Realizar o sonho de conquistar a América pode envolver riscos ou ser feito através de viagem programada
O sonho de crescer na América e buscar lá oportunidades que não encontram aqui. A burocracia para conquistar o visto, o chamado greencard, é grande, um processo longo, cansativo e sem garantias de sucesso.
Não raro é negado e, neste caso, não são poucas as pessoas que tentam atravessar a fronteira entre o México e o Texas clandestinamente, com a ajuda de atravessadores, que providenciam passaportes, documentos e até vistos de trabalho falsos.
Muitos arriscam a própria vida ao fazer transporte de drogas, através de esquemas que muitas vezes não dão certo.
Insegurança, medo, riscos, dinheiro e um grande desejo de encontrar do outro lado um futuro melhor. Mas até que ponto vale a pena entregar-se a este mar de incertezas e deixar para trás seu país, a família, o trabalho aqui e tudo o que se pode conquistar em terras brasileiras?
Todos esses questionamentos são levantados pela autora Glória Perez na novela América, exibida no horário nobre da Rede Globo. A imigração e todas as suas conseqüências despertaram a atenção da escritora e agora viraram discussão nas rodas de amigos.
Na verdade, não é nada novo. Como mostra pesquisa da socióloga Bianca Freire Medeiros, que tem prestado consultoria sobre o tema para a produção da novela global, existem hoje de 600 mil a um milhão de brasileiros, legais ou ilegais, vivendo nos Estados Unidos.
Quem não tem visto, vive esperando pela benevolência do governo americano conceder anistia. Enquanto isso, leva-se a vida na clandestinidade, silenciosamente, já que imagina-se sofrendo o processo de deportação.
Mesmo usando o viés do sonho, que move a personagem Sol, interpretada pela atriz Déborah Secco, Glória Perez vai, aos poucos, mostrando a realidade como ela é e os perigos da imigração ilegal.
Muitos não conseguem, se machucam e até morrem no meio do caminho.
Quem se aventura numa travessia ilegal, que pode durar de quatro a sete dias, está sujeito a enfrentar temperatura quatro graus abaixo de zero para fazer a travessia no deserto, e o Rio Grande, que divide o México e os Estados Unidos, desgaste físico, fome, sede, vegetação espinhosa, além do frio, desidratação, mordidas de animais venenosos, estupros e maus-tratos dos coiotes - integrantes de uma máfia que, em troca de dinheiro, viabilizam a travessia dos aventureiros.
Após o "11 de Setembro", as dificuldades para conseguir um visto aumentaram consideravelmente. Tanto que, a cada três solicitações, uma é negada, o que faz aumentar a tentativa de travessia através do México.
Entre os latinos que sonham em ganhar a vida na América, tem crescido o número de brasileiros. E, nos últimos cinco anos, aumentou também o número de brasileiros detidos na fronteira, passando de 500 para 8.600 no ano de 2004.
Quem consegue atravessar não encontra de cara uma vida de conforto e dinheiro. Estrangeiro ilegal tem que se submeter às oportunidades de subemprego e até fazer lá o que nunca pensou que fizesse aqui. Comparando com os salários pagos no Brasil, ganha-se dinheiro, mas o custo de vida também é alto e as possibilidades de juntar dinheiro são menores do que se imagina antes da partida.
"Além dos problemas econômicos enfrentados pelos brasileiros, há também uma motivação psicológica. Eles são seduzidos pelo ideal materialista do consumo", explica o historiador José Carlos Sebe Meihy, autor do livro O Brasil fora de si, que também ministrou palestra para o elenco de América.
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Equilíbrio é fundamental
Mais do que a idéia fixa de ganhar dinheiro, quem deixa o Brasil para viver o sonho americano precisa ter equilíbrio, acima de tudo. O choque cultural enfrentado pelos imigrantes no dia-a-dia é imenso e pode ser desastroso.
O brasileiro tem comportamento e modo de vida completamente diferentes do americano. Como turista, por alguns dias, talvez essa diferença nem seja tão gritante, mas no cotidiano, quando o brasileiro está longe de suas raízes, cultura e família, a experiência acaba pesando, e muito.
A psicóloga gaúcha Andréa Sebben, que acompanha e orienta pessoas que desejam morar fora do país, afirma que todo processo de imigração envolve três fatores, que podem mudar a vida de uma pessoa: Ambivalência, Riscos e Solidão.
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Com a Ambivalência, o sujeito sabe o que vai perder, mas não sabe com clareza o que vai ganhar realmente.
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No segundo caso, é instalada a incerteza, porque lidar com Riscos não é para qualquer um e, de fato, na maioria dos casos, antes da experiência não há como saber qual será a reação em determinadas situações.
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Já o processo de Solidão é pessoal, intransferível e representa um momento de grande crescimento. Ou seja, tudo o que você ganhar é seu, e tudo o que você perder também.
"O que eu digo nas minhas palestras é que a menos que tu não estejas disposto a essas coisas, não te metas nisso! Há três situações para as quais o indivíduo nunca está totalmente preparado: para casar, ter filho e morar no exterior", enfatiza a psicóloga.
Para suportar as dificuldades, a saudade dos seus e persistir em seu objetivo de trabalho, o brasileiro que chega aos Estados Unidos não pode ter medo de trabalho e tem que contar ainda com algumas características importantes, como ser generoso, flexível e altruísta.
Isso, comenta Andréa Sebben, poderá ajudar muito a diminuir os impactos do choque cultural. Ela lembra que todo o processo de adaptação é sofrido e o que segura a pessoa, neste momento, são suas metas bem definidas.
"Não adianta, por exemplo, recorrer a isso para fugir de um casamento ou esquecer um amor. É preciso ter determinação", enfatiza.
Para quem quiser se corresponder com a psicóloga sobre o assunto, o endereço é: andré
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Estudante faz opção segura
Há três anos, a estudante baiana Andreza Quirino estava desiludida com as possibilidades do mercado de trabalho local. Graduada em publicidade e sem emprego, tinha a esperança de chegar aos Estados Unidos para trabalhar, ganhar dinheiro e construir sua vida lá.
Hoje está de viagem marcada e deve embarcar até o mês de agosto/2005, mas com outras perspectivas.
Ela redirecionou a vida profissional, ingressou no curso de inglês da Universidade Federal da Bahia (Ufba), tem planos de ensinar e passará um ano nos Estados Unidos como babá, aperfeiçoando o idioma e com o objetivo de conhecer uma nova cultura, lidar com diferenças, incrementar o currículo, e, claro, se conseguir juntar algum dinheiro, vai ser lucro.
"Hoje eu sei que posso ir, ficar esse período e voltar para crescer no meu país", afirma a garota.
Quando perseguia a idéia de trocar o Brasil pelos Estados Unidos definitivamente, não contava com o apoio da família. Agora a história é outra. Andreza conta com essa torcida e tem maior segurança para enfrentar as dificuldades que podem surgir.
Está inserida em um programa de trabalho, desenvolvido por uma agência especializada em recrutamento de jovens para trabalhar no exterior, a Experimento.
Andreza ainda não sabe em que cidade ficará, pois encaminhou toda a documentação e um dossiê para avaliação de famílias americanas. Além do suporte da empresa, lá ela terá seguro saúde, uma bolsa de estudo no valor de US$500 para fazer algum curso, uma folga por semana e uma semana de férias ao final de um ano.
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Empresas oferecem programas
Com data para embarcar e para retornar ao Brasil, os jovens que preferem ingressar nos Estados Unidos de maneira legal e segura podem recorrer aos programas oferecidos por empresas de recrutamento.
As vagas são reservadas para universitários, que precisam comprovar estar matriculados em um curso de nível superior, seja qual for o semestre, para poder fazer parte da seleção.
A gerente de atendimento da Sem Destino, Eliana Cerqueira, afirma que essas oportunidades são totalmente voltadas para o aperfeiçoamento dos profissionais, com reconhecimento pleno do consulado.
A empresa tem inscrições abertas para oportunidades de trabalho de babá. Para concorrer, a pessoa deve ter entre 18 e 26 anos, apresentar carteira de habilitação e experiência de 200 horas de trabalho com criança.
O salário oferecido é de US$139 por semana, seguro saúde, acomodações nas casas de família contratante com refeição, além do direito de uma folga por semana, um final de semana livre no mês, férias de 15 dias remuneradas ao final do contrato e mais US$500 para custear um curso.
Os investimentos do candidato ficam em torno de US$695 para participar do programa. Terminado o prazo de um ano, o universitário poderá voltar ao Brasil ou, se desejar, renovar o contrato por mais um ano.
"Cumprindo o primeiro contrato integralmente, ele receberá de volta US$500 dos US$695 investidos, o que não acontece em caso de desistência ou renovação", explica Eliana.
Além das vantagens e da segurança do programa, a empresa também se encarrega de toda a documentação e do encaminhamento da solicitação do visto de trabalho.
As inscrições já estão abertas e o próximo programa tem início ainda no mês de abril/2004. Além de babá, há oportunidades e vagas em parques e resorts. Acesse: http://www.semdestino.com.br
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Inglês fluente no currículo
Ela morou durante cinco anos na Filadelfia, ganhou dinheiro, morou bem, teve vida social intensa, fez passeios, aperfeiçoou o idioma e hoje pode indicar no currículo que tem inglês fluente. Aos 26 anos, a recepcionista e estudante de administração Sara Santos está de volta à Bahia.
E com uma filha americana de 3 anos de idade. Do período que morou lá, sem visto de permanência, trouxe boas lembranças, a certeza de uma experiência positiva e uma mudança de visão.
"Voltaria a morar lá, mas com outra perspectiva. Abriria mão de noitadas e roupas caras para juntar dinheiro. Na época, não pensava assim e queria ter lá o mesmo padrão de vida daqui. Sei que para um peão daqui é mais fácil chegar lá e guardar dinheiro. Ele não gasta, porque tem medo de sair e ser pego pela imigração, não tem vida social, mas eu queria morar em um bom apartamento, queria ter carro e ter uma vida social", avalia.
Quando saiu daqui, em 1998, rumo aos Estados Unidos, a garota havia concluído o segundo grau e tinha o desejo de cursar lá uma faculdade, o que não foi possível.
Trabalhou como babysitter, secretária e em bar, em um esquema sem folgas, de terça-feira a domingo, das 11h às 4h da madrugada. Se sentiu discriminada muitas vezes.
"Eles pensam que mulher brasileira é vagabunda e você tem que manter seu nível o tempo todo", conta.
Entre as dificuldades enfrentadas, a distância não é citada por ela como motivo de sofrimento. O ponto menos positivo de sua história foi voltar, perceber que tinha passado tanto tempo fora, atrasado a faculdade, e tudo isso sem juntar dinheiro.
Por outro lado, houve amadurecimento. Ela ganhou flexibilidade para lidar com altos e baixos aqui, aprendeu a conviver com pessoas de diferentes níveis culturais.
"Hoje, não digo `ah, isso eu não faço!´ O meu conselho para quem está indo para os Estados Unidos é manter distância de brasileiros por lá, porque assim você não assimila nada. Se quer crescer, não adianta ir e ficar em uma comunidade de brasileiros", indica.
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Consulados ficam em Recife e no Rio
Legalmente, há duas maneiras de entrar nos Estados Unidos para trabalhar. Uma é através da contratação de uma empresa americana, que precisa provar, junto ao Serviço de Imigração, suas reais necessidades de levar um brasileiro para integrar seu quadro de funcionários.
A outra maneira é integrar temporariamente um dos programas de trabalho oferecidos pelas agências especializadas em selecionar universitários para a experiência nos Estados Unidos.
Nos dois casos, o visto aqui no Brasil só pode ser conseguido através das representações do Consulado Americano, que ficam em Recife e Rio de Janeiro, sendo que o visto temporário é muito mais fácil do que o permanente, o greencard.
De acordo com a assistente consular da Agência Consular em Salvador, Lize Flores, existem alguns custos com os quais o candidato arca para solicitar o visto.
São US$38 pela entrevista no consulado, mais US$100 pelo pedido da documentação, além das passagens e hospedagem em Recife, no caso dos baianos que devem se deslocar para lá, já que aqui em Salvador não é feita a entrevista.
Quanto ao pedido de visto permanente, não é raro a pessoa ter que ir até o Rio de Janeiro.
Segundo a assistente consular, no caso de uma pessoa casada que está indo trabalhar através de um contrato com empresa americana, o visto também pode ser solicitado para o(a) cônjuge e filhos, em um processo que leva, em média, três meses.
Neste caso, essas pessoas são dependentes do contratado. Vale lembrar que o visto tem que ser renovado periodicamente e é concedido para um contrato específico de trabalho.
Se houver desligamento da empresa, o direito de permanecer no país é suspenso.
Anualmente, o governo americano abre inscrições para estrangeiros que querem participar de um sorteio para 50 mil greencards, concedidos aos países com baixa taxa de imigração para os Estados Unidos, ou seja, países que nos cinco anos enviaram menos do que 50 mil imigrantes para o país.
O sorteio é feito de maneira aleatória, por meio de um sistema eletrônico, porém todos os inscritos precisam estar rigorosamente nos padrões de exigência do Programa de Visto de Diversidade de Imigrantes dos Estados Unidos.
Em primeiro lugar, o candidato precisa ser natural de um país habilitado, cuja lista está disponível no site do Consulado americano. Se a pessoa não nasceu em um país habilitado, pode usar o país do cônjuge, desde que entrem juntos no país.
Caso a pessoa tenha nascido em país não-habilitado, mas o pai ou a mãe tenha nascido ou morado em um habilitado por ocasião do nascimento do filho, poderá, então, indicar o país de origem do pai ou da mãe.
A inscrição para o programa pode ser feita através do site, indicando nome completo, endereço, data de nascimento, sexo, cidade, estado civil, seu e do cônjuge, se houver.
Também é exigido que a pessoa tenha instrução de nível médio ou equivalente, dois anos de experiência comprovada de trabalho, nos últimos cinco anos.
Os greencards são distribuídos nos cincp continentes, sendo que nenhum país pode receber mais do que 7% dos vistos.