua sexualidade como seu "locus" de poder.

Estamos começando a matar a charada de nossa realidade político-social: o circo dos horrores é montado como uma segunda versão, melhor dirigida e "marqueteada", do velho pão-e-circo.

De repente, foi descoberto que a TV estava sendo mal aproveitada: ela não pode ser desperdiçada como instrumento de cultura - para que o povo quer cultura?

Ela é antes um grande instrumento de controle do circo da vida e auxiliar da classe média na sua tarefa de tanger o povo.

Por certo, Hitler adoraria ter este instrumento nas mãos; com ele não teria havido guerra, ou, se houvesse ele não a teria perdido! Se o leitor pensar que estou dizendo que o circo dos horrores é uma forma nazista de controle, pensou corretamente.

É o que se pode ver neste interminável desfile!

Vera Silva, é Psicóloga

 

observatoriodaimprensa

Comentarios (4)Add Comment
Aline B. de lima
escrito por Visitante, 2005-06-05 18:47:15
Olá vera, tudo bem?
Parabéns por me esclarecer o que é "carnaval, pão e circo".
Tenho que apresentar um seminario na faculdade sobre esse tema.
Se você tiver alguma dica me mande um
e-mail Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
Desde já obrigada.
Alin*
Estratgias de Manipula駣o
escrito por Visitante, 2005-06-21 11:51:50
Estratégias e "técnicas" para a manipulação da opinião pública e da sociedade, por Sylvain Timsit.

1- A estratégia da diversão
Elemento primordial do controle social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e da mutações decididas pelas elites políticas e econômicas, graças a um dilúvio contínuo de distrações e informações insignificantes.

A estratégia da diversão é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais, nos domínios da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.

"Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais" (extraído de "Armas silenciosas para guerras tranqüilas" )

2- Criar problemas, depois oferecer soluções
Este método também é denominado "problema-reação-solução". Primeiro cria-se um problema, uma "situação" destinada a suscitar uma certa reação do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja faze-lo aceitar. Exemplo: deixar desenvolver-se a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público passe a reivindicar leis securitárias em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise econômica para fazer como um mal necessário o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos.

3- A estratégia do esbatimento
Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplica-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Foi deste modo que condições sócio-econômicas radicalmente novas foram impostas durante os anos 1980 e 1990. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas brutalmente.

4- A estratégia do deferimento
Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresenta-la como "dolorosa mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. É sempre mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque a dor não será sofrida de repente. A seguir, porque o público tem sempre a tendência de esperar ingenuamente que "tudo irá melhor amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Finalmente, porque isto dá tempo ao público para se habituar à idéia da mudança e aceita-la com resignação quando chegar o momento.

Exemplo recente: a passagem ao Euro e a perda da soberania monetária e econômica foram aceites pelos países europeus em 1994-95 para uma aplicação em 2001. Outro exemplo: os acordos multilaterais do FTAA (Free Trade Agreement of the Americas) que os EUA impuseram em 2001 aos países do continente americano ainda reticentes, concedendo uma aplicação diferida para 2005.

5- Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas
A maior parte das publicidades destinadas ao grande público utilizam um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, muitas vezes próximos do debilitante, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. Exemplo típico: a campanha da TV francesa pela passagem ao Euro ("os dias euro"). Quanto mais se procura enganar o espectador, mais se adota um tom infantilizante. Por que?

"Se se dirige a uma pessoa como ela tivesse 12 anos de idade, então, devido à sugestibilidade, ela terá, com uma certa probabilidade, uma resposta ou uma reação tão destituída de sentido crítico como aquela de uma pessoa de 12 anos". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranqüilas" )

6- Apelar antes ao emocional do que à reflexão
Apelar ao emocional é uma técnica clássica para curtocircuitar a análise racional e, portanto, o sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar idéias, desejos, medos, pulsões ou comportamentos...

7- Manter o público na ignorância e no disparate
Atuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão.
"A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser da espécie mais pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível pelas classes inferiores". (cf. "Armas silenciosas para guerra tranqüilas" )

8- Encorajar o público a comprazer-se na mediocridade
Encorajar o público a considerar "legal" o fato de ser idiota, vulgar e inculto...

9- Substituir a revolta pela culpabilidade
Fazer crer ao indivíduo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto-desvaloriza e auto-culpabiliza, o que engendra um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da ação. E sem ação, não há revolução!...

10- Conhecer os indivíduos melhor do que eles se conhecem a si próprios
No decurso dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência cavaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dirigentes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto física como psicologicamente. O sistema chegou a conhecer melhor o indivíduo médio do que este se conhece a si próprio. Isto significa que na maioria dos casos o sistema detém um maior controle e um maior poder sobre os indivíduos do que os próprios indivíduos.

O artigo original encontra-se em http://perso.wanadoo.fr/metasy...ations.htm
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escrito por Visitante, 2005-07-02 12:47:19
Oi Vera é que tenho que fazer um trabalho falando da crise no Brasil atual e ñ to conseguindo fazer, poriço estou te pedindo algumas dicas se você poder mim ajudar...
Beijos
Pão e Peixe.
escrito por Everton Gerson Saboia, 2007-02-18 02:05:20
Parabéns pelo seu texto : Circo de Horror .
Gostaria de saber qual foi a origem certa do termo pão e peixe.

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