Dia a dia o povo vem demonstrando sua capacidade de participar das grandes questões nacionais. Poderá o governo sofrer uma grande surpresa?
Uma sombra assusta o Congresso. Seu nome poderia ser desencanto, mas é mais forte: chama-se indignação. No caso, da maioria do eleitorado. Leia-se, da sociedade inteira, com ênfase para a classe média.
Expressivos parlamentares dos mais variados partidos, do PT às oposições, do PMDB ao PPS, temem uma reação popular inusitada, nas eleições de 2006: a abstenção, o voto nulo e o voto em branco, englobados numa tendência única, de repúdio aos políticos e à política.
O raciocínio começa pelo reconhecimento de um vazio de credibilidade. Afinal, o povo votou maciçamente em Lula fiado na promessa de mudanças fundamentais no modelo econômico e social.
Foi a derrocada do neoliberalismo praticado por oito anos por Fernando Henrique Cardoso.
Perda de credibilidade
Passados dois anos e quase quatro meses da posse, qual a realidade? A mesma política econômica, até mais drástica, o fracasso de planos sociais, na medida em que os salários continuam comprimidos e nada existe a acrescentar em termos de obras e infra-estrutura.
Apenas a mesma cantilena de superávit primário para pagar juros das dívidas externa e pública, favorecimento da atividade especulativa em detrimento da atividade produtiva, pífios resultados na reforma agrária, continuidade do aumento da carga fiscal e, last but no least, as acusações de sempre sobre corrupção, nepotismo e congêneres.
A desmoralização do Congresso só não é maior do que a perda de credibilidade no governo, quase paralisado, sem esquecer o Judiciário, que nenhuma reforma parece capaz de torná-lo uma prerrogativa de todos.
Na hipótese de a próxima sucessão transcorrer entre Lula, de um lado, e de um tucano ou um liberal, de outro, o resultado poderá, muito bem, ser a conclusão do eleitorado de que não adiantará trocar seis por meia dúzia.
Que são todos iguais, que não há salvadores da pátria e que faria melhor o cidadão se, não votando ou anulando o voto, demonstrasse seu repúdio ao que acontece.
Importa acentuar que esse temor vem sendo registrado entre deputados e senadores, não por jornalistas, aos quais cabe apenas registrar o que acontece.
Seria bom tomarem cuidado, os poderes da União, porque a prevalência do não-voto sobre o voto costuma ser a ante-sala de crises institucionais.
Dia a dia o povo vem demonstrando sua capacidade de participar das grandes questões nacionais. Ainda agora registra-se a reação nacional contra qualquer aumento de impostos, que Legislativo e Executivo obrigaram-se a respeitar. Espontaneamente, quem garante que não surgirá majoritária a corrente da rejeição ao processo político atual?
Outra vez o referendo
Com um pouco de sorte a Câmara dos Deputados aprovará a realização, em outubro, do referendo a respeito da comercialização de armas. Os obstáculos vêm sendo transpostos.
O problema é que na regulamentação dessa consulta popular direta prevê-se o prazo de 45 dias para que os partidários e os adversários da posse e do porte de armas de fogo freqüentem os microfones, numa verdadeira campanha eleitoral.
Aqui mora o perigo para os defensores da proibição. Diante de tanta violência e intranqüilidade, a pergunta maior a ser feita versará sobre a conveniência de desarmar o cidadão comum, deixando armado e mais tranqüilo o bandido.
Poderá o governo sofrer uma grande surpresa, quando se abrirem as urnas. Transformado em prisioneiro em sua própria casa, o pagador de impostos será capaz de insurgir-se.
Dirão os que defendem a proibição ser atribuição do poder público cuidar dos bandidos, dado o despreparo de possuidores de arma, ainda mais se surpreendidos, como sempre ocorre. As estatísticas demonstram que quando alguém reage a um assalto tem cinco vezes mais chances de ser atingido.
Na tréplica, o argumento é de que se a polícia não dá conta de suas obrigações, prendendo os bandidos, a hipótese que sobra é de cada um se defender como pode. Nada de todo mundo andar na rua armado, mas, apenas, a possibilidade de dissuadir o criminoso, sabendo ele de uma provável reação.
O ideal seria que o referendo não precisasse se realizar, por falta de riscos à integridade de todos nós. No caso, a falta de armas seria uma conseqüência.
Bola de neve
Continua caindo a popularidade de Lula. Passou dos 80 para os 60 pontos, desde a posse. Ainda seria reeleito, mas a vitória no primeiro turno começa a ser contestada.
E se a bola de neve continuar até outubro do ano que vem, estará mais do que certo o vaticínio do chefe da Casa Civil, José Dirceu, de que a reeleição será mais difícil.
O número dos que desaprovam o governo passou de 16% para 29%, outro sinal amarelo aceso no Palácio do Planalto.
tribunadaimprensa
|