Ele é agressivo, prepotente, escandaloso. Sem qualquer pudor, anuncia absurdos inomináveis, sempre conservadores, é claro. Faz apologia da desigualdade, da desumanidade, da riqueza escandalosa, do ódio aos pobres e da opressão dos fracos. Defende os crimes ambientais, a inferioridade da mulher, a superioridade do capitalismo, a violência imperialista. Ataca a educação sexual, o compromisso social e, sobretudo, tudo que é público. Nada lhe é mais bonito que o privado.
Ele se esforça para escrever bem, em forma displicente ou rebuscada, pousando de homem de cultura, absolutamente despreocupado com a mesma, coisa que já superou, pois própria ao esquerdista anacrônico. É invariavelmente repetitivo e, sobretudo, superficial, limitando-se a escavar no âmago do que há de pior no senso comum, para vendê-lo, estilizado, como visão inovadora de mundo.
Obrigado a reapresentar sempre o mesmo conteúdo rasteiro, empreende eterna fuga en avant, como uma espécie de dependente químico forçado pela abstinência à busca da dose diária de forma e de argumento escandalosos, sem a qual não consegue manter-se de pé, na crista da onda midiática. Viciado pelo sucesso fácil, de enfant–terrible da cultura, migra sem volta para a histrionice trivial.
Publicista de aluguel
Elevado pela força dos veículos de divulgação que freqüenta e das classes proprietárias que defende, torna-se publicista excelente de aluguel, do tipo usa-se e bota-se fora. Mais comumente incapaz de produção cultural de vida mesmo breve, desaparece ao interromper os serviços prestados, sem deixar traços culturais ou artísticos. É como se recebesse tudo no ato.
Não é produto dos novos tempos neoliberais, apesar de ser um seu importante registro. Com a avalanche direitista, abandonou o bas-fond cultural em que vegetava como desprestigiado estipendiado dos poderosos, jamais levado a sério, jamais se levando a sério – quem se lembra dos Ibrahin Sued e dos Flávio Cavalcante da vida? – para conquistar a áurea de intelectual transgressor.
Por seu sucesso e precocidade, Paulo Francis é paradigma do intelectual raivoso no Brasil. Nobilitado pela resistência pasquinesca permitida pela ditadura, apoiado em cultura trotskista obtida folheando os Profetas de Deutcher, pousou de intelectual esquerdista para, nos anos 1980, quando a partida parecia perdida para sempre, passar de mala e cuia à apologia neoliberal, onde sua essência e seu estilo de pensador vulgar encontraram o material e a forma que lhes correspondiam.
Um poço de mediocridade
Apesar de sua sacralização midiática, jamais conseguiu retirar do anonimato a produção ficcional com que pretendia conquistar a absolvição do pecado consciente de pensador mercenário. Cabeça de Papel (1977) e Cabeça de Negro (1979) consagraram-se como ficção pobre de escritor de pretensão imensas e recursos minúsculos. Sua ensaística escorreu pelo ralo do esquecimento merecido com singular velocidade. Com tanto, jamais se fez tão pouco.
Paulo Francis não inventou o gênero, foi apenas a expressão de mais sucesso de espécie que se reproduziu como micose em pé de atleta quando do tropeção histórico do mundo do trabalho, da razão e da racionalidade. Jornalistas, historiadores, intelectuais e farsantes de variado coturno foram acolhidos, de braços abertos, pela grande mídia brasileira e mundial, voltada desbragadamente à formação das consciências, em lugar da informação da opinião.
O intelectual raivoso é praga mundial que golpeou igualmente o mundo acadêmico, onde filósofos, historiadores e cientistas sociais como Furet, Fukuyama, Henry-Lévy, Stéphane Courtois trocaram a credibilidade pela grande difusão midiática e editorial, produzindo para tal apologias já senis no momento do nascimento, como O fim da história, O livro negro do comunismo, Pensar a revolução francesa.
Metáfora macabra.
Hoje, no Brasil, centenas de ideólogos praticam, em forma permanente ou episódica, profissional ou aficionada, essa espécie de jornalismo cultural marrom, dignificados pelo espaço cativo que ocupam na melhor mídia, nacional e regional, retribuição pelo estupro sem pudor da mais comum inteligência, em reafirmação plena do dito cínico de que “é dando que se recebe”.
Ainda que totalmente descartável, o intelectual raivoso não é jamais biodegradável. Verdadeira metáfora ambulante, materializa no fel que destila a feiúra e a violência do mundo que proclama, onde a esperança, a solidariedade e a igualdade são palavras e idéias nefandas, acusadas de corromper o próprio ar em que reverberam, sempre cintilantes, ainda que desmaiadas e estranguladas.
Na sua progressão arrastada, o intelectual raivoso deixa atrás de si o rastro pútrido da reafirmação das visões culturais obscurantistas ensejadas por ordem capitalista que, em estágio senil consolidado, propõe apenas a inevitabilidade da miséria, da desigualdade, do egoísmo, do individualismo, da fome, da guerra e da morte. É cadáver que se crê vivo, rondando pelo mundo, aos gritos, na vã tentativa de assombrar a vida.
Mário Maestri, 56, é historiador, e-mail:
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Paulo Francis por ele mesmo Entrevista publicada na edição n. 17 da Revista Status. Extraída do livro "Paulo Francis - uma coletânea de seus melhores textos já publicados", da Editora Três Ltda, em 1978. (trechos)
Status - Por que esse longo exílio nos EUA? P.F. - Eu não sou um exilado. Recebi até uma proposta de um exilado brasileiro, um autêntico exilado, de colaborar numa coletânea de memórias de exilados, mas o fato é que sou um expatriado, alguém que escolhe viver num país estrangeiro, mantendo, porém, a identidade nacional própria, enquanto que o exilado é forçado a morar fora, ou, num segundo sentido, é uma pessoa que se integra numa nação e cultura diferentes. Nenhuma das duas definições se aplica a mim.(...) Vou ao Brasil frequentemente (...) Vivo nos EUA porque nada tenho de melhor para fazer no Brasil. (...) No estrangeiro, apesar de escrever sobre temas, digamos, internacionais nunca escrevi tanto sobre o Brasil, nunca pensei tanto no Brasil, nunca procurei tanto entender o Brasil.(...) Eu acho mais fácil entender o Brasil dos EUA do que no Brasil.
Status - Há um boato que você subempreita, porque escreve em tantas publicações. P.F. - Há outro melhor, aqui, que, se colocando um níquel de 25 cents na minha boca, sai um artigo. Mas, lembre-se, eu não sou um repórter, sou um comentarista. Em suma, o que escrevo, embora envolva o contato com pessoas, entrevistas, etc., é, em geral, minha opinião sobre acontecimentos. E tenho muitas opiniões sobre todos os assuntos. Como não acredito em rigorosamente nada, me interesso por tudo.(...)
Status - E o jornalismo, você acha uma arma? P.F. - Depende de quem faça jornalismo. Em geral, jornalismo é um produto de consumo. Eu próprio produzo bastante para puro consumo, se bem que desafio quem não encontre em qualquer trabalho meu, por mais banal o tema, uma crítica política e ética. (...) Quando fui crítico de teatro, meu início, o que eu queria era mudar o teatro brasileiro, e não emitir boletins de consumo para eventuais fregueses-espectadores. Na revista Senhor, a original, de que fui um dos editores-fundadores, meu negócio era criar uma revista de cultura viva, no Brasil, de contracultura, quer dizer, contra a cultura oficial, acadêmica, autocongratulatória. E na Última Hora, com Samuel Wainer, até 1964, eu queria mudar o Brasil. Não é que eu não aprecie os prazeres da vida (...)ou seja, "prestígio, poder e dinheiro". Aprecio e muito. Sou um elitista cultural. Gosto de autores difícies, de literatura a música, das melhores roupas, dos melhores quadros, do melhor uísque, do melhor vinho, etc., e que maítres me reconheçam na porta dos restaurantes, me arranjando mesa na hora em que eu entrar.(...)
Status - Mas nos EUA você é desconhecido? P.F. - Exatamente. É um dos preços que pago para completar minha educação, a perda de status. Aqui, sou apenas mais um jornalista estrangeiro, com acesso reduzido à imprensa americana (publiquei alguns artigos), e isso já me deprimiu bastante, principalmente nos primeiros anos. Perda de status dói paca, para usar uma expressão pasquiniana. Em compensação, como sugeri, hoje tenho uma visão de mundo completa, quer dizer, que eu considero completa e que duvido (não é impossível) que se altere nos essenciais. (...) Eu tive muita sorte como jornalista, como já disse. Quem me deu minha primeira chance foi o Hélio Fernandes, na falecida Revista da Semana, que ele dirigiu um tempo. Daí fui para o Diário Carioca. Foi um jornal tecnicamente revolucionário, que terminou com o lero-lero das reportagens intermináveis, em que o repórter era a estrela, e não o assunto. Na Senhor, que foi criação de editores da Delta, Simão e Sérgio Waissman, e que teve como diretor Nahum Sirotsky, pude fazer o que eu mais queria: publicar ficção moderna, artigos sobre serviços que não fossem meros "reclames", como se dizia antigamente, introduzir uma certa franqueza sexual, polêmicas sobre os mais variados assuntos. Senhor criou o clima que permite que hoje a nossa Status exista. Foi um fracasso comercial na época, mas criou uma imagem, uma idéia, um exemplo. Parece brincadeira lembrar que Clarice Lispector, antes de Senhor, era conhecida apenas por uma coterie de intelectuais, ou que Guimarães Rosa encontrou lá o único veículo semipermanente para a ficção dele, que todo mundo celebra, como a de Clarice. Depois Última Hora. Não há dono de jornal mais injustiçado neste país nosso que Samuel Wainer. Ele criou o primeiro jornal popular no Brasil. Nunca o perdoaram. Jornal popular no Brasil, antes e depois de Samuel Wainer, é jornal de crime. Participei ainda de outra revolução, a de O Pasquim. É um assunto chato de discutir em público, porque sou acionista do jornal, um jornal que só tem vedetes, perto das quais Elizabeth Taylor é a própria modéstia e abstenção, mas O Pasquim foi criado pelo Jaguar, aliado ao entusiasmo e capacidade promocional do Tarso de Castro. Nessa frase, para vosso governo, já criei vários inimigos, ou reforcei alguns, quero, porém, ser franco e dizer o que penso, sem desmerecer a colaboração de nenhum dos outros gênios pasquinianos, presentes, passados e futuros. O Pasquim foi uma grande revolução de linguagem, continuou a obra do Diário Carioca. Pela primeira vez, um jornal inteiro escrito de maneira coloquial, usando a linguagem riquíssima que nosso povo cria e que é ignorada pelos acadêmicos e pela maioria da imprensa. (...)
Status - Você nunca teve decepções? P.F. - Duas horríveis. A primeira foi a revista do Diner´s que editei durante um ano, quando os donos desistiram de continuá-la (era oferecida gratuitamente aos portadores de cartão Diner´s, como promoção), que tentei fazer um misto de Pasquim e Senhor, dentro dos modestos recursos disponíveis. E Visão. A figura de Said Farah. Aí está um homem politicamente liberal, economicamente conservador, uma excelente figura humana, ele e a mulher dele, Raymundinha, que animava igualmente a revista. Essa é a minha maior dor-de-cotovelo. Em Visão se criava a primeira revista liberal no Brasil, uma revista dirigida à elite econômica do país, favorecendo o ponto de vista dominante, em economia, dessa elite, porém propondo uma reforma política liberal e, em economia, mantendo o mesmo liberalismo, isto é, dando opiniões contrárias às oficiais. Farah teve problemas econômicos e vendeu a revista a um outro grupo, cujo approach é diferente. Foi o fim de um grande experimento, inédito, em essência, até hoje na imprensa. Conservador no Brasil é, em geral, um reacionário. O conservadorismo liberal de The Economist é que Farah estava criando. Foi-se.
Status - Mas se no início você fez tanto nome como crítico de teatro, por que largou? P.F. - Talvez eu ainda volte. Já recebi uma boa proposta. Não, o negócio não é bem esse. Eu tinha voltado dos EUA, depois de dois anos lá, ou melhor, aqui, e cheio de idéias sobre o teatro, que eu queria dirigir e até representar. Achei o teatro brasileiro uma joça. Dois amigos meus, o dramaturgo Francisco Pereira da Silva e o, hoje, diretor de teatro na Bahia, João Augusto, eram críticos, o primeiro do Diário Carioca, João da Tribuna da Imprensa. Uma noite na Gôndola, depois da estréia de um abominável Volpone, pelo Teatro Brasileiro de Comédia, estávamos os três lá, ponto de gente de teatro, quando começaram a chegar os atores da peça. Foram cumprimentados afavelmente pelo Chico Pereira e João. Eu perguntei a eles: mas vocês não detestaram o espetáculo? Eles responderam que sim, mas que, no Brasil, não valia a pena abrir polêmica (palavras proféticas, digo eu, em 1975). Fiquei furioso e insisti (para que baixassem a ripa no espetáculo. Eles me fizeram uma proposta: que eu me tornasse crítico de teatro e desse o exemplo, que eles seguiriam. Dias depois, fui procurar o Hélio Fernandes, na Revista da Semana, a quem eu conhecia ligeiramente, via o Millôr Fernandes. Me apresentei, disse que não tinha experiência, o Hélio me cortou rápido e me perguntou se eu queria realmente fazer uma seção de teatro pras cabeceiras. Respondi que sim e fechamos. O Hélio tinha transformado a Manchete de fracasso em sucesso e, agora, queria fazer o mesmo pela Revista da Semana. Talvez até conseguisse, se não tivesse meses depois pedido demissão. Só que a Revista da Semana não tinha recursos. Ou melhor, dispunha de um recurso poderoso: a inteligência, a audácia e a energia do Hélio. Falam que escrevo demais. O Hélio escrevia praticamente a Revista da Semana inteira, fora uma ou outra seção, usando vários pseudônimos. Bem, comecei a baixar o sarrafo em tudo o que achava ruim, e o Chico Pereira e João Augusto seguiram na mesma batida. Falando nisso, na época, eu levava uma semana compondo um artigo. Só quando passei a crítico diário do Diário Carioca e, por uns meses, crítico de cinema do Jornal do Brasil é que adquiri a experiência e confiança. So se aprende a escrever escrevendo diariamente. Não há outra fórmula. Fizemos, voltando ao teatro, uma ligeira revolução de gosto. É verdade que foi uma coincidência de vontade individual e de uma era. Queiram ou não, o governo Juscelino Kubitschek foi um dos períodos mais agradáveis da história brasileira, não só pelas liberdades públicas, indispensáveis, claro, mas, pelo otimismo, pelo fomentar de esperanças do presidente, que nos contagiou a todos, ao menos, a meus amigos profissionais. Tinhamos a impressão de que tudo era possível no Brasil daquela época. Hoje me acho ingênuo ao imaginar que, fazendo crítica de teatro a sério, fosse mudar séculos de atraso cultural e econômico, mas sem esse tipo de expectativa louca nenhum país ganha identidade e se encontra. Esse espírito empreendedor continuou até 1964 e chegou mesmo ao paroxismo, se já tingido de desespero, no "intervalo" de 1964 a 1968. Pense só no Cinema Novo, no Teatro Oficina, no Teatro de Arena, no Chico Buarque, foi uma pequena renascença nacionalista. Uma estréia de teatro de Dias Gomes, Guarnieri, Vianinha, Millôr, ou qualquer dos nossos autores sérios, era um acontecimento cultural, a que comparecia gente de toda espécie, de intelectuais a políticos, à grã-finagem.
Status - Mas não era esnobismo tentar impor critérios europeus e americanos a artes brasileiras? P.F. - (...) A influência estrangeira na minha família era muito forte, logo eu não me dava conta de Brasil, no sentido em que entendo hoje a palavra. E, na minha infância, nos anos 40, começou a enxurrada cultural americana sobre nós, principalmente em cinema e música. Perdemos contato com a Europa Ocidental, durante a guerra. Viamos o mundo pelo prisma de Hollywood, dos Sinatras e Bing Crosbys. Tudo isso, que inclui prazeres por certo, resultou da minha parte numa alienação quase que absoluta. Problemas sociais e políticos simplesmente não me passavam pela cabeça. Meu primeiro gosto de Brasil foi quando viajei, como ator, com o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, pelo Norte e Nordeste. Lembro que fiquei estarrecido ao ver aquelas fileiras de gente morrendo de fome, em Fortaleza, Ceará, durante uma seca. Essas coisas inexistiam em Botafogo, Copacabana, Ipanema e Leblon, que era por onde eu andava. Como crítico de teatro, comecei exigindo que todo mundo virasse Old Vic de Londres, com um Shakespeare à altura, e terminei um escandaloso propagandista do autor nacional, do diretor nacional, da temática nacional, acima de tudo. É uma lição que muita gente precisa reaprender no Brasil de hoje e, no caso da juventude, aprender.
Status - E como você concilia isso com a vida em Nova York? P.F. - Nova York é uma síntese política e cultural do mundo moderno. Tem Terceiro Mundo nas favelas de negros e portoriquenhos, a alta cultura das sinfonias e das grandes editoras, um sistema de comunicações incomparável da CBS-TV ao New York Times, a riqueza absurda de Wall Street, os sofrimentos que levam a sentimentos fascistóides de uma classe média amedrontada, uma confusão étnica, única no mundo, uma sujeira, uma violência, uma grandeza, uma civilização, incomparáveis. Na posição de observador a que fiquei restringido, é o melhor ponto possível. E tenho grandes afinidades com a cultura americana. Todo dia abençôo Thomas Jefferson por ter redigido a Primeira Emenda da Constituição dos EUA que proibe taxativamente o Congresso de fazer leis que atentem contra a liberdade de expressão. É possível imaginar um outro país que, em guerra sangrenta no Vietnã, tivesse pelo menos 1/3 da população violentamente contra e milhões de pessoas nas ruas protestando? (...)
Status - Assuntos pessoais. P.F. - Sou um homem bem casado, um tranquilo habitante, que passa a maior parte do tempo escrevendo. Isso me cansa mas me agrada. Sou profundamente deprimido, a doença do século, sei, mas nem por isso deixa de ser chato. Se não escrevendo, em suma, produzindo, só me sinto à vontade no mundo, temporariamente, sob o efeito de espíritos, como diziam antigamente. Sofro de accidie, para usar a palavra bacana, um senso inerradicável de solidão, futilidade e desespero. A culpa não é de ninguém, pelo contrário nem sei como retribuir o amor dos poucos, porém certos, que gostam de mim. O problema é meu. Eu tenho um hábito, talvez produto do orgulho típico dos deprimidos, de que experimento, em microcosmo, o espírito da época. Nisso, não há como negar, estou atualizadíssimo. As violências e crueldades da nossa era não têm paralelo histórico e nunca, talvez, tenha existido tão pouca esperança, ou saida sequer, intelectualmente aceitável para os céticos. E, se sou alguma coisa, sou um cético.
Status - Mas você gosta do seu trabalho? P.F. - Eu gostaria de escrever um artigo por mês para Status, que não fosse entrevista, porque ando um tanto cheio de celebridades, e uns dois artigos por semana, um num jornal do Rio e outro, em São Paulo, e, claro, ganhar 1 milhão de dólares ao mês. Já que isso não é muito viável num futuro próximo, vou levando. Sempre que escrevo, dou tudo que tenho. Nunca escrevi uma linha mal cuidada na minha vida, de que eu tivesse consciência. E respeito todo trabalho profissional bem feito, não importa o tema. Jornalismo, claro, como tudo, exige o máximo de liberdade. Sem esta, a vida nunca será plena para ninguém, opressores ou oprimidos. Nem por isso confunda minha depressão, que é espiritual, com desânimo. O negócio é tentar sempre. Eu gostaria de fazer um bom jornal, editá-lo, digo, usando a brevidade do Wall Street Journal, a técnica de editar do Sunday Times e o espírito do Le Monde, como modelos para ponto de partida. (...)
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