A mais nova revelação da música popular
brasileira, Vanessa da Mata, interpreta a trilha sonora da nova novela global
das 19h, A Lua Me Disse. Este é o segundo CD da cantora, que também é
compositora. Ela escreveu o sucesso 'Não me deixe só'.
Trajetória
Como sugere o nome, Vanessa da Mata é uma força da natureza. Nascida na
pequena Alto Garças, cidade de 8 mil habitantes, três rios (Bonito, Garças e
Araguaia) e inúmeras cachoeiras no Mato Grosso, a cantora e compositora de 26
anos não toca qualquer instrumento mas tem a musicalidade à flor da pele.
Acumula mais de 250 composições anotadas no caderno ou registradas no
gravador que leva sempre na bolsa. “Meu processo autoral é loucura mesmo, tenho
uma imaginação muito fértil, gosto de inventar. Escrevo compulsivamente. Vou
para o café e já começo a anotar. Compus até em fitinha de secretária
eletrônica”, brinca.
Antes mesmo desse disco de estréia, que consumiu um ano e meio da concepção
ao acabamento, seu nome já brilhava nos letreiros. Maria Bethânia não somente
gravou “A força que nunca seca” (parceria com Chico Cesar), como transformou a
música na faixa título de seu CD de 1999. Daniela Mercury gravou “Viagem” e
“Onde ir” -interpretada por Vanessa da Mata em seu primeiro CD - toca na trilha
da recente novela “Esperança”, da TV Globo.
Chico Cesar foi o primeiro a acreditar nela e a apresentou ao violonista
Swamy Jr. “Ele fez uma demo comigo e participou de meus primeiros shows solos
ainda sem eu ter como contrata-lo”, agradece a noviça. Além dele, este primeiro
CD conta com um elenco de feras instrumentais e a produção conjunta de Liminha,
Jaques Morelenbaum, Luiz Brasil, Dadi e Kassin. Um espectro de estilos que
atesta a elasticidade do novo talento.

“Tenho até fã-clube em São Paulo”, espanta-se Vanessa, que apesar da idade já
rodou muita estrada musical. Influenciada pelo dom natural (“ela tem um timbre
lindo”) da avó baiana, Dona Sinhá, descendente de índios e negros e
catalisadoras festas como a de folia de reis, Vanessa aos 15 anos, de mudança
para Uberlândia, Minas, já cantava num bar, onde a atração era o núcleo inicial
do pagodeiro Só Pra Contrariar.
Sua (in)formação musical foi eclética. “Nossa cidade era muito longe das
principais rádios e eu ouvia tudo misturado, de Tom Jobim, Milton Nascimento,
Orlando Silva, Djavan a Amado Batista, Tonico & Tinoco, Tião Carreiro &
Pardinho, Cascatinha e Inhana”, enumera.
Lembra que os tios traziam de viagens ao Amazonas discos do carimbó de
Pinduca e o número de sulistas atraídos pela soja (“por causa dela não há mais
mato no Mato Grosso”, ironiza) garantia até um CTG com direito a bailes
pilchados (de bombachas) e músicas gaúchas. Em 1992, já morando em São Paulo,
seu leque ampliou-se quando ela foi cantar na banda de reggae feminina,
Shalla-bal.
Com a experiência, passou no teste para “backing vocal” da jamaicana
pós-Marley Black Uhuru, com quem excursionou pelo Brasil. Sua próxima parada foi
na banda Mafuá, liderada por Tião Carvalho (autor de “Nós”, gravado por Cássia
Eller), ligada à música regional e folk.
A atividade de cantora no grupo serviu de incentivo para o surgimento da
compositora. “Eu ficava trabalhando minhas coisas quieta em casa e o Gabriel
Levi, da banda, gostou e disse que eu devia ir em frente”, lembra.
O ouvinte seguinte, o compositor Chico Cesar, deu o impulso que faltava
mostrando a meio mundo musical as composições de Vanessa. Até que Bethânia
encantou-se por “A força que nunca seca”. “Vi que minhas coisas faziam sentido
também para outras pessoas”, constatou ela, até então insegura quanto a seu
pulso autoral.
A música acabou concorrendo na primeira edição latina do Grammy. Outro
momento de afirmação de Vanessa foi quando a sumidade do violão Baden Powell
gostou de seu timbre e a convocou para apresentar-se com ele, três meses antes
de sua morte, num evento no Sesc Pompéia, “Todos os cantos do mundo”.
Na edição francesa do festival Percpan, VM
iniciaria outra parceria relevante para sua carreira, com o congolês Lokua
Kanza. “Nós nos comunicamos em inglês, mas é mais através da musicalidade
mesmo”, garante. Entre as várias composições que já fizeram, “Eu não tenho” foi
escalada para o disco.
“Ele colocou uma tristeza na harmonia que eu contrabalancei com uma guinada
espanhola, mas tem um acordeon que reforça a melancolia da letra”, descreve. Já
as parcerias com o produtor Liminha ocorreram quase por acidente.
Enquanto aguardava a preparação do estúdio dele, o Nas Nuvens, no Rio, onde o
disco foi gravado, a cantora o desafiou: “Vamos compor?” E nasceram “Case-se
comigo” e “Longe demais”.
A primeira é uma valsa embebida em blues onde a voz de Vanessa soa mais que
convidativa. “Mexe com a fantasia da mulher mas não ficou presa ao estereotipo,
tem muita pimenta”, provoca. Gerada na mesma noite, “Longe demais” só ganhou
letra - a respeito de um amor platônico e distante - dias depois,
ainda no Rio.
Por sua vez, “Não me deixe só” foi feita para a cantora Maria Rita Mariano,
filha de Elis Regina. “Ela gostou, mas resolveu amadurecer mais a estréia em
disco e eu pedi para gravar antes”, rebobina.
Trata-se de um samba rock irresistível onde ela localiza influências de Jorge
Benjor. “Engraçado, ele não tocava muito lá na minha cidade, mas aquele violão
de suingue, a intuição das letras dele, tudo me marcou muito”, contabiliza.
Da observação das pessoas insatisfeitas com seus problemas brotou “Onde ir”.
“Eu ia trocar o título por “aonde ir”, que é mais correto, mas ficou esse mesmo.
Fala de uma pessoa sem rumo, procurando alguém que não existe”, define.
A única composição alheia do repertório é o belíssimo samba “Alegria”, do
baiano Assis Valente (e Durval Maia), registrada inicialmente por Orlando Silva,
em 1937. “Eu poderia gravar qualquer outra música do Assis Valente que eu acho
demais, mas essa tinha a ver com um momento verdadeiro meu”, revela.
Em “Viagem” mais uma pitada de mestre
Benjor. O samba rock meio bossa foi escrito num trajeto ao contrário do enredo,
do interior para a grande cidade, e marcou nos shows onde a platéia costuma
cantar junto. “Uma espectadora veio ao camarim dizer que tinha se identificado
tanto que ia colocar o nome no filho de João, como está no enredo”, admira-se.
Feita no ardor dos 18 para os 19 aninhos, “Delirio” transborda sensualidade.
“Era bem mais atrevida”, ri muito. “Foi a resposta para um menino e eu mudei um
pouco a letra porque já não me identificava tanto com aquela situação”,
despista. Pula para a intencionalmente retrô “Ano de 1890”.
A idéia bateu quando Vanessa conheceu a secular rua do Ouvidor, no Centro do
Rio, o que inspirou um mergulho na era de Machado de Assis. “A delicadeza por
trás da crueldade, os vestidos, o romantismo, a abolição, a necessidade de ter
uma pessoa na família que tocasse piano, a hora do chá, o primeiro beijo e ler
romances - uma coisa que infelizmente ficou para trás”, lamenta.
Num compasso de samba lento, movido à voz & violão, desfila a finalista
“Onde Ir”, antes chamada de “Bem da vida”. “Tenho dificuldade com os títulos”,
admite. A procura do amor mais puro, mais sincero, é rebatida por um verso tão
inesperado quanto nocauteador: “velha de pouca idade/ ia vivendo a necessidade”.
Contragolpes poéticos como esse também povoam a fundadora “A força que nunca
seca”, cujo título chegou a ser questionado até por Chico Cesar. “Ele
apresentava a música e pedia outra sugestão de nome aos espectadores”,
diverte-se ela. Inspirado na supracitada avó da cantora, o tema
embrenha-se no estado de miséria, abandono, isolamento e na aridez do nordeste,
que nada tem a ver com a exuberância do ponto de partida em Mato Grosso.
“Não sei como aconteceu. A letra saiu pronta, teve uma elaboração interna”,
espanta-se Vanessa da Mata, uma força da natureza à prova de rótulos e molduras
estéticas, que traz para a MPB uma rajada de intuição fresca e
desestruturadora.
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Boa sorte
ASS: Isabela RECIFE-PE
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