A primeira geração do PT foi heróica. Em pleno regime militar, organizava os trabalhadores para levar adiante suas reivindicações.
Enfrentando uma ditadura consolidada e uma elite reacionária, concentradora de renda e poder, sem sentimento de nação, os fundadores do PT nem sonhavam em chegar ao poder sob a liderança de um operário sem fortuna ou diploma. Sequer sonhavam em disputar eleições. Era um partido de heroísmo histórico.
Ao reunir pessoas de diversas alas da esquerda – órfãos do movimento comunista, líderes da igreja católica, sindicalistas – o novo partido não era de fato um partido.
Dividido em tendências internas, era como uma federação de movimentos contra a ditadura, mais um agrupamento de palavras de ordem do que um partido com metas de poder e alternativa de projeto nacional.
A geração heróica se fez reivindicatória. O PT tornou-se a soma de sindicatos, movimentos sociais, grupos organizados voltados à luta imediata que defendiam muitas vezes o impossível.
Passou a representar os trabalhadores contra o capital, a simbolizar o diferente, a oposição incorruptível, a esperança em um país de política viciada.
Logo esse movimento transformou-se em partido. Cresceu em número de parlamentares - acostumado à oposição legislativa, mas sem projetos de governo.
Aos poucos foram eleitos prefeitos, que precisavam substituir reivindicação por propostas.
A seguir dois governadores, um dos quais não conseguiu terminar seu mandato no PT, pressionado por militantes e sindicalistas.
Líderes petistas passaram a ocupar cargos executivos. O partido da contestação foi testado na administração, o partido da reivindicação foi testado na proposição.
Mas no plano nacional, a candidatura presidencial representava somente uma tomada de posição. Mesmo assim, Lula quase se elegeu na primeira eleição direta para presidente desde o regime militar.
Em 1989, o povo rejeitou os políticos tradicionais da ditadura e da luta democrática, e decidiu entre os candidatos que traziam a diferença: Lula e Collor. Como Collor provou, nenhum dos dois tinha projetos viáveis.
Porém, mesmo próximo do momento de governar um país complexo como o Brasil, o PT não mudou como deveria. Propositivo em prefeituras e governos estaduais, continuou contestador no plano nacional. Seus deputados e senadores votavam sem compromisso com a construção do possível, sem conciliação.
O partido participava da democracia sem parecer talhado para ela, intransigente, avesso ao diálogo, e apresentava uma lista de sonhos radicais e reivindicações sindicais em vez de um claro projeto de um Brasil diferente.
A falta de gosto pelo diálogo foi confundida com autenticidade e pureza, a soma de reivindicações foi vista como projeto, esperança.
Com apelo popular, faltava pouco: mostrar à elite que o PT não era um vendaval sem rumo ou uma agremiação de desvairados, e que, com sua pureza, seria capaz de conciliar. Faltava mostrar-se como alternativa, e não ameaça.
Isso conseguido, e com o carisma e a genialidade política de Lula, o PT da impossibilidade conseguiu eleger o presidente.
O PT e Lula estava preparados para governar. Tinham o senso da responsabilidade e dos limites do possível.
Passados mais de dois anos, Lula pode ser considerado um dos melhores presidentes da República que o Brasil já teve. Mas um presidente competente do velho ciclo brasileiro, não o primeiro presidente do novo ciclo histórico.
O PT ainda não iniciou os passos para tornar republicana nossa república, com medidas que apontem para a mudança no poder, na distribuição da renda, na universalização da escola com qualidade, na redução da desigualdade, no atendimento das necessidades essenciais do povo.
O governo Lula administra bem o presente, mas ainda não começou a transformar um país dividido em nação unificada. Mantém o velho rumo do país democrático com estabilidade monetária, mas desigual, deseducado, doente, viciado na política oportunista.
A falta de gestos transformadores faz esvair a esperança, o excesso de alianças com elites tradicionais e o uso de métodos antes combatidos retiram do PT a auréola de pureza.
Suas duas grandes forças, a esperança e a pureza, começam a desaparecer.
A história mostra que alguns partidos se afirmam ao chegar ao poder, outros se perdem. O PT corre o risco de se perder, se não for capaz de influir politicamente no governo Lula e mudar a direção histórica do Brasil.
Militantes e eleitores se perguntam se este ainda é o mesmo partido. Mais grave, a oposição interna, considerada de esquerda, critica a política econômica, mas não apresenta alternativa para reorientar o projeto nacional.
Aos 25 anos, o PT não consegue transformar seu sucesso eleitoral em sucesso político, histórico, e não sabe como retirar o Brasil das mãos centenárias da oligarquia aristocrática e reorientar o futuro do País.
Por isso, não comemoramos Bodas de Prata, mas Bodas de Dúvidas. Por isso, em vez de festa em Recife, deveríamos organizar um debate no país inteiro.
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Seu Site - http://www.cristovam.com.br E-mail:
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