Confesso que sofri. Tudo começou quando o Idelber Avelar, professor de literatura e criador do excelente blog O Biscoito Fino e a Massa, propôs que blogueiros e seus leitores participassem de uma eleição dos dez melhores discos de música popular brasileira, lançados entre 1950 e 2005.
Foi aí que começou o meu suplício, porque, como todos bem sabem, listas serão
sempre incompletas, voláteis e insuficientes para abarcar todas as nossas
preferências.
Diversos álbuns entraram e saíram da minha lista a todo momento. Dentre os que
ficaram de fora, destaco:
"Chega de Saudade" (1959), o longplay de estréia do Mestre João Gilberto.
Não emplacou a lista porque considerei injusto incluir em meu Top 10 um álbum
por causa de duas irretocáveis obras-primas ("Chega de Saudade", para mim a
melhor e mais importante música de todos os tempos na história da MPB, e
"Desafinado") em meio a outras dez canções que não fazem parte do meu rol de
prediletas da casa.
Este foi o único momento em que lamentei o fato de coletâneas não poderem ser
incluídas na votação, porque senão "O Mito" (1993), compilação que reúne
as gravações dos três primeiros álbuns de João (e que, diga-se de passagem,
encontra-se fora de catálogo porque João Gilberto acionou a Justiça a fim de
impedir a venda desta coletânea criada pela gravadora sem sua prévia
autorização), seria o primeiro lugar de minha lista.
"Falso Brilhante" (1976), de Elis Regina, indubitavelmente a nossa maior
intérprete, em um disco que, além das belchiorianas "Como Nossos Pais" e "Velha
Roupa Colorida", apresenta duas de suas mais emocionantes gravações:
"Fascinação" e "Gracias a la Vida";
"Roberto Carlos" (1969), álbum de transição entre a Jovem Guarda e a fase
"cama-e-mesa", que apresenta três das baladas mais matadoras do parceiro do
Erasmo: "As Curvas da Estrada de Santos", "As Flores do Jardim da Nossa Casa" e
a excepcional "Sua Estupidez". De quebra, é o disco com a melhor performance
soul do Rei: "Não Vou Ficar", composição de Tim Maia;
"Vivendo e Não Aprendendo" (1986), a obra-prima do grupo paulistano Ira!,
repleta de clássicos dos anos 80 como "Envelheço na Cidade", "Dias de Luta",
"Flores em Você" e a pungente "Quinze Anos", um dos melhores retratos já
traçados a respeito dos desconcertos daquela fase em que temos tantas espinhas
na cara quanto dúvidas existenciais.
Enfim, antes que eu comece a recordar mais ausências, melhor deixar os
preâmbulos e partir para a publicação da minha lista. Mas fica aqui o convite:
participe você também da votação, seja postando suas escolhas em seu blog, seja
publicando-as neste espaço de comentários.Os resultados serão publicados em
breve pelo Idelber em seu blog, isto se ele não perder antes a sanidade depois
da trabalheira que ele terá para computar todos os votos... (o resultado
saiu, vide abaixo*).
* * * * *
1) "Tropicália ou Panis Et Circencis" (1968). Ouça uma balada com a
beleza de "Baby". Pense nos recortes justapostos das letras de Capinam, Torquato
Neto, Tom Zé, Gil e Caetano, retratos do contexto conturbado de tempos
imediatamente pré-AI-5. Viaje com os fantásticos arranjos de sopros e cordas
criados pelo genial Rogério Duprat. Deleite-se, com sorriso nos tímpanos, ao
ouvir as subversivas regravações de "Coração Materno" (de Vicente Celestino) e
do Hino do Senhor do Bonfim, e a maviosa voz de Nara Leão em "Lindonéia". E
desfrute, enfim, de um álbum-conceito que consegue ao mesmo tempo soar
assombroso e acessível, experimental e pop, caótico e coerente, renovador e
assobiável.
2) "Construção" (1971) - Chico Buarque. Um dos maiores, senão o melhor de
todos os letristas da MPB, imortaliza aquela que talvez seja sua obra-prima em
versos na música que dá nome ao álbum. Em plena era Médici, "Construção" traça
um retrato concreto (e, ao mesmo tempo, um desenho mágico) da realidade embotada
do trabalhador brasileiro, em versos proparoxitonamente antológicos. Mas, para
além de "Construção" e de sua canção-irmã "Deus lhe Pague" (ambas com arranjos
do mestre tropicalista Duprat), Chico gravou ainda outras canções que merecem
lugar garantido no cânone de sua obra, como "Cotidiano" ("Todo dia ela faz tudo
sempre igual/ Me sacode às seis horas da manhã/ Me sorri um sorriso pontual/ E
me beija com a boca de hortelã"), "Desalento" e "Valsinha".
3) "A Tábua de Esmeralda" (1974) - Jorge Ben. Muito antes de mudar seu
sobrenome para Benjor, Jorge chegou ao auge neste álbum que miscigena soul,
samba, jazz, bossa nova, funk e blues, amalgamados com um estilo único de tocar
violão e letras misticamente delirantes. Do clima descontraído das gravações
(que perpassa todo o álbum) até a genuína inspiração (ir)responsável por gemas
do suíngue como sincopada
"Brother", a galanteadora "Minha Teimosia é uma Arma pra te Conquistar" ou a
hipnótica "Errare Humanum Est", este álbum por si só já garantiria a Jorge um
lugar entre os maiores da MPB.
4) "Dois" (1986) - Legião Urbana. Juventude, transgressão, rebeldia
contra o establishment, esperança ingênua em mudar o mundo: sim, todos nós já
fomos jovens. E, em se tratando de rock nacional, não há trilha sonora mais
adequada para essa etapa da vida do que Legião Urbana. Ao contrário da
pasmaceira vigente no BRock que toca nas FMs atualmente, à base de músicas que
parecem orbitar no mesmo repetitivo binômio sexo/maconha, a Legião faz sucesso
até hoje por abordar em suas canções assuntos efetivamente relevantes como
política, religião, amor e as decepções com a vida em geral. Em "Dois", Renato
Russo alcança o equilíbrio preciso entre a revolta punk e o lirismo de
composições como "Tempo Perdido", "Daniel na Cova dos Leões", "Acrylic on Canvas",
"Quase Sem Querer" e aquela que talvez seja a mais bela de todas as canções
sobre o desencanto juvenil, "Andrea Doria", dos versos "Quero ter alguém com
quem conversar/ Alguém que depois não use o que eu disse/ Contra mim".
5) "Cartola" (1976). Nascido em 1908, o carioca Angenor de Oliveira
ganhou o apelido de Cartola porque, quando trabalhava como pedreiro, usava um
chapéu para evitar que seu cabelo ficasse sujo de cimento. Aos 20 anos, fundou
com mais sete amigos uma escola de samba no subúrbio em que morava: a Estação
Primeira de Mangueira. Por anos a fio compôs diversas músicas, dentre eles os
primeiros sambas-enredos de sua escola, sempre convivendo com dificuldades
financeiras. Cartola só veio a gravar seu primeiro disco em 1974, aos, vejam só,
65 anos de idade, graças aos esforços do produtor Marcus Pereira. Em 1976, foi
lançado o seu segundo álbum (e o meu predileto). Algumas de suas canções: "As
Rosas Não Falam", "O Mundo é um Moinho", "Preciso me Encontrar", "Ensaboa
Mulata" e "Cordas de Aço". Preciso ainda justificar a inclusão desta
jpreciosidade em minha lista?
6) "Ideologia" (1988) - Cazuza. Em abril de 1987 Agenor de Miranda Araujo
Neto amargava as primeiras crises decorrentes da Aids que já minava seu
organismo. Contra a iminência da morte, veio a sua resposta através da música:
"O meu prazer/ Agora é risco de vida". Ao mesmo tempo, Cazuza traça um retrato
daqueles tempos pós-Cruzado ("Não me ofereceram/ Nem um cigarro/ Fiquei na porta
estacionando os carros/ Não me elegeram/ Chefe de nada/ O meu cartão de crédito
é uma navalha"), enquanto flerta com a bossa nova e a MPB em composições como
"Faz Parte do Meu Show" e "Um Trem para as Estrelas" (em parceria com Gilberto
Gil), atingindo o auge do seu lirismo com "Blues da Piedade" ("Vamos cantar o
blues da piedade/ Porque há um incêndio sob a chuva rala/ Porque somos iguais em
desgraça").
7) "Foi um Rio que Passou em Minha Vida" (1970) - Paulinho da Viola.
Filho de um dos integrantes do Época de Ouro, considerado um dos maiores grupos
de choro da história, o jovem Paulo presenciou desde garoto tertúlias musicais
com nomes como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Felizmente não sairia imune
dessa vivência musical. Ainda jovem, ingressou na ala de compositores da Portela
e emplacou, em 1966, seu samba-enredo "Memórias de Um Sargento de Milícias",
campeão do carnaval daquele ano. Em 1968, aos 26 anos, gravou seu primeiro disco
solo. Um ano depois, venceu o último festival de MPB da TV Record com o clássico
"Sinal Fechado". Em 1970 lançou novo álbum, em que logo despontou uma canção em
homenagem à sua escola de coração, a Portela: "Foi um Rio que Passou em Minha
Vida". O samba ganhava seu mais novo mestre.
8) "Pérola Negra" (1973) - Luiz Melodia. Filho de sambista, crescido no
bairro do Estácio no Rio, Melodia amalgamou em sua música influências variadas,
que vão do rock ao jazz. Antes de gravar seu primeiro álbum, mostrou à dupla
Torquato Neto e Waly Salomão uma composição inédita. Os dois, imediatamente
fisgados por aquela música, trataram de convencer Gal Costa a gravá-la em um
álbum: era "Pérola Negra". Catapultado pelo sucesso dessa canção, que em sua
peculiar voz ganhou um dos mais belos arranjos que já ouvi em uma música, Luiz
Melodia gravou um imediato clássico da MPB. Além de "Pérola Negra", de versos
contundentemente paradoxais ("Baby, te amo/ Nem sei se te amo"), destacam-se as
gravações de "Estácio, Holly Estácio", "Abundantemente Morte" e "Vale Quanto
Pesa".
9) "Passarim" (1987) - Tom Jobim. Quando se fala no melhor da MPB, não
é concebível a omissão do nome de Antônio Carlos Jobim. Aos 60 anos de idade,
após ter vivenciado a concepção da bossa nova (da qual foi um dos pais), a
consagração nos Estados Unidos (com direito a dueto com Frank Sinatra),
enveredado por experimentações instrumentais (misturando jazz a elementos
tipicamente tupiniquins) e excursões plenamente sucedidas no mundo inteiro, Tom
Jobim gravou "Passarim", que foi, por incrível que pareça, o primeiro Disco de
Ouro da carreira de Tom no Brasil. Como é característico em toda a sua obra,
"Passarim" é um álbum repleto de canções de extraordinária riqueza melódica,
dentre as quais destaco "Luíza" (cuja letra prova que o maestro, além de
compositor, também era versejador de mão cheia), "Anos Dourados", "Borzeguim" e
"Bebel".
10) "Noturno Copacabana" (2003) - Guinga. Fiz questão de incluir este
álbum, o mais recente de toda a lista, porque Carlos Althier de Souza Lemos
Escobar, o Guinga, ainda não recebeu todo o reconhecimento que lhe é devido, e
isso apesar de já fazer por merecer um lugar no panteão dos Grandes da MPB, ao
lado de talentos como Noel Rosa, Chico Buarque, Tom Jobim, Lamartine Babo e
Orestes Barbosa. Neste que é o seu sexto álbum, Guinga grava parcerias com
letristas do porte de Aldir Blanc, Nei Lopes e Paulo César Pinheiro, resgata as
heranças musicais de mestres como Radamés Gnatalli e Villa-Lobos, mescla
influências de baião, xaxado, choro e blues e grava, ao lado da cantora Ana
Luiza, aquela que foi considerada por ninguém menos que Chico Buarque "a canção
do século": "O Silêncio de Iara". Que mais pessoas conheçam o trabalho destre
mestre, compositor de outras gemas como "Catavento e Girassol" e "Senhorinha".
Pensar Enloquece. Pense Nisto.
http://www.pensarenlouquece.com
Sábado, 12 de março de 2005
Resultados da Votação Discográfica
A "Tábua de Esmeralda", de Jorge Ben Jor (1974), em 1º lugar,
com 76 ptos. Ele já havia blackificado a bossa nova e eletrificado o samba; já
havia abraçado o tropicalismo, já havia celebrado a diáspora negra, mas só em
1974 Jorge Ben Jor – então Ben só – lançava o disco que foi escolhido aqui por
50 eleitores como o melhor da música brasileira popular. Não dá prá dizer que
não está bem escolhido.
Em 2º lugar ficou "Construção", de Chico Buarque (1971), com 62
ptos.
Aqui vai a lista dos 30 primeiros colocados, com os respectivos nºs de
pontos:
3) Elis e Tom (55);
3) Clube da Esquina – Milton Nascimento e Lô Borges (55);
5) Dois – Legião Urbana (54);
5) Tropicália ou Panis et Circenses (54);
7) Krig-ha-Bandolo! – Raul Seixas (45);
8) Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão – Marisa Monte: 40;
9) Afrociberdélia - Chico Science e Nação Zumbi (39) (este disco de Chico
Science teve 11 menções e foi o único disco lembrado por mais de 9 pessoas)
10) Secos & Molhados (34);
11) Transa - Caetano Veloso (33);
12) A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado – Mutantes (32);
13) Chico Buarque – 1978 (30);
14) Chico Buarque 1984 (26);
14) Chega de Saudade - João Gilberto (26);
16) Meus Caros Amigos – Chico Buarque (26);
16) África Brasil – Jorge Ben (26);
18) Fatal - Gal a Todo Vapor – Gal Costa (24);
19) Caetano Veloso 1968 (23);
20) Acabou Chorare – Novos Baianos (23);
21) Da lama ao caos – Chico Science e Nação Zumbi (23);
22) Cartola 1976 (22);
22) Olho de Peixe – Lenine e Marcos Suzano (22);
24) Novo Aeon – Raul Seixas (20);
25) Cinema Transcendental – Caetano Veloso (18);
26) Som Pixinguinha (17);
27) Cabeça dinossauro – Titãs (15);
28) Álibi – Maria Bethânia (14);
29) Clementina e convidados (13);
30) Refavela – Gilberto Gil (12).
Dados: Votaram 50 pessoas, exatamente. 289 títulos diferentes foram nomeados,
de Villa Lobos a Vzyadoq Moe. Se alguém quiser a lista completa, é só me
escrever: Idelber Avelar, acesse
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. Dezenas de blogs linkaram, participaram, fizeram
posts e ajudaram a divulgar. Centenas de pessoas deixaram pitacos aqui e
milhares nos viram papear. A leitora e amiga Cipy Lopes foi generosa com seu
tempo. Recebeu, organizou e contou todos os votos; eu só fiz a soma final.
Muito obrigado a todos e especialmente a ela. Eu quase pirei fazendo esta
brincadeira, mas valeu a pena: conheci um bocado de gente bacana, fiquei
sabendo mais sobre os amigos que já conhecia e recolhi dados valiosíssimos
para trabalhos futuros sobre música brasileira popular.
Deixo a interpretação dos números a cargo de vocês: Celebro a vitória de Ben
Jor, a presença de Raulzito no top 10, o record de menções de Chico Science e,
para dizer a verdade, não me conformo muito em ver Legião Urbana no top 10 no
meu próprio blog, com um disco que não está entre os 100 melhores feitos no
Brasil na década de 80. Mas enfim, vocês escolheram, não era meu papel fraudar
a eleição – eu moro em New Orleans, não na Flórida. Além do mais, não dava
para negar que o resto está bem escolhido. Parabéns, eleitores.
fonte: O Biscoito Fino e a Massa (autor: Idelber Avelar),
e-mail :
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