A comunidade de libaneses e descendentes no Brasil é maior até do que a população do próprio Líbano. Atualmente, há cerca de 7 milhões de libaneses e descendentes no Brasil, a maioria vive em São Paulo, mas eles estão espalhados por todo Brasil.
Com tanta gente, não faltam histórias para contar. Como a da família Massud, que chegou ao país no final do século 19 e cujos integrantes se espalharam por vários ramos de atividade, como o comércio, a política e a medicina; ou dos Nabhan, que imigraram mais recentemente, em 1979.
A imigração libanesa começou oficialmente no Brasil por volta de 1880, quatro anos após a visita do imperador Dom Pedro II ao Líbano.
A maioria dos imigrantes veio ao país fugindo da falta de perspectiva econômica da região, então dominada pela política turco-otomana. O Brasil, na época, atravessava a sua primeira fase de urbanização e industrialização, o que tornava propício os novos negócios.
Diferente dos imigrantes europeus, que procuraram no Brasil as terras para cultivo, os libaneses encontraram nas cidades um local para a criação de indústrias e casas de comércio.
A maioria deles começou a sua vida no país vendendo mercadorias de porta em porta como mascate. O dinheiro juntado acabou sendo o pontapé para a abertura de pequenas confecções e lojas de tecidos.
Apesar da data oficial do início da imigração ser 1880, antes disso alguns libaneses já viviam no Brasil. Em 1808, por exemplo, quando a família real portuguesa chegou ao Brasil foi um libanês, Antun Elias Lubbos, quem ofereceu sua casa para o rei D. João VI como residência imperial.
O libanês era proprietário de terras, possuía um açougue de carne de carneiro e uma casa de secos e molhados.
O local se tornou Casa Imperial Brasileira, onde nasceu Dom Pedro II, e depois virou Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.
Muitos dos imigrantes libaneses que vivem ou viveram no Brasil colaboraram inclusive com o desenvolvimento do próprio Líbano, com envio ao país de recursos que propiciaram a construção de hospitais, escolas e bibliotecas.
No Brasil, eles também fizeram obras importantes, como o Hospital Sírio-Libanês e o próprio Clube Atlético Monte Líbano.
A culinária libanesa é um exemplo de como a cultura libanesa se tornou popular. Quibes e esfihas são vendidos em restaurantes e lanchonetes de todo o país.
Histórias de libaneses
Com tanta gente na colônia, a imigração é repleta de histórias. Alguns vieram e voltaram para o Líbano, para depois retornar novamente ao Brasil, outros chegaram e nunca mais retornaram à sua terra natal. Uma das famílias que chegaram a São Paulo no final do século 19 foi a Massud.
O médico João Massud Filho, neto do imigrante Amin Massud, conta que seu avô era um dissidente político na época do domínio turco e, por isso, resolveu fugir para o Brasil junto com sua mulher.
Como vários de seus compatriotas, Amin foi trabalhar no comércio junto com os irmãos. "Meu avô teve três filhos aqui. Ficou no Brasil por 65 anos e depois voltou para o Líbano", disse. Posteriormente Amin retornou definitivamente ao Brasil com os filhos. "Meu pai (João, filho de Amin) foi dono de cartório e chegou a ser prefeito da cidade de Getulina (no interior de São Paulo)", afirma Massud Filho.
Ele conta que sua mãe, Hania Massud, também saiu do Líbano e veio morar no Brasil, onde conheceu e se casou com seu pai. "Minha mãe foi para os Estados Unidos com 16 anos para se casar com uma pessoa muito mais velha do que ela, um homem que ela não conhecia. Era casamento arranjado.
Quando chegou lá e viu o homem ela fugiu para França e depois veio para o Brasil", disse. "Meus pais nunca mais voltaram para o Líbano", acrescentou.
Uma outra história mais recente é a do libanês Tanos Nabhan. Ele veio para São Paulo com 29 anos de idade, em 1979, junto com sua esposa Marie Nabhan. Os dois saíram da cidade de Fharzabed por causa da guerra civil que durou 15 anos.
Nabhan, que era professor de árabe, história e geografia, chegou em São Paulo sem falar uma palavra em português, mas aos poucos foi aprendendo e começou a trabalhar no comércio.
"Primeiro abri uma loja de confecções em Maringá (interior do Paraná), mas não deu certo. Depois voltei para São Paulo, onde abri uma lojinha, no Brás, de roupas e acessórios infantis", disse. Em 2003, o imigrante abriu uma fábrica de jeans infantil, a Parizi, também localizada no Brás.
Hoje, com 55 anos de idade, Nabhan afirma que se acostumou com o Brasil. "Já fui visitar o Líbano duas vezes. Mas o povo brasileiro é muito carinhoso, diferente de outros países, e isso nos ajudou muito a continuar aqui", disse.

Ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, assassinado em 14 de fevereiro/2005, vítima de um atentado com carro-bomba que matou também outras 18 pessoas, entre elas o deputado e ex-ministro da Economia Bassen Freijan.
Presidente Lula destaca a importância dos libaneses para o desenvolvimento do Brasil
O presidente participou, em São Paulo, da solenidade que marcou o início das comemorações dos 125 anos da imigração libanesa. 'Eles ajudaram a construir uma nação e se integraram em todas as esferas da sociedade brasileira', disse. Também estiveram presentes os governadores de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e Goiás, além do prefeito da capital paulista, José Serra.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, participou das comemorações dos 125 anos de imigração libanesa no Brasil, no Clube Atlético Monte Líbano em São Paulo, que ocorreu no período de 1 a 10 de abril/2005, destacando a importância dos imigrantes para o desenvolvimento do país.
"Os libaneses levaram sua energia e conhecimento aos quatro cantos do mundo, mas reservaram um carinho especial para o Brasil", declarou. "Eles ajudaram a construir aqui uma nova nação e se integraram em todas as esferas da sociedade brasileira", acrescentou.
Para o presidente, a história dos libaneses e descendentes se confunde com a expansão do Brasil. "Primeiro como mascates, depois como engenheiros, médicos, escritores e homens públicos", disse.
Ele acrescentou que assim como a cultura libanesa faz parte do Brasil, também a cultura brasileira precisa fazer parte do Líbano. O presidente voltou a falar sobre a abertura da Casa do Brasil em Beirute, projeto lançado durante sua vagem ao país árabe no final de 2003. Lula foi o primeiro chefe de estado brasileiro no exercício do cargo a visitar o Líbano após o imperador Dom Pedro II, que esteve na região na década de 1870.
Lula disse ainda que era um sonho seu visitar o país.
"Pude ver a alegria do povo libanês. Quem for ao Líbano não verá diferença entre a alegria do povo brasileiro e a do povo libanês", declarou.
O presidente brincou com a platéia ao falar que os libaneses devem ter começado a chegar no Brasil muitos anos antes do início oficial da imigração, em 1880. "Não sei se é só isso, se não tinha libanês infiltrado no navio de Cabral quando ele chegou aqui", disse.
Cúpula
Ele afirmou também que o Líbano foi um dos primeiros países árabes a abrir um canal de diálogo com o ocidente. Esse canal, de acordo com o presidente, deve ser reforçado com a cúpula dos países árabes e sul-americanos, que será realizada em maio em Brasília. "A cúpula vai oferecer a oportunidade de se identificar vínculos e lançar um diálogo entre países latinos e árabes", declarou.
Para o presidente, distância não é um problema. Ele disse que nem sempre o irmão mais próximo é o melhor companheiro, mas que todo bom companheiro é um grande irmão. "O que existe entre brasileiros e libaneses é mais do que imigração, é cumplicidade", afirmou.
Em torno de 1,7 mil pessoas participaram da solenidade. A maioria integrante da comunidade libanesa.
Entre as autoridades estavam também os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin, do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, da Bahia, Paulo Souto, e de Goiás, Marconi Perillo, além do prefeito da capital paulista, José Serra, e do cônsul-geral do Líbano em São Paulo, Joseph Sayad.
Serra lembrou que grande parte da comunidade libanesa do Brasil está em São Paulo, em torno de 2 milhões de pessoas.
"O Líbano nos mandou jovens ousados, corajosos, com facilidade de adaptação, que cruzaram 10 mil quilômetros para chegar até aqui", disse.
Ele lembrou da importância da comunidade libanesa no desenvolvimento de uma das ruas de comércio mais importantes do Brasil: a 25 de março, no centro da capital paulista. Serra afirmou que conviveu de perto com os comerciantes libaneses. "Trabalhei no Mercado Municipal e lá aprendi a comer comida árabe", afirmou.
Durante a cerimônia foi feito um minuto de silêncio em homenagem ao ex-primeiro ministro libanês, Rafik Hariri, morto em fevereiro. No início do evento, o coral do clube Monte Líbano cantou os hinos do Líbano e do Brasil. Algumas autoridades presentes, inclusive o presidente, foram presenteadas com esculturas da artista Odette Eid, descendente de libaneses.
Exposição
A solenidade serviu também para marcar a abertura de uma exposição fotos e objetos da época do início da imigração e também para o lançamento de um selo postal comemorativo da data.
A mostra aberta ontem no Monte Líbano tem como objetivo resgatar a memória da chegada dos imigrantes libaneses. Até o dia 10 de abril ficaram expostos no clube documentos históricos, roupas e objetos utilizados pelos libaneses nos primeiros anos da imigração, além de fotos e livros que remetem ao tema. "Até malas utilizadas pelos libaneses que trabalhavam como mascates foram colocadas em exposição", disse a encarregada administrativa da mostra, a libanesa Dolly Lahoud.
Além da exposição, como parte da comemoração dos 125 anos também houve palestra, sobre a imigração libanesa no Brasil. O geógrafo e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), Aziz Ab'Sáber, vai falou sobre o tema, no teatro do Monte Líbano.
anba
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