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O Governo Lula foi eleito para agendar a alternativa a um modelo econômico de caráter inequivocamente anti-social. Exatamente por isso, foi obrigado a governar para provar o contrário.
" A destruição elimina somente o crescido e o construído até agora, a devastação porém, obstrui o futuro crescimento e impede toda construção." (Martín Heidegger)
O preço da confiança dos mercados foi o aprofundamento do modelo através de reformas econômicas, administrativas e setoriais que solidificam as posições do complexo financeiro-exportador.
Seus porta-vozes oficiosos e oficiais reiteram que disciplina fiscal, controle inflacionário, flutuação do câmbio e livre movimentação de capitais, são orientações "universalmente aceitas" e por isso não estariam mais sujeitas ao debate político.
A alternância de poder serviu para consumo do público interno, para que não se dê conta da gravidade do fato de que nada pode mudar substantivamente.
De que democracia estamos falando então? Pode haver Estado de direito onde marcos regulatórios se antecipam, em uma espécie de especulação invertida, aos interesses dos investidores? Pode haver cidadania na pólis das condicionalidades privadas?
É preciso reconhecer que as políticas neoliberais dos últimos 15 anos minaram fundo as fontes constitutivas de um outro Brasil possível. Sequer existe um capitalismo associado.
"Nosso" capitalismo perdeu os contornos identificáveis, foi fundido e anexado, tanto pela via financeira quanto pela produtivo-comercial.
Ao longo dos anos 90, o desmonte dos eixos econômicos internos de caráter estruturante, a liberalização comercial-financeira e, por fim, a delegação da política macroeconômica para o sistema financeiro internacional, nos aprisionaram em uma crisálida reversa.
As elites que sobreviveram à seleção neoliberal trataram de dar por encerrado o "Brasil por fazer", absolutizando, em seguida, o "Brasil" que deu certo.
As lantejoulas do agronegócio e das gerencias serviçais do capital global mal cobrem o corpo do país moribundo. No campo, especialmente na extensa fronteira agrícola, o progresso é parasitismo assumido.
A alta lucratividade do setor só se viabiliza com depredação ambiental e com precariedade do tecido social. É o paroxismo de uma modernização conservadora que se consolida em suas polaridades extremas.
Nossas grandes cidades são provas materiais da barbárie consumada. Corte transversal do país que triunfa a qualquer custo. Os estoques de miseráveis sub-utilizáveis servem para absorver externalidades do mercado dinâmico, adequando-se à sua lógica flexibilizadora como uma luva.
Elásticas rentabilidades em mercados paralelos da droga, da prostituição, de tráfico de crianças e de órgãos. A forma criminosa generaliza-se.
Redes criminosas de segunda geração, fortemente enlaçadas no mercado formal e no aparelho do Estado, determinam o que compensa ou não.
Órfãos de um destino plural e coletivo, acabamos mergulhando em grupos auto-referentes ou no consumismo concebido para projetar um status sempre superior.
Com volúpia incomparável lutamos para chegar na frente. Daí sermos moda nos países centrais. Uma fonte renovada de inspiração para designers e estilistas. Nossa contribuição exótica ao lifestyle da globalização vigente.
Vivemos sofregamente o agora, com fluidez e cínico bom humor. As elites de lá querem a fórmula dessa ascensão prazerosa, processada em meio à dor e à falta de sentido reinantes.
Aquilo que deveria ser moeda nacional, flutua como sub-moeda que é, instrumento especulativo utilizado adicionalmente quando convém. Metas de inflação no piso e taxas de juro no teto, para que no meio, o rentismo se acomode, infinito.
Gastos públicos na exata medida das migalhas que sobram da extração de superávits primários máximos. Uma nação desmantelada só se faz inteira no marketing institucional orientado, ipsis literis, para vender o país.
Ordens, ameaças e opções pré-fabricadas do oligopólio financeiro-transnacional edulcoradas como "janelas de oportunidade". Profecias auto-cumpridas. Porto tropical preferido dos capitais errantes!
Plataforma preferencial para atender a estratégias de deslocalização industrial e outsourcing de serviços! Títulos top de linha, classificação investment grade!
A "marca Brasil" vai sendo desenhada e pontilhada no corpo da nação derrotada.
Na colônia penal em que a nação prisioneira foi encerrada, o castigo é retroativo.
A origem é o mal. O crime: querer ter sido. Um país não pode ter utopia tão original e generosa. O futuro que insiste em se entranhar no tempo/espaço precisa ser incessantemente socavado. Minucioso controle sobre o que pode ou não se sedimentar como memória coletiva.
Contudo, podemos resistir. Basta lembrarmos, esparramarmos o lembrado, recolhermos as experiências nele inspiradas. E lembrarmos de novo.
Luis Fernando Novoa Garzon, é sociólogo e militante de movimentos sociais por uma outra globalização
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