O Alvo da luta está errado. Os representantes da sociedade estão agindo como guardiões equivocados da boa conduta, confundindo exigência moral com urgência política. O nepotismo por si só não representa a única ameaça à democracia do Brasil. O que deveriam combater é o clientelismo instalado em todas as esferas de poder.
O Brasil vive um período de entressafra de heróis nacionais. Na carência de ícones ou de ideologias para lutar, o mundo político e a grande imprensa passaram a cultuar factóides como se esses fossem a causa dos nossos problemas.
É cômico ver os políticos, com um pudor recém-adquirido à granel em um mercadinho da esquina, encontrarem o "inimigo comum" para ser satanizado. A bola da vez é o nepotismo.
Não o nepotismo em seu sentido pejorativo e condenável, de empreguismo desmedido e desavergonhado, mas a simples contratação de parentes. De uma hora para outra, os parentes, independente de capacidade, competência ou conhecimento, passaram a ser os responsáveis pela ineficiência e gasto excessivos da máquina pública.
Essa "bandeira" conseguiu convergir forças de todos os partidos e da sociedade, afinal, quem tem coragem de se declarar a favor da contratação de parentes? E a opinião pública? Esta, coitada, mais uma vez está sendo levada a confundir exigência moral com urgência política.
Essa caça às bruxas está parecendo mais uma manobra com objetivo que, suspeito, nasceu da urgência política de ofuscar a notoriedade do inesperado Severino Cavalcanti, pois a sua simploriedade e tolice competem com a do presidente. E isso pode significar uma ameaça para alguns.
Há semanas estão desfilando pela mídia políticos, representantes de ONGs, acadêmicos e todos os "politicamente corretos", execrando publicamente a contratação de parentes, independente de competência ou não. Muitos dos "caçadores de parentes alheios" já fizeram o mesmo, quando não são, eles próprios, crias de antigos nepotistas.
Mas não se importam, afinal de contas, a noção de moral já se fundiu com opinião pública. Para esses, a moralidade é discernida através de pesquisas qualitativas, não através de princípios ou ideologias.
Desses até se pode entender essa tentativa de emergir no país uma "comoção nacional" contra a contratação de parentes. O que é inaceitável e chega a ser mais cínico, é a OAB iniciar uma inquisição a "parentes de parentes".
Seriam todos cegos ou ingênuos que não sabiam que essa prática existe no Brasil desde o seu descobrimento? Teriam eles tomado conhecimento só agora, através da imprensa, ou estão sendo movidos pela urgência política?
Deixa-nos aberto o caminho para duvidar se a Ordem dos Advogados do Brasil segue a finalidade que lhe é atribuída na Lei nº 8.906, Título II, Capítulo I, Artigo 44, ou se segue as leis dos noticiários.
Estão agindo como guardiões equivocados da boa conduta. Equivocados sim, pois o que devem combater é o empreguismo de incompetentes em troca dos mais variados, banais e muitas vezes obscenos serviços.
O foco da luta está errado, não é a contratação de parentes que é imoral. Imoral é o clientelismo desenfreado que se instalou no Brasil, em todas as esferas de governo, em todos os poderes, seja Executivo, Legislativo e mesmo no Judiciário.
No clientelismo, incompetentes podem ser contratados sem que para isso exista relação de parentesco, apenas e tão somente interesse pessoal ou partidário. No clientelismo as nomeações são em geral por motivos alheios ao interesse público.
O nepotismo por si só não representa a única ameaça à democracia do Brasil, nem pode ser analisado separadamente sem que se leve em conta o desempenho profissional. Portanto, a Ordem dos Advogados do Brasil se esqueceu dos outros "ismos" que deterioram princípios constitucionais e que abrem a guarda para práticas muito mais lesivas à manutenção da democracia do que a simples contratação de parentes.
Guardiões equivocados da boa conduta, o debate deveria ser quanto à necessária exigência de competência, integridade e aptidão para o exercício da função nas contratações, para assim assegurar qualidade na prestação dos serviços públicos.
Do contrário, irão formar uma nova casta de excluídos. Isso é hipocrisia.
O Brasil está vivendo uma era onde se confrontam a ignorância e anti-realismo. Isso pode desembocar em uma histeria puritana ilusória.
Adriana Vandoni Curvo é economista, especialista em administração pública pela FGV/RJ e pós-graduanda em Gerente de Cidades pela Faap. E-mail:
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