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Escrito por Cândido Grzybowski, Marcello Casal (foto)   
Monday, 11 April 2005
"Antes que seja tarde – e a democracia seja questionada – lutemos para que o governo Lula  passe a ser aquilo que esperamos dele. Em outras palavras: é preciso que, literalmente, caia a ficha. E logo", diz o sociólogo, Cândido Grzybowski. (Na foto, o presidente Lula)

Estranha a conjuntura política brasileira. Ou melhor, desesperante. Vivemos a sensação do imprevisível. Um maremoto político parece estar sendo armado no Planalto Central.

Nada que não possa ser mudado pela força da jovem, mas experiente democracia brasileira. É pensar como e ir à luta, companheiros e companheiras.

Na democracia, a incerteza é, de certa forma, expressão de vitalidade. Sabemos quais os seus princípios constituintes e regras políticas, mas não sabemos de antemão – ou temos muita dúvida – quais os possíveis resultados da disputa política.

Tudo é permitido, respeitados os princípios e as regras – faz parte do jogo. Na democracia, o processo do fazer prevalece sobre o feito; o modo de chegar prevalece sobre a conquista; a participação política prevalece sobre o realizado.

Enfim: as condições qualificam os resultados e os fins a alcançar não justificam os meios empregados.

A democracia é um processo permanentemente renovado de busca, um modo de fazer contraditório e conflituoso, de fundar e refundar, de construir e reconstruir.

A luta social entre sujeitos titulares de mesmos direitos de cidadania é a força motriz da democracia. A disputa de visões e concepções é o que dá forma e conteúdo ao processo de luta democrática.

Brigamos, e muito, para ter a democracia – com seus ganhos e limitações – no lugar da ditadura militar. Nem faz muito tempo que conquistamos tal feito, exatos 20 anos. Sofridos, sem dúvida.

Mas quantas jornadas memoráveis, não fosse a democracia, não teriam acontecido. Cada um(a) deve ter as suas lembranças e se não tem deve tratar de registrá-las logo.

Presenciamos:

  • a reforma agrária virar política de Estado;

Sentimos a vibração cidadã:

  • da Assembléia Constituinte;
  • das eleições presidenciais de 1989;
  • do Movimento pela Ética na Política;
  • do impeachment de Collor;
  • da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida;
  • das experiências de governos participativos;
  • da inflação domada.

Mais recentemente, fizemos:

  • o Fórum Social Mundial e

Elegemos:

  • um metalúrgico para a Presidência do Brasil.

Uma trajetória de celebração cívica, em meio ao aprendizado coletivo de responsabilidades e direitos de cidadania.

Tivemos também as ondas baixas, de desespero até:

  • a frustração com o Cruzado; o confisco de Collor;
  • a dilapidação do patrimônio público com as privatizações;
  • o amargo receituário do FMI;
  • o desemprego montante;
  • a queda da renda média.

Mas estávamos lutando, apesar de tudo.

Quando botamos o Lula lá – e achamos que tínhamos chegado a mares menos revoltos – o maior desafio da democracia brasileira ainda estava por vir.

Desde meados de 2004, tenho afirmado que a cidadania está encurralada. A alternativa para que o governo que elegemos não se perca de vez é voltarmos às ruas.

Devemos romper as amarras para que, de fato, a esperança supere o medo e a radicalização da democracia seja possível. Mais ainda: não podemos perder as referências da "Democracia".

Não podemos permitir que as incertezas fiquem sem princípios e regras. A eleição de Severino Cavalcanti para a Presidência da Câmara é um fato emblemático do perigo que corremos. Vamos aceitar o "salve-se quem puder"?

Vivemos um daqueles momentos de absoluta incerteza no pacto democrático fundante.

O "fisiologismo" e o "patrimonialismo", nossas mazelas políticas maiores, não só mostraram a sua cara, mas estão dando as cartas.

Aprisionaram o governo Lula ou, talvez, ele tenha feito por merecer a prisão. Mas a democracia brasileira – definida na simples radicalidade de garantir todos os direitos a todos os(as) brasileiros(as) – não pode ser tão seriamente ameaçada.

Não podemos aceitar que o nosso Congresso atue como federação de interesses particulares, em vez de expressão da cidadania brasileira.

O governo Lula seria o responsável pela total incerteza que está no ar, ameaçando a possibilidade de avanços democráticos? Não de todo, mas em grande parte sim.

Lamentável ter que reconhecer isso, mas, ao mesmo tempo, fundamental para apontar onde e por onde devemos começar algo que recupere o sentido de um pacto democrático e republicano para o Brasil.

Incertezas sim, mas desde que saibamos como enfrentá-las. A democracia é o valor maior a preservar. Não será com privilégios, concessões em nome da governabilidade e arranjos de poder que chegaremos às mudanças que o país tanto requer.

Antes que seja tarde – e a democracia seja questionada – lutemos para que o governo Lula passe a ser aquilo que esperamos dele. Em outras palavras: é preciso que, literalmente, caia a ficha. E logo.

Cândido Grzybowski, é Sociólogo, diretor do Ibase.

 

novae/ibase

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