"Antes que seja tarde – e a democracia seja questionada – lutemos para que o governo Lula passe a ser aquilo que esperamos dele. Em outras palavras: é preciso que, literalmente, caia a ficha. E logo", diz o sociólogo, Cândido Grzybowski. (Na foto, o presidente Lula)
Estranha a conjuntura política brasileira. Ou melhor, desesperante. Vivemos a sensação do imprevisível. Um maremoto político parece estar sendo armado no Planalto Central.
Nada que não possa ser mudado pela força da jovem, mas experiente democracia brasileira. É pensar como e ir à luta, companheiros e companheiras.
Na democracia, a incerteza é, de certa forma, expressão de vitalidade. Sabemos quais os seus princípios constituintes e regras políticas, mas não sabemos de antemão – ou temos muita dúvida – quais os possíveis resultados da disputa política.
Tudo é permitido, respeitados os princípios e as regras – faz parte do jogo. Na democracia, o processo do fazer prevalece sobre o feito; o modo de chegar prevalece sobre a conquista; a participação política prevalece sobre o realizado.
Enfim: as condições qualificam os resultados e os fins a alcançar não justificam os meios empregados.
A democracia é um processo permanentemente renovado de busca, um modo de fazer contraditório e conflituoso, de fundar e refundar, de construir e reconstruir.
A luta social entre sujeitos titulares de mesmos direitos de cidadania é a força motriz da democracia. A disputa de visões e concepções é o que dá forma e conteúdo ao processo de luta democrática.
Brigamos, e muito, para ter a democracia – com seus ganhos e limitações – no lugar da ditadura militar. Nem faz muito tempo que conquistamos tal feito, exatos 20 anos. Sofridos, sem dúvida.
Mas quantas jornadas memoráveis, não fosse a democracia, não teriam acontecido. Cada um(a) deve ter as suas lembranças e se não tem deve tratar de registrá-las logo.
Presenciamos:
- a reforma agrária virar política de Estado;
Sentimos a vibração cidadã:
- da Assembléia Constituinte;
- das eleições presidenciais de 1989;
- do Movimento pela Ética na Política;
- do impeachment de Collor;
- da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida;
- das experiências de governos participativos;
- da inflação domada.
Mais recentemente, fizemos:
Elegemos:
- um metalúrgico para a Presidência do Brasil.
Uma trajetória de celebração cívica, em meio ao aprendizado coletivo de responsabilidades e direitos de cidadania.
Tivemos também as ondas baixas, de desespero até:
- a frustração com o Cruzado; o confisco de Collor;
- a dilapidação do patrimônio público com as privatizações;
- o amargo receituário do FMI;
- o desemprego montante;
- a queda da renda média.
Mas estávamos lutando, apesar de tudo.
Quando botamos o Lula lá – e achamos que tínhamos chegado a mares menos revoltos – o maior desafio da democracia brasileira ainda estava por vir.
Desde meados de 2004, tenho afirmado que a cidadania está encurralada. A alternativa para que o governo que elegemos não se perca de vez é voltarmos às ruas.
Devemos romper as amarras para que, de fato, a esperança supere o medo e a radicalização da democracia seja possível. Mais ainda: não podemos perder as referências da "Democracia".
Não podemos permitir que as incertezas fiquem sem princípios e regras. A eleição de Severino Cavalcanti para a Presidência da Câmara é um fato emblemático do perigo que corremos. Vamos aceitar o "salve-se quem puder"?
Vivemos um daqueles momentos de absoluta incerteza no pacto democrático fundante.
O "fisiologismo" e o "patrimonialismo", nossas mazelas políticas maiores, não só mostraram a sua cara, mas estão dando as cartas.
Aprisionaram o governo Lula ou, talvez, ele tenha feito por merecer a prisão. Mas a democracia brasileira – definida na simples radicalidade de garantir todos os direitos a todos os(as) brasileiros(as) – não pode ser tão seriamente ameaçada.
Não podemos aceitar que o nosso Congresso atue como federação de interesses particulares, em vez de expressão da cidadania brasileira.
O governo Lula seria o responsável pela total incerteza que está no ar, ameaçando a possibilidade de avanços democráticos? Não de todo, mas em grande parte sim.
Lamentável ter que reconhecer isso, mas, ao mesmo tempo, fundamental para apontar onde e por onde devemos começar algo que recupere o sentido de um pacto democrático e republicano para o Brasil.
Incertezas sim, mas desde que saibamos como enfrentá-las. A democracia é o valor maior a preservar. Não será com privilégios, concessões em nome da governabilidade e arranjos de poder que chegaremos às mudanças que o país tanto requer.
Antes que seja tarde – e a democracia seja questionada – lutemos para que o governo Lula passe a ser aquilo que esperamos dele. Em outras palavras: é preciso que, literalmente, caia a ficha. E logo.
Cândido Grzybowski, é Sociólogo, diretor do Ibase.
novae/ibase
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