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Nós Temos Razão? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Eduardo Phillipe   
Thursday, 17 March 2005
Eu sou um degenerado. Um materialista. Um depravado da razão. Alguém que não possui sentimentos. E que deveria procurar um analista urgentemente. Praticamente o Pol Pot tupiniquim.


Pelo menos é o que diz um teste da revista Época sobre inteligência intuitiva, elaborado pelo neurologista Martin Portner. Tirei zero. Foi um vexame. Para Portner, meu problema é usar a razão como mecanismo de defesa. Aquela mesma razão que diferencia um homem de um camelo.

É bem verdade que a maior conquista do homem foi a razão. Com efeito, esta habilidade abriu caminho para o controle dos instintos, elevando o homem a posição de animal racional. Não tenho intenção alguma de dizer que os outros animais não pensam, ou que não possuem razão. Muito pelo contrário. Acredito que alguns animais têm mais razão do que muitos intelectuais da badalada cena brasileira. Porém, o instinto humano tornou-se mais maleável; mais manipulável. E isto estreitou os laços entre a humanidade e o progresso, uma vez que este último sempre se contrapôs aos instintos.

Em outras palavras, acredito que a humanidade foi abençoada pelo dom da farsa. Eu não tenho nada contra a farsa. Ela já nos tirou do sufoco inúmeras vezes. Imagine se não existissem espiões infiltrados nas forças nazistas. A farsa é a base de toda a nossa evolução. A forma mais sincera da espécie humana é justamente o bom-selvagem -- o indivíduo puro cuja personalidade é guiada completamente pelos instintos. Por isto, se você usa internet, agradeça a algum selvagem por ter inventado uma balela. Se você anda de automóvel, agradeça a algum selvagem por ter fingido ser corajoso enquanto se borrava de medo.

Isto não é muito difícil de se provar. Coragem e medo, assim como todos os instintos, são encontrados em qualquer cachorro e nem por isto eles foram a Lua -- mesmo com a insistência soviética, diga-se de passagem. Entretanto, é preciso reconhecer que, sem os instintos, a razão não vingaria, já que a premissa básica dos instintos é zelar pela vida. E a razão, separada da vida, não teria muita utilidade.

De fato, eventualmente a razão e os instintos se misturam e torna-se quase impossível distinguí-los. Alguns acreditam que intuição é instintiva. Outros, como Malcolm Gladwell, autor do livro Blink, acredita existir um quê de razão na intuição. Como eu não tenho essa coisa, não posso opinar, porém não retiro sua importância.

Explico.

Poucos usam a razão para votar. A grande maioria se vale da sensitividade intuitiva para escolher seus políticos prediletos e traçar o rumo do país. Talvez, no caso do Brasil, seja um exagero acreditar que o voto trace algum rumo. Tudo fica igual e somos invariavelmente prejudicados. Porém, é válido considerar que a intuição tem grande participação no conceito de democracia.

A democracia é mais uma daquelas velhas verdades absolutas que eu teimo em rejeitar. Ela não me convence. É falha na sua concepção. É uma ditadura da maioria. Substitui a razão pelo consenso, num surto relativista. É fácil encontrar gente que defenda a democracia. O difícil é encontrar alguém que se submeteria a uma cirurgia feita por um fulano que exerce a medicina simplesmente porque algumas milhares de pessoas acreditam que ele tenha essa capacidade.

Aliás, o sucesso da democracia se deu, principalmente, pela ganância generalizada. As pessoas nutrem a vontade de poder. Não importa se elas mandam em alguma coisa. O importante é votar. O importante é apertar botõezinhos. E esgotar seu direito de cidadão.

Nas conquistas do homem, a razão nunca trabalhou sozinha. Sem a ganância, o homem não sairia do lugar. Agora, com a democracia embriagando a ganância humana, a razão perde a força e paramos a viagem na estrada do progresso.

Tornamo-nos os bons-selvagens da urna; os camelos da democracia.

Eduardo Phillipe, cursa Economia. Alinhado à direita liberal, é influenciado por personalidades do calibre de Roberto Campos, Mário Henrique Simonsen, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Locke, Paulo Francis e Olavo de Carvalho. Profissionalmente engajou-se com a área de publicidade. Seu site: http://eduphillipe.blogspot.com email:  Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (1)Add Comment
blink
escrito por Visitante, 2005-07-22 13:37:50
gostaria de saber onde encontrar o livro blink.
obrigada
lu torello
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