Há uma relação inescapável entre a festa dos 40 anos da Rede Globo e a primeira entrevista coletiva do Presidente Lula.
E esta relação se estabelece naquilo que não houve numa nem na outra — o que decalca o quanto TV e Governo comungam hoje das mesmas crenças com relação ao País e seu desenvolvimento social.
De um lado, a Rede Globo, em meio à comédia-pastelão auto-referente que foi o show, sublinha a sua fé em que aquilo que faz é verdadeiramente cultura — e faz questão de vestir seus simulacros com o que ainda supõe que seja “padrão de qualidade”, quando é apenas pastiche e descaracterização (Faustão de terno vermelho, o “urso menstruado”, como ele se definiu; Martinho da Vila de terno, cena inédita em mais de 30 anos de carreira, por aí).
Sem falar de Regina Duarte “cantando” com Ivan Lins e Caetano Veloso deslustrando um pouco mais o seu passado genial, desta vez em dueto com Sandy.
De outro, a imprensa permitindo ao Presidente exercitar o seu conhecido arsenal de metáforas vulgares — sem uma única pergunta que remetesse aos universos da educação e da cultura, ou a mínima curiosidade em saber, afinal, o que aconteceu com o projeto da Ancinav. Foi definitivamente engavetado?
Além desta, diversas outras perguntas poderiam ter quebrado o marasmo da entrevista. Qual é, na opinião do atual Governo, a relação que o Estado deve ter com a mídia? Até que ponto o Planalto é refém dos meios de comunicação?
Como deve ser entendido, pelo povo brasileiro, o velho chiste antiGlobo, “basta de intermediários, Roberto Marinho para Presidente”?
Por que a esquerda brasileira ainda confunde o controle social dos meios eletrônicos, existente em todos os países desenvolvidos, como ameaça de volta da censura?
Deixando a televisão de lado, sem deixar a educação, Lula não foi apertado também com referência às opções do Ministro Tarso Genro.
Não se falou de cota, da reforma universitária, da gestão populista e demagógica da educação fundamental — em que se confundem propositalmente as noções de pobreza e etnia para perpetuar esse modelo de (de)formação que vimos presenciando há anos.
Tudo bem, é importante discutir os juros, mas se perdeu tempo demais com Severino, um tumor no Parlamento brasileiro.
Enfim, um Governo e uma imprensa que se encontram e mantêm a discussão nesse nível acabam por merecer — e justificar — o pastelão dos 40 anos.
Isso me lembra um papo com o Deputado federal Chico Alencar, transcrito no ensaio “Os intelectuais e a mídia”, de março do ano passado, publicado pela revista acadêmica Comum, das Faculdades Integradas Helio Alonso:
“Pessoalmente, não acredito em nenhum programa de governo, de nenhum candidato, se esse programa não considera prioritária a reformulação de todo o sistema de concessão e programação das emissoras de TV. Se o Brasil tem salvação, essa salvação passa por aí. Chegam a ser de aparvalhada ingenuidade as declarações de Secretários e Ministro da Cultura, todos prenhes de projetos, nenhum deles sequer reconhecendo a simples existência da TV.”
Depois disso, li uma entrevista do professor Dênis de Moraes que caminha na mesma direção e completa o meu pensamento:
“Se desejamos assegurar a livre circulação de informações e a diversidade cultural, precisamos insistir no estabelecimento de políticas públicas de comunicação, assentadas em mecanismos democraticamente instituídos de regulação, de concessão, de tributação e de fiscalização.”
Aliás, o mesmo Dênis, ao organizar o indispensável “Por uma outra comunicação” (Record, 2003), incluiu o ensaio “Mídia global, neoliberalismo e imperialismo”, de Robert McChesney, que deixa muito claro serem indissociáveis o pensamento das vanguardas políticas internacionais e a imperiosa necessidade de se mexer nessa caixa de marimbondo chamada mídia eletrônica:
“Os movimentos políticos progressistas e antineoliberais de todo o mundo estão incluindo cada vez mais a questão da mídia em suas plataformas políticas. Desde Suécia, França e Índia até Austrália, Nova Zelândia e Canadá, os partidos democráticos ou de esquerda estão dando à reforma estrutural da mídia — por exemplo, desmembrar as grandes empresas, recuperar o rádio e a TV não comercial e sem fins lucrativos, criar um setor de mídia independente sob controle popular — um papel maior em suas plataformas.
(...) Por toda parte, na esquerda antineoliberal e socialista, há o reconhecimento de que a importância da questão da mídia cresceu radicalmente e nenhum movimento social bem-sucedido pode deixá-la de lado como questão a ser abordada ‘depois da revolução’. A organização da mídia democrática deve fazer parte da luta atual, se queremos ter uma possibilidade viável de sucesso.”
Roberto
M. Moura ( 18/08/47
27/10/05),
carioca, foi jornalista, crítico musical, produtor e diretor de espetáculos,
roteirista e apresentador de programas culturais na Tv Educativa/RJ.
ABI

augustovieira, e-mail:
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São quarenta anos de uma empresa que nasceu na ditadura, com muito de nosso dinheiro (BNDES)
São quarenta anos de apenas uma das grandes empresas de comunicação, de um grupo familiar.
São quarenta anos de uma empresa que já impediu a eleição de um presidente.
São quarenta anos de uma empresa que monopolizou as comunicações no Brasil.
São quarenta anos de uma empresa que já levou muita gente à desgraça.
São quarenta anos de uma empresa que aliena o povo brasileiro com muitas novelas cafonas.
São quarenta anos de uma empresa que afinou para um bispo milionário, chamado Edir Macedo.
São quarenta anos de uma empresa que pouca gente tem coragem de criticar.
Ainda assim, parabéns, Rede Globo, pelas coisas boas que você tem feito.
augustovieira
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