Fala, Brasil! - Walter Lima Jr. - Cineasta Brasileiro, em entrevista
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Walter Lima Jr. - Cineasta Brasileiro, em entrevista PDF Imprimir E-mail
Escrito por Ana Paula Conde   
Wednesday, 16 March 2005
Walter Lima Jr., um dos principais cineastas do país, diz que, a TV reduz cada vez mais os temas e a criatividade do cinema brasileiro. “O sucesso dos filmes nacionais está relacionado com a auto-estima da população brasileira". Para Lima Jr., os espectadores estão perdendo a vergonha de ver filme brasileiro.

À sombra da televisão

O otimismo do diretor, porém, não é o mesmo quando entram em pauta a qualidade dos filmes e as condições de produção. “Estamos presos a uma hipótese de êxito comercial, gerada pela associação de nosso processo artístico com as fórmulas adotadas pela TV Globo e as ‘majors’...”.

Para ele, o cinema argentino está em fase muito melhor que o brasileiro, em termos criativos: “O cinema argentino está numa fase de grande maturidade artesanal e política, bem superior ao momento em que vivemos (no Brasil). Ainda estamos deslumbrados com as novas tecnologias, o que demonstra claramente a superficialidade do nosso fazer cinematográfico”, afirma. Walter também critica a falta de uma política de distribuição, que permita ao exibidor sustentar os filmes menores nas salas, e a influência da dramaturgia televisiva na linguagem cinematográfica.

"Esse redutor de possibilidades temáticas que a TV impõe está se aproximando do cinema; ou o pessoal do cinema está namorando o sucesso através dessa proximidade com a TV", diz o diretor, que dispara também contra Luiz Carlos Barreto: “Um grande produtor brasileiro, o Luiz Carlos Barreto, enche a boca para dizer que fez 60 filmes. Ele produziu 60 filmes em 40 anos! Se fosse um produtor de linha, teria feito uns 200 filmes, realizado parcerias com franceses, americanos... Não faria somente produção para a família”.

Walter Lima Jr. está preparando um novo longa-metragem, "Os desafinados", que mostra a trajetória de um grupo de músicos sonhadores que querem mudar o mundo. A história, ambientada no Rio de Janeiro, começa em 1962, pula para 1975, no governo Geisel, e termina na época atual. "É uma reflexão sobre o que sobrou do entusiasmo dos anos 60", diz. A pré-produção começa em novembro. No elenco, já estão confirmados Murilo Benicio, Rodrigo Santoro e Jair de Oliveira. Os anos 60 também são reavaliados por Walter no recém-lançado curta-metragem "Thomaz Farkas, brasileiro".

Walter Lima Jr. nasceu em 1938, em Niterói, no Rio de Janeiro. O interesse pelo cinema começou cedo. Em 1957, passou a escrever sobre o tema no "Diário de Povo". Depois, em 1961, foi ser crítico do "Correio da Manhã" e da "Tribuna da Imprensa".

Nesse mesmo ano, conheceu o cineasta Glauber Rocha, por quem foi convidado, em 1963, para fazer a assistência de direção de "Deus e o diabo na terra do sol". O diploma de advogado ficou definitivamente na gaveta e, dois anos depois, ele já estava rodando seu primeiro longa, "O menino de engenho", um dos principais filmes do cinema novo. Em seguidas, vieram ao menos três trabalhos notáveis: "Brasil ano 2000” (1969), “A lira do delírio" (1973-78) e “Inocência” (1983). Os dois primeiros o cineasta planeja lançar, em breve, em DVD, junto com “Na boca da noite” (1970) e “Chico Rei” (1979-85).


Muito se fala da retomada do cinema brasileiro. No entanto, todas as grandes bilheterias são produções da Globo Filmes. Esse sucesso pode despertar o interesse por outros filmes nacionais com menor verba publicitária?

Walter Lima Jr.: O cinema brasileiro não está convivendo apenas com um surto de interesse. O sucesso dos filmes nacionais está relacionado com a auto-estima da população. Deu dinheiro fazer cinema nos primeiros meses do Plano Cruzado, mas logo foi descoberto que aquilo tudo era uma trama do PMDB para se sustentar, e o esquema acabou falhando. As pessoas se envergonharam, e o cinema, que reflete nossa imagem, também sofreu. A conseqüência foi a retração do público.

Agora, estamos vivendo um momento de confiança no nosso projeto de nação. Apesar de suspeitarmos de tudo, de acharmos que todo mundo é ladrão e incompetente, temos muito mais auto-estima do que algum tempo atrás, quando pagávamos muito mais pelo aluguel, e o supermercado alterava o preço dos produtos todos os dias. Abrimos o jornal e vemos a capacidade de recuperação do Brasil. Há um clima de estabilidade.


O interesse do público não é somente fruto do poder de persuasão do marketing?

Lima Jr.: Se todos os filmes realizados pela Globo tivessem sucesso "Casseta e Planeta - A taça do mundo é nossa" teria sido uma coisa extraordinária. Isso não aconteceu, até porque ninguém mais sabe da Copa de 70 e nem que a taça do Tri foi roubada.

Dou aula na PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio. Outro dia um dos grupos de alunos ficou interessado em fazer um documentário sobre um busto de John Kennedy, mas, surpreendentemente, quase ninguém na turma de jornalismo sabia quem era.


A Globo Filmes apenas chegou no momento certo?

Lima Jr.: Somos otimistas por tradição. Temos esperança de que um dia iremos conquistar o universo. É uma doença da qual não nos livramos. O cinema se beneficiou desse otimismo, fato que coincidiu com uma política junto à Globo. Não quero crer que tenha de me submeter a uma determinada estética para ganhar público. Temos um veículo forte ao qual podemos nos associar, mas sem ficarmos amarrados: tanto a Globo em relação ao produto que eu possa oferecer, quanto eu em relação às possibilidades que ela possa me dar.


Está mais difícil fazer cinema fora dos grandes esquemas de produção?

Lima Jr.: Vivemos uma contradição muito grande em relação à experimentação em cinema. Ou o cineasta é radicalmente experimental e, por isso, está fora do mercado; ou ele convive com o cinema industrial, como era o caso dos grandes estúdios de Hollywood e, agora, da TV Globo.

Dentro desse esquema de trabalho é possível produzir alguma coisa que seja independente? É esquisito, mas não é possível. No entanto, existe a impressão de que há certos setores um pouco mais criativos do que outros. Dizem que o núcleo do Guel Arraes é mais interessante do que a média.

No fundo, acho que dá tudo na mesma, mas é o que costumam dizer. No entanto, tudo isso é feito dentro do sistema. O pessoal de cinema trabalha fora do sistema, sem o tripé produção, distribuição e exibição. Nos não temos uma distribuidora e o dinheiro para lançar os filmes.

O que nós temos? A Rio Filme? Ela te dá entre R$ 200 mi e 300 mil para um lançamento. O que é isso em termos de anúncio? Nada. Não é possível colocar publicidade na televisão. É preciso fazer negócio com a TV para ter o produto exibido. Eles fazem a divulgação na estréia e exploram seu filme por três anos.

Já que não existe o tal tripé, pelo menos eu preciso ter a possibilidade de estabelecer um negócio com o exibidor. Mesmo que eu leve o filme de praça em praça, como fez a Carla Camurati com "Cartola Joaquina". Como não tinha distribuidor, ela resolveu sair com a lata debaixo do braço. E conseguiu ganhar dinheiro.


A dificuldade de distribuição não é um problema exclusivamente nacional, certo?

Lima Jr.: "Igual a tudo na vida", o último filme de Woody Allen, só passou no Brasil e na Europa. No mercado americano ele não foi e não vai ser exibido. Olha que loucura! Por que isso acontece? Porque o custo da publicidade dos Estados Unidos é muito alto. Se eles fossem lançá-lo no mercado americano teriam de gastar uns US$ 10 milhões. Não vale a pena, pois o filme não tem espaço. Convivemos com isso também, ainda que em outro contexto. Quando fiz meu primeiro filme, "Menino de engenho", o Brasil tinha 8,5 mil salas de exibição.

Em determinado momento chegamos a ter somente umas 1.300 salas, e acho que ainda não conseguimos recuperar 2.000. Temos agora um processo de criação de salas em shoppings com a implantação de um outro conceito de cinema, uma espécie de pequeno McDonald's. É assim que se vê filme hoje em dia. Não temos salas suficientes, não temos um produto que seja veiculado por um sistema forte, a não ser que se faça acordo com a TV. Os contratos são leoninos. Se o filme não pagar aquilo que promete, o diretor fica devendo à televisão.


Qual é o papel do produtor nesse processo?

Lima Jr.: Ele é uma figura artesanalmente reconhecida, mas industrialmente inválida, com exceção do Diler (Trindade), que tem produzido com certa regularidade. Um grande produtor brasileiro, o Luiz Carlos Barreto, enche a boca para dizer que fez 60 filmes. Ele produziu 60 filmes em 40 anos! Se fosse um produtor de linha, teria feito uns 200 filmes, realizado parcerias com franceses, americanos... Não faria somente produção para a família.


Você foi convidado pela Petrobras para rodar um curta-metragem sobre uma personalidade de sua escolha. Por que escolheu Thomaz Farkas?

Lima Jr.: Quando fui chamado, logo pensei no Thomaz. Ele é uma pessoa adorável e tem um trabalho sem precedente no cinema brasileiro. Com dinheiro do próprio bolso, ele produziu uns 35 filmes documentais de interesse antropológico. A idéia era provocar uma reflexão sobre o Nordeste, mas seus filmes nunca foram exibidos em escolas e TVs educativas, como ele queria.

Na época da ditadura não havia interesse em mostrar produções com o tipo de temática da Caravana Farkas. O Pedro Farkas, filho do Thomaz, é fotógrafo de muitos dos meus filmes. Isso nos aproximou. E a convivência com ele me chamou atenção para o descaso pelas pessoas neste país. Às vezes, convivemos com figuras preciosas e só nos damos conta de que não registramos nada sobre elas quando morreram.


Mas alguns filmes chegaram a ser exibidos e tiveram grande repercussão?

Lima Jr.: Somente em cinematecas. A única exceção foi o longa-metragem "Brasil verdade", que reuniu os quatro primeiros filmes produzidos por ele -"Viramundo" (Geraldo Sarno), "Memórias do cangaço" (Paulo Gil Soares), "Nossa escola de samba" (Manuel Horácio Gimenez) e "Subterrâneos do futebol" (Maurice Capovilla). Esse chegou aos cinemas.

Na década de 70, o Thomaz procurou a TV Cultura para tentar exibir seus filmes, mas a direção da emissora disse que não tinha interesse: os documentários eram em preto-e-branco, tinham muita gente feia e muita miséria. Isso ocorreu no miolo do governo Geisel. O Cláudio Petraglia era diretor da TV Cultura, mas, na verdade, a responsabilidade não foi dele. Havia todo um conceito do que deveria ser o repertório de uma televisão cultural. Esse material da Caravana ficou jogado durante anos.


Os documentários da Caravana Farkas foram os primeiros a retratar uma faceta pouco conhecida da realidade brasileira. Eles foram importantes para sua formação?

Lima Jr.: Vi alguns documentários do Farkas na época em que foram produzidos. Todos têm uma preocupação de fundo ideológico e eu não gosto que me imponham um ponto de vista, sou meio rebelde, prefiro me sentir à vontade para pensar o que quiser. Tenho simpatia pela postura dos cineastas da Caravana Farkas, mas o resultado desse trabalho, hoje em dia, me parece um pouco datado.

Os documentários são muitas vezes narrados de forma engomada, como se os diretores estivessem lendo uma tese sobre o que estamos vendo. Isso não me agrada. Quando vi o filme de Farkas sobre o Hermeto Pascoal entendi o que ele queria dizer. Essa produção não vai ter idade, pois não impõe nada ao espectador. Ele se aproximou do Hermeto na ponta do pé, deixou o cara falar com um sapo, tirar música das abelhas... O olhar atencioso transcende o caráter ideológico. Espero que "Hermeto campeão" seja novamente exibido.


Esse forte caráter ideológico diminui a importância da Caravana Farkas?

Lima Jr.: Não. O Thomaz é responsável pelo moderno documentário brasileiro. Ele tinha vontade e dinheiro. Quem poderia fazer isso? O governo? Naquele momento, nunca. Ele pegou uma turma muito interessante de cineastas e criou um painel do Brasil.

Até hoje, o Thomaz tem curiosidade sobre o assunto. Ele queria voltar aos mesmos lugares para confrontar o país de agora com o dos anos 60: as pessoas registradas ainda vivem? O quanto o Brasil foi transformado pelos meios de comunicação? O fato de os filmes terem ficado um pouco datados não significa que os cineastas que os produziram sigam até hoje a mesma linha ideológica.

Na época em que trabalhou com o Thomaz, Eduardo Escorel era meio sentencioso, mas ele aprendeu a ver o outro e a arriscar. Quando o diretor sai para fazer um documentário, ele pode até ter uma pauta, saber sobre o que deseja falar e tudo mais, mas pode ser surpreendido. A realidade é co-produtora do filme documental. Muitas vezes uma pauta ideológica esconde a realidade. Isso em documentário não é uma coisa boa.

O Escorel fez uma obra-prima chamada "Chico Antônio, o herói com caráter" (1983), sobre um repentista do Rio Grande do Norte, descoberto pelo Mário de Andrade naquela viagem que fez ao Nordeste para pesquisar ritmos musicais. O cineasta soube que ele estava vivo e foi procurá-lo. O Chico recordou o encontro com o Mário. O Escorel registrou tudo, pegou o material e mostrou para um companheiro de viagem do Mário.

O pesquisador, já velho, viu o repentista cantando e deu um depoimento emocionado. O Escorel reuniu as imagens e as levou de volta ao Nordeste. O filme é maravilhoso, mas ninguém pensaria em fazê-lo no papel. Ele foi nascendo.


Como foi o processo de produção do seu novo curta?

Lima Jr.: Comecei fazendo uma longa entrevista com o Thomaz. Depois, tivemos uma nova conversa em cima de todos aqueles assuntos que tínhamos tocado anteriormente e que o impacto do primeiro encontro não me deixou ver. Paralelamente, levantei o material de documentação.

Ele me ajudou muito nesse processo. Queria fazer um retrato bem íntimo, mas não um documentário de louvação, por isso, a única entrevista que o filme traz é com o próprio cineasta. Ele conta como chegou ao Brasil, vindo da Hungria, e lembra o avô, que tinha uma grande loja de material fotográfico em São Paulo, a Fotoptica. O trabalho revela como é forte o sentimento de brasilidade do Thomaz. Ele aparece fazendo caipirinha na última cena.


Você também vai rodar um longa-metragem chamado "Os desafinados". Qual o tema do filme?

Lima Jr.: A história é sobre quatro rapazes cheios de entusiasmo que querem mudar o mundo e fazer um show no Carnegie Hall. Eles representam um momento em que acreditávamos que a contribuição brasileira seria realmente importante e definitiva para o mundo. É um projeto muito ambicioso, que mexe com história e música.

A ação inicial vai de 1962 a 1965. Depois, o filme tem um corte e pula para 1975, no miolo do governo Geisel, quando as pessoas estavam no sufoco. A história termina na época atual, com os personagens já velhos. Diria que no primeiro momento do filme os sonhos parecem se concretizar; na segunda fase, os sonhos parecem estar acabando; e no final, há uma espécie de reflexão sobre esses dois momentos.

Estamos em fase de captação, vamos entrar em pré-produção em novembro. O roteiro já está pronto e estou tentando fechar o elenco. Agora, vou deixar o material na mão de pesquisadores, que vão dar uma rastreada geral. Quero chamar também um bom dialoguista, tipo um Luiz Fernando Veríssimo, para dar o sabor da época.


A década de 60 foi um período de grandes mudanças. Você pretende retratar essas transformações?

Lima Jr.: O Brasil estava mudando e havia uma certa sincronia com a transformação mundial. Víamos a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, o desmonte da máquina hollywoodiana, o surgimento de um cinema independente, a nouvelle vague, a quebra de uma certa rigidez na música popular, o aparecimento dos Beatles... Tudo isso modificou o comportamento da sociedade. Em 1975, as pessoas começaram a se vestir mais à vontade e a deixar de usar paletó e gravata.

Depois, vieram o desbunde e os hippies. Não estou interessado, porém, em fazer um documentário, quero rodar uma espécie de comédia dramático-musical, uma crônica lírico-poética sobre esse momento determinante.

O que há de autobiográfico em "Os desafinados"?

Lima Jr.: O filme tem muito da minha geração. Vi a bossa nova acontecer. Morava em Niterói e dividia o mesmo tempo de viagem com o Sérgio Mendes, o Tião Neto e o pessoal do MPB-4. Trabalhava no "Correio da Manhã" e saía direto de lá para o Beco das Garrafas, onde via os shows daquela rapaziada. Tinha uma curiosidade muito grande por aquele ambiente e seus papos loucos.

Lembro quando o Sérgio Mendes voltou pela primeira vez do exterior. Ele disse: "Não quero viver aqui. Quero viver num lugar onde o lixo é rico". Ele estava bobo com o progresso. As pessoas da minha geração, quando iam participar de algum festival, ficavam espantadas com o que viam lá fora. Hoje, isso é uma coisa banal, porque tudo ficou mais fácil, mas, naquele momento, as distâncias eram maiores. Tinha uma coisa hegemônica hollywoodiana em cima da nossa cabeça, e a informação da TV era insuficiente.

Minha preocupação é tentar traduzir tudo isso de maneira interessante para o público. Vou fazer o filme com Rodrigo Santoro, Murilo Benício e Jair de Oliveira. Quero convidar também o Reginaldo Faria, para interpretar um dos personagens com mais idade, e a Camila Morgado. A francesa Clara Bellar também vai estar no elenco.


Os personagens são músicos e a história começa no auge da bossa nova. Qual a importância da trilha sonora no filme?

Lima Jr.: Além de clássicos da bossa nova, a trilha sonora terá músicas inéditas, que fazem parte do repertório do grupo. Devo chamar três pessoas diferentes para compor as canções, pois não quero que fiquem todas parecidas. No caso do Jair, ele mesmo pode criar o repertório do seu personagem. Tenho falado com muita gente, com o Caetano, com o Ivan Lins, mas ainda não está nada certo. Por que não chamar o Pedro Luís? Há entre os jovens muita gente interessante fazendo uma neobossa. O produtor Bernardo Vilhena vai me ajudar nessa parte.


A história é ambientada no Rio de Janeiro?

Lima Jr.: Sim, mas vamos rodar também no inverno nova-iorquino, por uns dez dias, e fazer uma ceninha em Montevidéu ou Buenos Aires. Quero contar um episódio ocorrido com o pianista Francisco Tenório Júnior, que desapareceu, em 1975, durante a ditadura argentina, quando excursionava com Toquinho e Vinícius de Moraes. Sumiram com ele, talvez tenham confundido ele com alguém, não se sabe. Isso aconteceu justamente na época em que os sonhos pareciam estar sendo detonados.


Quais os critérios para uma boa fotografia de cinema? Ter uma relação estreita de trabalho, como a que você tem com Pedro Farkas, ajuda?

Lima Jr.: Ter afinação com o fotógrafo é o primeiro passo para um bom trabalho. Pedro Farkas é um Stradivarius, mas quem não souber tocá-lo vai encontrar uma rabeca. Ele é um fotógrafo extraordinário, um tradutor, temos uma ligação muito grande. Não que isso não aconteça com outros profissionais. Trabalho muito a idéia da imagem e isso atrai os fotógrafos.

Tenho vários amigos que sempre perguntam: "Vamos trabalhar juntos?". Eles sabem que vou apostar no olhar deles. Tenho uma crença muito grande nas observações do Pedro, assim como ele tem nas minhas. Por mais cauteloso que seja, ele aposta quando invisto em coisas que considera um risco.

Quando estávamos fazendo "A ostra e o vento", por exemplo, o Pedro ficou um bom tempo me perguntando por que a luz do farol tinha de bater na própria ilha. Parei e expliquei que a idéia era representar a onipresença do pai. A partir daí, ele começou a visualizar o filme e a luz passou a ser um elemento fundamental na produção.


A fotografia de cinema influencia a TV?

Lima Jr.: A produção internacional de filmes para a TV é muito grande. Os seriados americanos são todos feitos em película. Essa escolha oferece mais recursos, como profundidade de foco, por exemplo. No Brasil, houve uma utilização do tape, e depois do digital, num nível extraordinário, com resultados acima do satisfatório.

Em termos internacionais, esse fenômeno se deu, em grande parte, graças à entrada de iluminadores de cinema nos quadros da televisão. Antes disso, costumava-se usar luz geral. Tudo ficava muito claro. Hoje, as novelas têm zonas escuras e iluminação lateral. A grande contribuição do cinema para a TV brasileira se deu pela fotografia, não pela direção nem pela dramaturgia, até porque ela é muito específica, lida com o folhetim.


E a TV influencia o cinema? Muitos críticos dizem que o filme "Olga", só para citar um exemplo recente, abusa da linguagem televisiva.

Lima Jr.: Ainda não vi "Olga", mas a maioria das críticas diz que o diretor ignora o tamanho da tela do cinema. Ele prioriza o close, um signo de impacto na linguagem cinematográfica. O ideal é utilizá-lo quando se pretende valorizar, por exemplo, um sentimento muito forte através do rosto humano. É como um adjetivo na frase.

Se um cineasta faz um filme todo dessa forma ele esvazia o impacto do close e transforma tudo em clichê. Essa escolha facilita a produção, pois não é preciso muitos cenários. Fecho a cena nas pessoas e pronto. Não sei se foi o caso do Monjardim, pois ele tinha recursos para fazer o filme.

Acho que para lidar com essa gramática e conseguir fazer uma produção respirar, é preciso ter um certo conhecimento da linguagem cinematográfica. A forma como o filme foi realizado é reflexo da maneira como o diretor se exercitou ao longo dos anos, apesar de "Pantanal e "Ana Raio e Zé Trovão" ter todos aqueles planos gerais, inaugurados por ele na TV.

No cinema, no entanto, o diretor preferiu outro caminho. Ele entendeu a história dessa maneira, mas me parece que a escolha aproxima o filme do drama intimista e faz perder a estatura épica, apesar da produção falar de esperança, de gente devotada a uma causa, de pessoas com capacidade de renúncia. Talvez essa linguagem brigue com a essência dos personagens. Grosso modo, foi o que entendi das reclamações.


"A paixão de Joana d'Arc" utiliza muito o close, mas tem outra abordagem...

Lima Jr.: O dinamarquês Carl Theodor Dreyer rodou essa obra-prima toda em close, mas a produção trata da fé, da crença e da inspiração. A heroína está no momento do julgamento, diante do horror da morte. O diretor encontrou uma maneira única de mostrar a história dela e teve uma cúmplice rara no cinema. A atriz (Marie Falconetti) só fez um filme. Acho, inclusive, que pirou. O diretor a deixava ajoelhada no milho a noite inteira, mesmo que estivesse chovendo, e filmava pela manhã. Ele queria pegar o sofrimento humano. Não me parece que esse seja o caso de "Olga".


O que significa exatamente dizer que a estética da TV está ditando a linguagem do cinema?

Lima Jr.: Quando se fala isso não é tanto sobre aspectos formais. É muito mais sobre superficialidade dos temas, mesmo no caso de "Olga". De acordo com as críticas, a história estaria sendo tratada como qualquer "Sexo, amor e traição", como qualquer filmeco produzido para o mercado.

Esse redutor de possibilidades temáticas que a TV impõe está se aproximando do cinema; ou o pessoal do cinema está namorando o sucesso através dessa proximidade com a TV. Acho que essa é a grande preocupação. Estamos deixando de obedecer a algumas das grandes tradições do cinema.


E quais são essas grandes tradições?

Lima Jr.: O cinema não é uma arte de síntese. Para chegar à tela, ele atravessa várias áreas do conhecimento humano: a literatura, as artes cênicas, a iluminação, a fotografia, a música, a compreensão do ritmo; e também a química e a física, pois lida com o laboratório. Reduzir tudo isso a uma forma é diminuir demais seu potencial. Acho que a reclamação é um pouco essa.

Felizmente, em meio a todo esse processo, está acontecendo um fenômeno de valorização do documentário, formato que não permite influência da televisão. Um dos exemplos máximos que temos para devolver à TV, mostrando como ela é inoperante em relação ao documentário, é o caso do "Ônibus 174", na verdade um filme sobre tudo que não foi mostrado pela mídia. Como o documentário é uma experiência de investigação, o formato preestabelecido não funciona.

O momento histórico e as condições que cercam cada um dos trabalhos realizados no âmbito do cinema, ou mesmo na televisão, são genuínos, não podem migrar de um ponto a outro sem passaporte. Não dá para estabelecer uma fórmula, não dá para dizer que um filme vai dar certo se for feito de determinada forma. Se isso não funciona nos Estados Unidos vai funcionar aqui?


Você se refere à Globo Filmes?

Lima Jr.: Sim, é claro. Se eu fizer acordo com a TV do Sílvio Santos ou com a Bandeirantes não vou ter nem metade dos espectadores, mesmo que o filme tenha o padre Marcelo Rossi no elenco. É preciso ter apoio de uma superestação. Estou preso a essa estrutura, a essa espécie de truste. Só posso entrar no mercado se co-participar desse esquema, que diz o que devo fazer.

Por que não filmar com Murilo Benício e Rodrigo Santoro? Na cabeça de algumas pessoas existe o cast ideal, aquele favorecido pelas novelas e pela divulgação das revistas. É impossível chegar à Globo por meio de um filme com fulano e beltrano.


Seu longa será produzido por ela?

Lima Jr.: Não, não vai, mas vou ter de passar por esse crivo, é impossível não ser assim. Vou procurar uma forma de negociar quando acabar de rodar. Quero ter o comando durante meu processo de trabalho. Se eu estabelecer esse vínculo agora eles dizem os atores que eu devo escolher, querem mexer no roteiro... E a gente nem sabe porque eles estão intervindo, às vezes apenas por vaidade, por fome de poder.


Quais aspectos da realidade brasileira continuam pouco retratados no cinema?

Lima Jr.: Ainda há muita coisa para ser explorada no cinema brasileiro: o choque do moderno com o arcaico, a insatisfação com as injustiças sociais, a questão da terra vista de diferentes ângulos (não apenas do ponto de vista panfletário), o racismo social e étnico, a revisão da nossa história moderna, o desnudamento da nossa história oficial, o mito da modernidade, nossa incompetência em preservar as florestas e os mananciais, a voracidade dos donos do Brasil e a conseqüente indiferença a tudo que nos cerca, os caminhos que encontramos para ascender na sociedade (como o futebol e a televisão), repensar os ideais da nossa sociedade do ponto de vista social e político... Tanta coisa.


Quais foram os melhores filmes brasileiros dos últimos anos?

Lima Jr.: Foi o documentário "Ônibus 174", um filme exemplar sob todos os pontos de vista. Ele reinforma, analisa, reinterpreta e revela aquilo que a mídia televisiva e escrita não teve "tempo" para mostrar. Ele trata da nossa miséria urbana e, sobretudo, da manipulação da informação.


E estrangeiros?

Lima Jr.: Gostei muito do iraniano "Filhos do paraíso", uma pequena obra-prima, realizada com parcos recursos e refinadíssimo olhar sobre as dificuldades de um povo e sua sobrevivência solidária e fraterna.


O que mudou na cinematografia brasileira desde o cinema novo?

Lima Jr.: Sobretudo o ânimo de descobrir o Brasil e a complacência diante do sucesso imediato, em lugar da tentativa de traduzir o que somos por meio de uma linguagem própria. Estamos presos a uma hipótese de êxito comercial, gerada pela associação de nosso processo artístico com as fórmulas adotadas pela TV Globo e “majors”. Uma estética de classe média sem qualquer refinamento de estilo. Mas isso, não exageremos, é um fenômeno mundial. O cinema clipado e "MTVista" deseducou o olhar do espectador. Hoje, temos basicamente um "formato" em vez de um "filme".


Como é hoje o relacionamento entre os diretores do cinema novo?

Lima Jr.: Existe uma memória comum daquele momento extremamente rico, só isso. Em alguns casos, amizade; em outros, camaradagem. O compromisso comum de traduzir o Brasil já não existe como um fenômeno coletivo, um movimento. Vivemos agora o período "cada um por si e Deus contra todos".


Qual o lugar de "A lira do delírio" na sua carreira? Há previsão de lançamento em DVD?

Lima Jr.: "A lira do delírio" representa a aventura extraordinária de viver ao lado do cinema, de deixar que ele seja testemunha dos meus sentimentos mais imediatos. É extremamente original, como experimento, e visceral como vivência. Não sei se é meu melhor trabalho, mas certamente é um filme único. Estou trabalhando para ter uma coleção de meus filmes em DVD: "Menino de engenho", "Brasil ano 2000", "Na boca da noite", "A lira do delírio" e "Chico Rei".


O crítico norte-americano Jonathan Rosenbaum afirmou que vê nos filmes argentinos um forte desejo de repensar questões sociais e políticas, característica que ele não encontra, por exemplo, em "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Qual sua opinião sobre a recente produção argentina?

Lima Jr.: Creio que, no conjunto, o cinema argentino está numa fase de grande maturidade artesanal e política, bem superior ao momento em que vivemos. Ainda estamos deslumbrados com as novas tecnologias, o que demonstra claramente a superficialidade do nosso fazer cinematográfico.

"Cidade de Deus" é bom e talvez seja o ponto de equilíbrio que desejamos entre o espetáculo cinematográfico e a preocupação social, mas é ainda um filme de "denúncia", e não de "reflexão", como observa o crítico norte-americano. "Carandiru" é vago, apesar de impactante como notícia de nossas misérias e injustiças.


O acordo do governo brasileiro com a Argentina no campo da produção e distribuição de filmes poderá efetivamente aproximar a cinematografica latino-americana? Qual a importância dessa integração?

Lima Jr.: Não conheço os termos do acordo, mas acredito que o mercado cinematográfico latino-americano terá de lutar para se livrar do monstro hegemônico norte-americano, que controla nossas salas de exibição e de estar com seus enlatados de segunda linha.


Qual é a sua opinião sobre a proposta da Ancinav?

Lima Jr.: A Ancinav está em discussão. Não sabemos ainda qual será o resultado, mas o debate demonstra um ânimo democrático em estabelecer regras, que são necessárias para termos uma atividade cinematográfica contínua.

Ana Paula Conde, é jornalista e mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense.

trópico

 

O carioca Walter Lima Júnior, de 63 anos, 13 longas e vários curtas-metragens, é dono de algumas obras-primas do cinema brasileiro, filmes como Lira do Delírio, Inocência e A Ostra e o Vento. Em cada um deles esbanja um sentido singular de poesia e delicadeza, num registro lírico e quase metafísico, que, praticamente, destoa do contexto tão típico da produção nacional marcada pelo realismo e violência, com intenções de análise ou denúncia social. (www.noticias.go.gov.br)



Comentarios (7)Add Comment
ELOGIOS PARA A DIREǃO E ELENCO DO FILME
escrito por Visitante, 2005-08-07 19:06:15
PARTICIPEI DO FILME "OS DESAFINADOS" COMO FILHA DA PERSONAGEM DO RODRIGO SANTORO E DA ALESSANDRA NEGRINI. ME SENTI MUITO VONTADE PORQUE O DIRETOR WALTER LIMA E TODA A EQUIPE FORAM MUITO LEGAIS.
BIANCA SALGUEIRO
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escrito por Visitante, 2005-08-07 19:23:57
Parabenizo pela entrevista honesta e clara em suas discussões, pois possibilita ao leitor leigo a informação dos fatos obscuros da fantasia irreal cinematografica. Trabalhei por muito tempo com tv e cinema e quando tentava dizer como a realidade é diferente da fantasia que é apresentada e que o pder fala mais alto em todos os campos. Imagina se falando de Globo........
pq. vcs ainda não inovarão como os cientistas?!!!
escrito por Paulo César Oliveira Mariano, 2006-10-10 21:25:17
oq. eu quero dizer porque não colocarao cameras em lentes de contato para as cenas serem mais real, isso nos aproximariamos mas do resto do mundo.Desculpa usar esse espaço para fazer esse pedido, mas respeito muito seus trabalhos e sonho q. um dia o nosso cinema vai ganhar um merecido oscar.um abraço, Paulo.
CINEMA MACHADENSE (1911-2005 )
escrito por CARLOS ROBERTO DE SOUZA, 2007-02-16 03:11:18
FANZINE EPISÓDIO CULTURAL E REVISTA DO CINEMA MACHADENSE


OLÁ, MEU NOME É CARLOS E SOU O EDITOR DO FANZINE EPISÓDIO CULTURAL E DA REVISTA DO CINEMA MACHADENSE (1911─2005). ESTOU DIVULGANDO O FANZINE PELA INTERNET EM ARQUIVO PDF (DE GRAÇA )!
O MEU MAIOR INTERESSE É DIVULGAR O MEU TRABALHO. CASO QUEIRA VER OS FANZINES ( QUE SÃO IMPRESSOS AQUI EM MACHADO/MG) É SÓ MANDAR UM E─MAIL ,OK?
APROVEITE E VEJA O VÍDEO DA MINHA REVISTA NO YOUTUBE. O LINK É:



http://www.youtube.com/watch?v=WEpox-M6zyw





Produção de Filmes
escrito por Nelson Manso Filho, 2008-01-20 01:35:49
Olá!
Gostaria de saber se o cineasta, daria oportunidade a um amador como eu, de mostrar algumas idéias de filmes de longa metragem que escrevo e tenho escrevido, histórias que podem ser de interesse do mesmo. Terei o maior prazer em apresentar algo que guardo a muito tempo comigo.
Agradeço pela atenção e aguardo as devidas considerações.
Muito Obrigado!
Nelson.
Gostaria de Saber...
escrito por Diana Rodrigues Alves, 2008-04-08 23:09:22
...se teria como eu entrar em contato com ele ou com vocês que fizeram a entrevista, pois faço Radio e Tv e preciso fazer uma matéria sobre cinema brasileiro.
Agradeço desde já!

Diana Rodrigues Alves
O cinema nacional e a história do Brasil
escrito por Marcos, 2008-04-21 18:27:22
Por que não fazer grandes produções usando temas da história do Brasil, como por exemplo; A Guerra do Paraguai (foram inúmeros episódios), a participação do Brasil na segunda guerra mundial, a guerra da lagosta, e muitos outros. Mas fazer filmes bem produzidos, onde o enfoque maior seja dado para as cenas de ação e suspense, a exemplo do que faz o cinema americano à muito tempo. Por que o filme Tropa de Elite fez tanto sucesso? não foi pela forma como foi produzido, dando enfase às cenas de ação bem trabalhadas?. Imagine a batalha do Riachuelo, da guerra do Paraguai, com bons efeitos especiais, bem trabalhada, explorando os nossos grandes heróis nacionais, ou então os bastidores políticos e toda a movimentação militar na guerra da lagosta, mostrando os problemas enfrentados pela marinha brasileira na época, caprichando nas cenas dos nossos navios em alto mar preparando-se para um possível confronto com as forças francesas.Nossa história está repleta de temas para bons filmes.

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