Fala, Brasil! - José Inácio Werneck, Imigrou
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José Inácio Werneck, Imigrou PDF Imprimir E-mail
Escrito por Giulio Sanmartini   
Thursday, 21 April 2005
Em entrevista, o jornalista Werneck, que vive nos EUA desde 1990, fala a outro jornalista Giulio Sanmartini, sobre a sua carreira, dos motivos que o levaram a morar nos Estados Unidos e sobre o seu livro. “Com esperança no coração: os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos”.

 

 

José Inácio Werneck é filho de Niterói, mas de tudo carioca, não havia pensado em ser jornalista e ainda muito jovem foi estudar direito e como advogado, empregou-se na Companhia Siderúrgica Nacional.

 

Entretanto, tornou-se um nome nacional como jornalista esportivo, um ramo da profissão considerado de segunda categoria, apesar de ter tido nomes como Mário Filho, seu irmão Nelson Rodrigues, João Saldanha, Sandro Moreira, Oldemário Toguinhó e ainda continuar tendo Armando Nogueira e ele próprio, que em termos de esportes, é o que se pode considerar eclético.

 

Comenta com a mesma desenvoltura uma partida de futebol, de golfe, uma regata, uma maratona, ou um jogo de baseball, que para nós simples mortais, que vivemos fora dos Estados Unidos ou do Japão, é algo misterioso e estranho.

 

Hoje ele mora em Bristol (Conecticut EU) e há poucos dias tornou-se escritor, publicando um livro que, pasmem, não é de esportes, trata da grande onda imigratória de brasileiros para os Estados Unidos – COM ESPERANÇA NO CORAÇÃO: OS IMIGRANTES BRASILEIROS NOS ESTADOS UNIDOS.

Foi-me concedido o privilégio de ler os originais do livro antes mesmo que o editor e agora, estou tendo também o privilégio de entrevistar em caráter exclusivo para Argumento o “Zé Inácio”.

Como foi seu início no jornalismo?

José Inácio: Meu início no jornalismo foi como repórter setorista do Fluminense, que ficava perto de minha casa, em Laranjeiras, na época em que Zezé Moreira - de quem fiquei muito amigo, até sua morte, com mais de 90 anos - era técnico. Mas logo comecei a trabalhar também em copidesque, reescrevendo as matérias de outros repórteres. Trabalhei no Caderno de Automóveis e no Caderno B, onde acharam muito boa uma matéria de primeira página que fiz sobre o Fio Maravilha. O editor, Paulo Afonso Grisolli, queria que eu assinasse, o que não fiz, nem sei porque. Mandei também algumas matérias de Londres, quando estive trabalhando na BBC e fui copidesque da geral.

 

Você não me disse, em que jornal começou e porque começou, já que era advogado? Ao que eu me lembre Fio, fez seu jogo de estréia em 1° de maio de 1968 contra o Vasco, quando o Flamengo venceu de 2x1, o Vasco saiu na frente com gol de Ney, O Garoto Bossa Nova, depois o Flamengo empatou com gol de falta do zagueiro Onça e finalmente venceu com gol do também estreante Dionísio. Mas Fio só tornou-se Maravilha depois da música do ainda Jorge Ben, que é de 1972. Acredito que antes disso você era já colunista, estarei errado? Me explica melhor a coisa.

 

José Inácio: Em 1972 eu fazia uma página de futebol internacional no JB, aos domingos, e como tal assinava uma coluna, mas o colunista principal era o Armando Nogueira. Eu também trabalhava no Caderno B. A matéria sobre o Fio Maravilha deve ter sido em 72-73, mais provavelmente em 1973. Foi a propósito de uma partida (um Fla-Flu, creio) em que o Fio Maravilha deu a vitória ao Flamengo. A matéria certamente pode ser encontrada ainda hoje no Caderno B - era uma matéria de página inteira, primeira página. Infelizmente, não será possível localizar por minha assinatura, pois, contrariando o que queria o Grisolli, não a assinei. Eu começara no JB, meu primeiro jornal, dez anos antes, pelas mãos do Carlos Lemos, que fora meu colega de Faculdade de Direito. É um assunto que vai contado no livro, no capítulo “A Salvo dos Cupins”. Ali conto também sobre minha formatura na Faculdade de Direito, com Aliomar Baleeiro e Afonso Arinos, entre outras sumidades, como meus professores. Eu sempre achei a advocacia enfadonha e cito até uma frase de Carlos Lacerda a respeito: ''a advocacia é uma profissão estranha, pois nela as causas que me interessam não dão dinheiro e as causas que dão dinheiro não me interessam".

 

Essa sua menção a Carlos Lacerda, me fez lembrar que ele jamais fez um curso superior, pretendia ser advogado, mas antes aceitou uma causa como rábula, a única, mas esta o fez perceber que a profissão não valia a pena. Acompanhei muito tua carreira de jornalista, seja nos jornais, seja na televisão, mas de repente você sumiu, soube que tinha se mudado para os Estados Unidos. Você era um jornalista de sucesso, o que o fez emigrar?

José Inácio: É bondade sua falar em sucesso. Eu emigrei basicamente porque estava empobrecendo. Tinha deixado meu emprego de advogado na Companhia Siderúrgica Nacional por acreditar no projeto da revista VIVA, do Jornal do Brasil. Mas aí caí no meio de uma briga de foice no escuro, pois havia muita intriga interna na casa e eu não sabia. Além do mais, o mercado brasileiro para este tipo de revista (maratonas, atletismo, triathlons) era pequeno. E, depois da Copa do Mundo de 1990, isto é, depois do louco Fernando Collor ter assumido o poder e congelado os depósitos bancários - na verdade, um confisco do dinheiro dos cidadãos - resolvi que o melhor era tentar a vida lá fora. Fui talvez um dos emigrantes mais velhos do mundo, pois já estava com 53 anos. Mas deu certo.

Claro que não foi bondade citar seu sucesso como jornalista. Nos anos 1970 eu trabalhava numa grande firma, todas as segundas-feiras tínhamos reunião, devíamos ser uns 15, enquanto esperávamos o diretor chegar, é claro que conversávamos de futebol, todavia qualquer discussão cessava, com o argumento: - Mas José Inácio Werneck disse... – não havia contestação. Depois de seu desaparecimento, fui te encontrar, durante a Copa de 2002 de volta ao Jornal do Brasil, logo depois na Gazeta Esportiva e no Jornal dos Sports. Como e por que se deu esse retorno?

José Inácio: Foi na ordem inversa. Eu comecei primeiro no Jornal dos Sports, quando o Luís Augusto Veloso era diretor e continuei com o Washington Rope como editor-chefe, depois que o JS foi vendido. Aí, como conheço o Júlio Deodoro da Gazeta Esportiva desde minha época de corridas (ele organizava a São Silvestre), acabei convidado para escrever lá também. Quanto ao Jornal do Brasil, foi uma sugestão do Moacir Japiassu, amigo do editor-chefe Augusto Nunes, que o Augusto Nunes aceitou, pois também me conhecia. Lamentavelmente, por motivos que ignoro, o Augusto Nunes se omitiu no episódio de minha demissão. Sei apenas que ele disse ao Japiassu que ela era política, mas ele ia resolver "o pequeno problema". E, ao que eu saiba, nunca mais deu notícias.

Quais foram os motivos de sua primeira saída do Jornal do Brasil, pois acima não estão bem claros?

 

José Inácio: Minha primeira demissão do Jornal do Brasil foi em conseqüência das intrigas internas, por causa da Maratona. Alguns marqueteiros do JB achavam que entendiam mais do assunto do que eu, me chutaram para escanteio e afundaram a prova, que deixou de existir. Eu formei então uma empresa que fez uma Maratona pelo jornal O Dia, debaixo de grande fogo cerrado do prefeito da cidade, o Saturnino (Saturnino Braga, na época prefeito do Rio, ne.), que, por motivos políticos, ficara com o Jornal do Brasil. E o Jornal do Brasil me demitiu do cargo como jornalista. Àquela altura, a revista VIVA havia fechado. Fui para o Jornal dos Sports e, com todos os cataclismos do governo Collor, resolvi emigrar.

O Brasil há poucas décadas tornou-se um país expulsar, muitos sonham em ir tentar a sorte nos Estados Unidos. Depois dessa sua experiência, tendo contatos para escrever “Com esperança no Coração:”, qual o conselho que você dá aos que querem emigrar para os Estados Unidos?

José Inácio: Meu primeiro e óbvio conselho é aprender inglês antes de viajar. Os brasileiros mais humildes em geral chegam aqui sem falar uma palavra de inglês, acabam se aproximando da comunidade hispânica e aprendem o espanhol. Mas viram uma espécie de subdivisão de uma subdivisão. Seria melhor talvez irem para Portugal, Espanha e até Itália, cuja língua também é bem mais fácil para eles. Devem evitar entrar pelo deserto na fronteira com o México, onde alguns já têm morrido. Uma vez no país, devem socorrer-se abundantemente dos consulados brasileiros, centros de imigrantes, instituições religiosas e os jornais brasileiros locais. Há também um site na internet chamado http://www.braziliansociety.org  Estou falando, é claro, dos brasileiros mais humildes e desamparados. Os demais vêm em geral com emprego garantido e, muitas vezes, o tão ambicionado green card - o direito de residência no país. Mas é indispensável que o imigrante brasileiro tenha consciência de seu valor e repila qualquer insinuação de que está tirando um emprego de um americano, pois não está. A presença de imigrantes é fundamental para o funcionamento da economia americana e até para o país manter uma taxa de natalidade positiva, ao contrário do que já acontece em muitos países europeus. Por fim, um ensinamento importante é o que pode ser encontrado na lição bíblica de Jeremias, quando dizia aos judeus em cativeiro na Babilônia: sejam bons cidadãos da pátria em que vocês se encontram, tenham filhos, construam casas, plantem árvores, prosperem. Talvez um dia vocês voltem para sua terra, talvez não, mas procurem ser um instrumento de crescimento em sua nova comunidade.

Num outro momento é o jornalista Giulio Sanmartini, que fala

O fato de ter vivido durante décadas  no Brasil como emigrante, diga-se de passagem muito bem, fez com que imagina-se  ser o país um grande receptor de estrangeiros que buscavam a sorte: portugueses, italianos, espanhóis, sírios, libaneses, alemães etc. Jamais poderia pensar que o Brasil, tendo sido por mais de um século  receptor, passasse um dia a ser expulsor.

Nos inícios dos anos 1980, morei por um período em Franco da Rocha (Grande São Paulo), na cidade existia um grupo de jovens, mais ou menos uns trinta, que tinham ido tentar a sorte na Austrália. Ganharam dinheiro, voltaram e estabeleceram-se por conta própria, uns poucos ficaram por lá. Achei que era um caso isolado, aventura de jovens.

Passados uns três anos, no Rio de Janeiro, conversando com uma cientista da informação empregada na Biblioteca Nacional, esta me disse que não dava mais para viver no Brasil, pretendia ira para Portugal.

Espantei-me e argumentei que se Portugal mandava tantos imigrantes para o Brasil, a situação lá não deveria ser das melhores. Mas aí fique sabendo que já não vinham mais portugueses para Brasil, mas iam brasileiros para Portugal.

Depois veio a grande emigração ilegal, dos mineiros de Governador Valadares para os Estados Unidos e as dificuldades estabelecidas pelos consulados estadunidenses em conceder o visto para a entrada no país aos brasileiros. Todavia não me dava conta do fenômeno que estava acontecendo no Brasil.

A coisa me ficou bem clara em setembro de 2002, quando chegou à Belluno a primeira leva de brasileiros.

Mas estes eram diferentes, não estavam ilegalmente, vinham procurar a cidadania que tinham direito por serem descendentes de italianos, que haviam emigrado para o Brasil.

Chegavam às centenas, nas casas que alugavam, abrigavam-se mais de dez pessoas, muitos encontravam trabalho, outros, assim que obtinham o passaporte italiano, partiam para a Alemanha, Inglaterra, Irlanda e até para a Suiça. Não vinham do Brasil pobre, mas de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Goiás.

Quando tinham dificuldades me procuravam, pelo menos para servir de intérprete, assim também me integrei à essa nova comunidade, podendo entender o motivo pelo qual estavam deixando seu país: falta de esperança no futuro.

Aqui na Itália tinham um salário que lhes permitia mandar dinheiro para o Brasil, sistema de saúde eficiente e gratuito, ensino para os filhos também gratuito, remédios subvencionados, ninguém precisa pagar plano saúde, ou pagar escolas particulares.

As estradas tem excelentes condições, uma eficiente malha ferroviária e a segurança funciona. Portanto chegam à procura de um futuro garantido.

Nesse mesmo 2002, durante a Copa do Mundo de futebol, via e-mail, travei um conhecimento que se transformou em amizade, com o cronista esportivo brasileiro José Inácio Werneck, ele havia emigrado há anos para Estados Unidos.

Inicialmente nossas “conversas” prendiam-se ao esporte, mas foi se ampliando até chegar a questão dos emigrantes brasileiros.

Nesse ponto José Inácio resolveu escrever um livro sobre o assunto, abordando especificamente os brasileiros nos Estados Unidos.

O problema sempre foi tratado pela mídia brasileira com bastante parcimônia, falava-se muito de brasileiros presos por ter entrado ilegalmente no país. Até o senador Hélio Costa (ex Fantástico) empreendeu uma cruzado para assistência dos mineiros detidos.

A Universidade de Harvard entre os dias 18 e 19 desse mês promoveu o Congresso sobre a imigração brasileira nos Estados Unidos, José Inácio Werneck estava entre os palestrantes. O fato foi noticiado pelo O Globo em uma série de reportagens, pecado que José Inácio, seu livro e sua palestra foram ignorados.

São quase um milhão e meio de brasileiros que vivem nos Estados Unidos mandando todos os meses dinheiro para o Brasil, oficialmente são 1,5 bilhões de dólares, mas na realidade chegam a passar do 5 bilhões, uma cifra nada indiferente.

José Inácio Werneck, em sua palestra, diz que entrou em contato com um funcionário do Banco Central que pediu para manter o anonimato, esclarecendo que  “o BC tem somente o que é registrado no Sisabecen-Câmbaio, sistema de informações eletrônicas que o banco dispõe sobre as transações no sistema financeiro nacional”.

“Em outras palavras – conclui Werneck – o Banco Central não sabe, ou não lhe é permitido divulgar quanto dinheiro é enviado ao Brasil, e é fato sabido, que muitos colocam seus dólares nos sapatos ou nas roupas íntimas quando viajam ao seu país”.

Certamente José Inácio foi ignorado por não ser sociólogo, cientista político ou antropólogo. Seu livro “ Com esperança no Coração: os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos”, acredito ter sido o primeiro a enfrentar de forma real o problema, não o faz com uma enjoada forma acadêmica, mas como um trabalho jornalístico, fácil de ler e mais ainda, fácil de entender, por isso talvez a mídia não o tenha levado a sério.

 

argumento
Comentarios (1)Add Comment
Muito bom!
escrito por Visitante, 2005-06-12 06:32:34
Eu comprei meu livro, eu estou adorando, parabns.

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