"Me diz pra onde é que inda posso ir Se nós, nas travessuras das noites eternas Já confundimos tanto as nossas pernas" Chico Buarque
Lula bem que tentou dar demonstrações verbais de soberania depois do anúncio de que o Brasil não assinaria um novo acordo com o FMI.
Segundo ele, daqui para a frente o Brasil vai andar "com as próprias pernas".
Claro, o FMI está exultante em ver o Brasil, seu aluno dileto andando "autonomamente" por caminhos previamente traçados. Obedecendo todas suas condicionalidades, e por conseqüência as da banca internacional, com desenvoltura e personalidade.
E mais, seguindo uma agenda de "reformas estruturais" que visa reformatar o país em função dos planos de expansão das redes econômicas globais.
De forma voluntária e convicta, manteremos a disciplina fiscal que manda enxugar o orçamento para o desenvolvimento e para a seguridade social em função de escandalosos superávits primários. Solícitos, continuaremos anfitrionando a orgia do capital especulativo e dos bancos com taxas de juros que não podem ser reduzidas em nome de um pretenso combate a inflação.
Nosso Estado foi incubado. As suas estruturas decisórias foram blindadas por leis de caráter fiscalista inspiradas nas regras de ouro da banca internacional, tais como a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
As agências e consultorias de investimento tem motivos para comemorar: "Não são mais as políticas do Fundo, são as políticas do Governo brasileiro." O FMI está fora por que já está dentro o suficiente.
O país pode então ficar no "automático", ou seja, sob a gerência confiável de Palocci e Meireles. "É o amadurecimento de nossa economia convalidando o amadurecimento da nossa democracia", justifica o primeiro.
É o sinal para os investidores de que o Brasil está se convertendo em um ambiente talhado especialmente para eles. Mi casa, su casa.
O objetivo é cristalizar vantagens para os negócios privados através de novos arranjos regulatórios, seguros e perenes.
Taí o Brasil modelo de gestão para a periferia financeirizada. Uma zona de reexportação com infra-estrutura planejada para engates rebaixados, zona liberada de qualquer contrato social ou da promessa dele.
Pernas para isso? Pernas, para que te quero?
Luis Fernando Novoa Garzon é sociólogo e militante de movimentos sociais por uma outra globalização.
novae
|