Fala, Brasil! - A Violência dos Estado Novo Brasileiro Contra Italianos
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A Violência dos Estado Novo Brasileiro Contra Italianos PDF Imprimir E-mail
Escrito por Anita Moser (I)   
Tuesday, 08 March 2005
Este artigo faz parte de um trabalho de pesquisa realizado no sul do Brasil, no Estado de Santa Catarina, nas regiões do Médio e Alto Vale do Rio Itajaí, no primeiro semestre de 1993. Depoimentos de pessoas da primeira e segunda geração de descendentes de imigrantes italianos que aqui aportaram em 1875, vindos do Tirol Austríaco e da região do Vêneto, nos relatam a experiência da trágica agressão à sua identidade étnica a que foram submetidos pelo chamado Estado Novo, entre 1942 a 1945.

A VIOLÊNCIA DO ESTADO NOVO BRASILEIRO CONTRA OS COLONOS DESCENDENTES DE IMIGRANTES ITALIANOS EM SANTA CATARINA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

O controle sobre as minorias étnicas estava sendo desenvolvido pelo governo de Vargas anteriormente à entrada do Brasil na Segunda Guerra. Em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, ao lado dos aliados contra as nações do Eixo, o Estado Novo realizou a campanha nacionalizadora para erradicar as diferenças étnicas através de uma assimilação compulsória.

A construção do «mito da nação» e do «mito da personalidade» do chefe da nação, a exemplo das ditaduras européias, opera-se por mecanismos de persuasão, mas acima de tudo, pela violência garantida por um bem organizado aparelho policial que perseguia e identificava em todo o tempo e espaço, todo o tipo de dissidentes, deixando-se o caminho livre para múltiplas arbitrariedades.

Os colonos são perseguidos na chamada «nacionalização forçada», pelo fato de não terem se integrado nacionalmente através do conhecimento e uso da língua oficial. Interesses ligados à política estadual também foram elementos determinantes na forma como os descendentes dos imigrantes foram atingidos em sua identidade étnica. Estereotipados como «inimigos da Pátria», eram denominados de «fascistas» e «nazistas» e, como tais, humilhados, presos, extorquidos monetariamente e castigados, a pretexto de terem, às vezes, pronunciado uma só palavra em língua estrangeira. A existência de delatores, recrutados, às vezes, entre os da própria etnia, mostra bem a que ponto a violência se transformou em um movimento de todos contra todos, justificados pela política em vigor. Não se respeitava nem o espaço privado. Era governador de Santa Catarina Nereu Ramos, em cujo governo, a proibição de expressar a identidade italiana foi reforçada, por uma aparelho policial extremamente feroz.

Os descendentes dos imigrantes estavam enraizados em um núcleo de valores estáveis, que a língua tinha a missão de conservar e transmitir, tendo, desenvolvido, desde o início, suas próprias escolas, auxiliados pelos governos do país de origem, em articulação com a organização social que a Igreja Católica promovia. Isolados nas montanhas da Serra do Mar e participando nestes 65 anos, de forma cabal, no processo de desenvolvimento econômico e social do Sul do Brasil, como produtores de alimentos, ainda não estavam integrados à língua nacional na década de 40, e, neste mais de meio século, o governo brasileiro não se ocupou de sua integração. A perseguição a estes colonos por motivos de uso do dialeto italiano, representou acima de tudo violência: mortificação do eu, dor, humilhação, desprezo, incompreensão e injustiça, e acima de tudo, a introjeção do medo e da vergonha de se falar a língua de suas origens étnicas (II)

A metodologia adotada nesta pesquisa privilegiou em primeiro lugar a reflexão, em grupo interdisciplinar, analisando as questões referentes à violência e sua constância na trajetória social destes colonos, desde o desenraizamento vivido na emigração forçada, do isolamento e abandono durante novo enraizamento em terras brasileiras, a partir da violência dos Estados envolvidos e da normalidade da violência no próprio processo da construção de sua identidade social.

As entrevistas foram feitas com descendentes de italianos de diferentes classes e categorias envolvidos nos processos abordados. A história de quem viu e sofreu a violência foi registrada através de 24 entrevistados, de origem trentina e vêneta, cujas idades variaram entre 67 e 93 anos, em 7 (sete) municípios: Rodeio, com os distritos de Diamante e Doze; Timbó, Ascurra, Rio dos Cedros, Laurentino, Rio do Oeste, Rio do Sul e Blumenau. Entre as técnicas de entrevistas, privilegiou-se a história de vida e depoimentos. Três questões básicas orientaram estas entrevistas:

1) vivências e práticas educativas na infância e adolescência;

2) conhecimento e participação no movimento integralista;

3) violência sofrida ou vivenciada por familiares durante a perseguição étnica no período do Estado Novo.

Ao darem seus depoimentos, sobre a violência sofrida durante o Estado Novo, os colonos entrevistados deixam claro que eram brasileiros, que queriam falar a língua nacional, mas que não podiam renegar a terra e a língua de seus pais. A política de nacionalização forçada exigia uma integração, sem respeito à identidade étnica. Um silêncio histórico paira ainda sobre estes fatos violentos.

Quanto à reflexão sobre o fenômeno da violência, diversas questões foram levantadas, no que diz respeito à sua possível legitimação, a partir do silêncio que se criou sobre o que aconteceu: até que ponto os Estados Nacionais, desprezando a experiência e riqueza das diferenças culturais, criaram mecanismos e instrumentos para imobilizar e violentar cidadãos, tanto no espaço público quanto no privado, em busca do valor maior da chamada unidade cultural da nação? Por que esta violência se transforma em algo tão banalizado e «natural»? O êxodo da Itália, em condições de penúria extrema, e a construção de sua identidade étnica em terras brasileiras, em condições de isolamento e enfrentamentos de toda a ordem, minimizaram aos olhos dos imigrantes, mais esta experiência de violência, endurecendo sua sensibilidade? Urna cultura violenta, no caso a européia, daria substrato para «naturalizar» esta nova violência? Os valores presentes na constituição de sua identidade cultural, especialmente a identificação com a moral católica, encobriram a violência durante o Estado Novo? Mas os que sofreram a violência, corno a sentiram e como a re-apresentaram? O que significou para as populações, para quem a língua cotidiana, é a única que conhecem verem-se estigmatizadas, diminuídas e desprezadas por usá-la? Como introjetaram este desprezo? Como o repassaram? Seria o fato de não refletirmos sobre esta questão e sobre o próprio conceito de violência, que a faz bastante invisível? Se os «mitos» justificam, até que ponto o mito nação e «Estado nação» amenizaram o fato de ter havido esta violência? O que representou esta violência em termos da redefinição dos valores culturais da época? Em que medida o violentado introjeta os valores do «outro»?

A preservação da identidade étnica pode e deve caminhar junto com a idéia de integração social. Não é nosso intento, neste estudo, exacerbar o seu caráter de vítimas, apontando o dedo indicador para os culpados. Queremos, sim, em primeiro lugar, propor o exame da violência na relação dos diferentes elementos em jogo e colaborar, para que a reflexão do que sucedeu nos preserve de ver estes fatos se repetirem.

Importa também levar em conta que, da mesma forma tempestuosa com que estes fatos ocorreram, foram silenciados e permaneceram desconhecidos pela grande maioria dos descendentes dos colonos, que, no entanto, por quase quatro décadas tiveram vergonha expor sua língua materna em espaço público e transmitiram este sentimento a seus filhos.

Hoje, quando se aprofunda a consciência da necessidade da preservação da identidade étnica e dos valores culturais locais, este estudo pretende ser urna página que passa, assim, a ser parte de sua memória social. Outrossim, constitui-se, também, em um elemento de análise, para os estudos que se fizerem futuramente.

Concluímos que os fenômenos da violência precisam ser identificados continuamente, onde quer que se apresentem e sob que roupagens se escondam, Importa afirmar que este, no entanto, é o primeiro passo somente. O seguinte passo é criar canais de compreensão mútua, abrindo caminhos de comunicação com os diferentes. Pode-se perguntar: a globalização servirá de caminho para criar redes de reciprocidade entre os povos, construindo uma sociedade mais solidária?

Formas de violência física

As violências físicas foram diversas, entre elas a prisão e os trabalhos forçados por longos períodos. Nesta pesquisa, não encontrei pessoas que, no caso, relatassem casos em que tivessem sofrido torturas físicas, a não ser por ocasião da perseguição aos chefes integralistas, que ficaram presos na penitenciária de Florianópolis. Isto não exclui a possibilidade de terem ocorrido abusos contra a integridade física.

A razão da não visibilidade deste tipo de violência pode ser a seguinte: ou as vítimas já faleceram, ou os envolvidos não desejam falar sobre o assunto. O que se averiguou é que o pânico era geral, e a maioria fala do terremoto (III) ocorrido, ainda com muita emoção, 50 anos após terem ocorrido estes fatos.

Durante os trabalhos forçados, chamados de «trabalhar na picareta», pelos entrevistados, as pessoas, sentiam-se violentadas, trabalhavam de sol a sol, não recebiam comida e passavam muita sede. Tinham que levar seus próprios meios de trabalho, como carroças, carinhos de mão, pás e enxadas para efetuar obras públicas. Muitos trabalharam meses neste castigo. Quem trazia comida eram os amigos.Os que eram presas no Alto Vale, eram obrigados a trabalhos forçados, fazer estradas, cavar, demolir morros, só com comida reduzida. De dia trabalhavam e de noite se recolhiam à cadeia.

"Ficaram fora de casa, separados, ficaram um tino, ou talvez mais, fazendo estes trabalhos. E ninguém se atrevia a sair em defesa deles» (Homem, 70 anos).

«Outros, como..., teve que trabalhar na prefeitura, fazendo faxina, como castigo. Ficou muito sentido» (Homem, 86 anos).

«No Alto Vale, colocaram muita gente na picareta. Todos os que tinham carroça, deviam trabalhar de graça» (Homem, 65 anos).

O que ficou claro é que, pessoas que moravam em lugares menores, mais desprotegidos, que eram mais pobres, foram castigadas exemplarmente. Ainda hoje, as pessoas ficam emocionadas, quando comentam a forma como foram desrespeitadas, em diferentes situações. O silêncio, para muitos, parece ter sido o caminho mais fácil.

Outra forma de agressão física era a invasão dos espaços privados, onde a truculência era total:

«Os policiais, mesmo sem ordem de busca, invadiam casas, vasculhavam moradias de pessoas indefesas, queimando livros, jornais e revistas, quadros, verdadeiras relíquias trazidas pelos imigrantes do passado» (Mulher, 86 anos).

O que na verdade foi amplamente utilizado foram os mecanismos de intimidação, a toda hora, em todo o lugar e a todo o instante. No item que segue, é possível averiguar este fato, nas representações dos entrevistados.

Formas de violência psicológica: a imobilização e a mortificação do «Eu» pela técnica do amedrontamento

O amedrontamento como técnica psicológica utilizada foi o óleo que lubrificou toda a engrenagem de dominação e violência. O medo atingiu a todos, tanto no espaço público quanto nos privados. Em quase todos os depoimentos, foram constantes as declarações que afirmavam que, tanto os agentes da Polícia, quanto os espiões e delatores, invadiam até espaços privados os quais não ofereciam segurança alguma. Todos podiam ser surpreendidos e delatados, a qualquer momento. A presença do medo era total, pois os espiões não só rondavam a casa, mas se escondiam embaixo dela, para surpreender alguém num flagrante.

«Era mais os homens que iam para a cadeia. Meu pai, uma noite estava falando com minha mãe e no dia seguinte foram presas, porque um espião foi delatar. Foram presas, levados a Blumenau com mais vinte. Leandro Longo foi quem foi pedir para soltar. Não havia caboclos por lá. Os próprios italianos e alemães era quem denunciava; eles ganhavam e se prestavam para isto» (Homem, 86 anos).

«Eu dormia lá no meu tio, porque meu pai e minha mãe morreram quando eu tinha 14 anos. E daí de noite era para falar bem baixinho. Com muito medo, fechava as janelas, e ia ver se não vinha alguém para espiar se a gente falava. A gente não podia falar e se falava era bem baixinho, se não ficar calado. E calado a gente ia dormir, mas com medo ainda» (Homem, 70 anos).

«Os italianos fechavam janelas e iam dormir calados e ver se havia alguém escutando» (Homem, 86 anos).

Os delatores e espiões aproveitavam festas sociais e bares, para surpreender alguém e denunciar.

«Eles estavam sempre à paisana. Ninguém conhecia» (Homem, 80 anos).

Havia, no entanto, casos de tolerância dos próprios policiais em relação aos colonos, a não ser que estivessem em presença de seus companheiros (IV). Este fato evidencia que se o jogo da violência obrigava a todos a submeter-se, muitas vezes, o bom senso superava o arbítrio.

O medo de ser denunciado tinha diversas razões e entre estas estava o confinamento por 24 horas. Um entrevistado relata o caso de uma família de aproximadamente 12 pessoas que estava reunida, à noite, em casa, planejando o serviço da lavoura para o dia seguinte. Batem à porta! Alguém de casa fala a expressão usual: Avanti, Avanti! (Entre, entre!). A polícia entra, prende e todos seguem para a delegacia, onde ficam presos por 24 horas.

A ameaça de prisão pairava sempre no ar. Esta era mais violenta que a própria prisão, pois instaurava no cotidiano, o cerceamento da vida e do espaço público. De outro lado, o crime de ameaça, ou seja, a da prisão anunciada, era violência, na medida que as pessoas sofriam por antecipação.

«Quando veio a proibição da língua italiana, as janelas não foram mais abertas e nem a porta. Porque nos colocavam na prisão. Todos os meus irmãos foram para a prisão. Eles não sabiam falar português porque não tinham apreendido» (Mulher, 93 anos).

A proibição da língua materna italiana interferiu na vida social, comercial e cultural da comunidade. As pessoas não podiam se expor como o tinha feito até aquele momento. Ficaram amedrontadas e tolhidas em sua vida econômica, religiosa e social, evitando eles mesmos momentos de sociabilidade entre seus iguais. Uma simples expressão poderia indicar que aí estava um «inimigo da Pátria».

«Agora o pessoal ficou tão intimidado, pessoal do interior já não vinha mais para a cidade. Eu me lembro aqui em Mulda - Morro Azul e aqueles colonos lá em cima não desciam mais pra Timbó. Eles vinham sempre, semanalmente, vendendo produtos da lavoura e lá em cima tinha um tamponeiro que trazia pra Timbó, farinha de milho, farinha de polenta, que aqui não se encontrava. Ele trazia, ele tinha freguesia dele 7, 8, 10 fregueses, então ele trazia toda semana a polentina. Um dia ele foi preso, foi levado pra delegacia, mas liberaram, mandaram embora logo. Não veio mais com a polentina. Eu não sei falar português, ele dizia, não posso descer mais» (Homem, 86 anos).

Outro entrevistado afirmou que, aos domingos muitos iam trabalhar na roça o dia inteiro, pois se fossem para à missa poderia comunicar-se e correriam o risco de serem presos por pronunciarem simples palavras.

Houve casos de colonos que criaram estratégias para poderem ir à missa dominical sem serem traídos pela fala. Um entrevistado narra, em seu depoimento que um colono de 80 anos, saia regularmente de casa para ir à missa dominical. No entanto para se garantir contra o perigo de falar em dialeto quando encontrasse no pátio da Igreja ou no seu percurso com seus conhecidos, colocava o cachimbo à boca e só permitia tirá-lo de volta à casa. Era assim que este também se livrava de ir preso por vinte e quatro horas.

A prisão de 24 horas constituía-se numa estratégia de disciplinamento exemplar. Através dela se reforçava, o medo de tudo e de todos. E esta compreensão de que, o que interessava era o amedrontamento, os colonos a expressam continuamente:

«Colocavam na cadeia vinte e quatro horas, soltavam e mandavam embora estes não apareciam mais em público, falando italiano. Era mais para intimidar que eles faziam isto» (Homem, 70 anos).

Além da prisão de vinte e quatro horas, havia outra prática empregada com o objetivo de intimidar e amedrontar e imobilizar: a ameaça de ter que tomar óleo de rícino ou lubrificante como castigo.

Novamente a mesma estratégia disciplinadora se faz presente e se amplia, através dos boatos sempre reiterados. Em todas as entrevistas, quando expressamente perguntados se, realmente, conheciam alguém que tinha tomado óleo, respondiam:

«Aqui não houve ninguém, mas lá, naquela comunidade, fala-se que muitos tomaram, até óleo de carro».

«Falavam que tinham dado um garrafão de óleo para alguém que não sabia falar português. Isto se escutava, não se sabe! Garganta abaixo como se dá para o gado! Escutava-se isto, e por isso todos ficavam com medo e não se falava. Ficavam com boca fechada e não saíam de casa. Isto foi muito forte» (Mulher, 71 anos).

Uma entrevistada relata assim o episódio sobre o castigo de ter de tomar óleo, depoimento este que a mesma escutou da esposa da vítima, neste caso o alemão, de nome C.D., onde transparece o grau de humilhação que esta forma de castigo acarretava:

«Amarraram os braços nas costas e colocaram a garrafa na boca e deram óleo. Aí ele teve que andar, com as pernas da calça amarradas, para que quando o óleo fizesse efeito, as fezes ficassem dentro da roupa. E assim ele ficou por dois dias».

Um expedicionário entrevistado, também se refere à sua experiência sobre este assunto:

«No exército se trabalhava no domingo, e castigavam se falasse língua estrangeira. Mandavam prender e castigar. Eu vi, quando castigavam um soldado alemão, em Joinville. Colocaram ele na mangueira do cavalo e puseram uma borracha da mangueira pela boca e davam óleo e depois botava numa carroça de cavalo e ia embora. Aí ele se sujava... » (VI)

Aqui o «inimigo da Pátria» é animalizado, obrigado a fazer suas necessidades em público. O grau de destruição do «self» que esta violência provoca, não é difícil de imaginar. Talvez, aí esteja presente uma explicação, para o silêncio: quem foi assim castigado, nunca mais recordaria este fato, pela dor e humilhação que o mesmo provocou.

De outro lado, sobre o costume de obrigar o «culpado» a ingerir óleo de rícino (VII), com todas as conseqüências advindas do fato, já era conhecido por alguns. Assim se expressa um entrevistado, demonstrando a funcionalidade desta prática fascista:

«Era um castigo, por exemplo, na Itália existia esse costume no tempo de Mussolini. Ele endireitou a Itália com aquele sistema... . Porque a Itália naquele tempo era uma desordem, aqueles socialismos, a Itália praticamente não tava unificada. Ele endireitou a Itália...» (Homem, 86 anos).

Evidencia-se aqui o grau de autoritarismo introjetado. O que se constatou, muitas vezes, entre os entrevistados, é o fato de afirmarem que diversas pessoas tomaram óleo. No entanto, parece que isto, entre os italianos, ficou somente como crime de ameaça e forma útil de amedrontamento. O que não aconteceu com os alemães pelo fato de existirem relatos comprobatórios desta prática. Conclui-se que o processo de intimidação, através do boato cumpre exatamente um papel fundamental: imobiliza. Embora ninguém veja, o fato está sempre presente.

Se o medo imobilizava a comunidade, como um todo, seus efeitos foram sentidos de modo sui generis pelas crianças nas escolas onde era expressamente proibido falar qualquer palavra em dialeto italiano. Mesmo as professoras de origem italiana foram muito rígidas contra o aluno que falasse qualquer palavra neste dialeto, amedrontando-os. E o que relata uma entrevistada: quando surpreendida pela professora falando italiano, esta, de dedo em riste, assim fala para a aluna:

«Você nunca mais me faça isto. Por hoje eu te perdôo. Na próxima vez vai ser diferente» (Mulher, 67 anos).

Uma professora entrevistada assim relata a ocorrência em sua sala de aula, demonstrando que os delatores, estava especialmente também na escola e neste momento, conseguiam dar vazão a raivas contidas:

«Tinha uma professora que tinha raiva de nós e deu queixa que nós estávamos falando em italiano em sala. Mandaram sargento e inspetor escolar e ficaram uma hora escutando escondidos para ver se a gente falava italiano. [...] Eles assustavam: "Olha se vocês falam língua estrangeira, vai acontecer com vocês o que aconteceu com os outros. Toma óleo"» (Mulher, 70 anos).

Qualificava-se assim o portador desta linguagem como moralmente inferior e desprezível, e isto era reforçado por ocasião das visitas das autoridades à escola. Estes fatos foram identificados por quase todos os entrevistados como um «terremoto» que se abateu, durante a nacionalização, sobre os estrangeiros considerados os «inimigos da pátria».

O depoimento de ex-prefeito, presente à inauguração do grupo Osvaldo Cruz em Rodeio (1942) é elucidativo ao recordar trecho do discurso do governador Nereu Ramos, na ocasião. Ao se dirigir aos alunos, afirmou-lhes que eles eram «brasileiros e que seria preferível que tivessem suas línguas cortadas, do que continuar a falar o italiano». O ex-prefeito (90 anos) relata o acontecido, ainda hoje, com muita emoção.

Talvez para as crianças, isto representasse urna norma a mais que se deveria observar sob pena de ser castigado. Era um «não» somado aos muitos que compunham o seu cotidiano. Essas novas normas sociais encontravam justificação nas normas rígidas de sua própria cultura, onde as ameaças eram constantes.

No entanto, contribuiu neste momento de sua socialização, para «marcar» o idioma italiano, sua língua, como algo desprezível.

Certamente este dado foi deixado no inconsciente como mais uma repressão, invisível mas que poderá explicar a desvalorização da identidade étnica naquele momento histórico. Novamente é a invisibilidade que «atenua» todos os atos violentos.

 Talvez a geração que mais sofreu as conseqüências da desvalorização de sua identidade étnica, foi aquela que estava no período de socialização primária (a terceira geração nascida o Brasil).

Cresceram não com o orgulho de ser bilíngüe mas com o estigma de que sua língua era algo desprezível. Esta cresceu sem ter a consciência de suas raízes culturais. A introjeção desta violência no processo de sua socialização como filhos dos colonos, faz com que, no presente, falar sobre ela produza perplexidades em muitos, dando-se conta da violência sofrida.

A extorsão institucionalizada

A humilhação estava presente em todos os procedimentos autoritários da época da nacionalização forçada, mantendo o dominado mortificado pelo agressor.

Numa sociedade onde o dinheiro ganho pelo trabalho na lavoura era escasso, as perdas materiais e as atitudes de extorsão monetária se constituem numa forma particular de mortificação do «Eu».

Os colonos viram-se presos a uma rede de extorsão e a prisão se transformou em motivo para se praticar esta espécie de violência, como se pode constatar no depoimento que segue:

«As armas como espingarda, eles levavam embora, e se tinha livros, eles queimavam e a pessoa era denunciada, tinha que se apresentar na delegacia e ia para a cadeia, por 24 horas e depois era solto. Cobravam 10 mil reis naquele tempo. Era o dinheiro o que interessava para eles» (Mulher, 70 anos).

Muitos, ou quase todos os entrevistados falam na extorsão como algo que se institucionalizou:

«Aí eu me apresentei, mas ele só queria isto... [dinheiro]. Eles faziam isso só para ganhar dinheiro. Falou italiano, ia para a cadeia. Ia lá, dar os cinco ou dez mil réis» (Homem, 86 anos).

Muitos colonos também viram-se obrigados a desembolsar este dinheiro para não serem denunciados. Os casos de roubos feitos pelos policiais nas suas inspeções eram também comuns.

Estigma de «quinta coluna» - A generalização do estigma de «quinta coluna» (IX) ou nazista para qualquer um que falasse a língua de origem, era um estereótipo inaceitável para estes colonos. Este estereótipo classificava o estigmatizado como traidor da pátria, às vezes a partir de uma simples palavra

«Eu cheguei lá para vender abacates e o sobrinho se esqueceu e falou em italiano, baixinho. E aí eu disse. ‘‘Eu te vendo por 300 réis cada um [em italiano]. O delegado ouviu. ‘Tem que se apresentar". Aí eu fui me apresentar. Aí ele me tratou de "boca grande". Ele não podia me dizer isso! Aí ele me disse que eu era ‘quinta coluna", um boca grande". Isto é um crime!... Aí eu me apresentei... mas ele queria isso... [dinheiro]. E por isso eu fiquei "sujo" lá. Mas a sujeira ele fez, né?»

«O que você sentiu na hora, lembra?»

«Ah? Dor! Porque eu não merecia isto! Porque se eles soubessem todo o meu passado!... Isto não se esquece jamais! Por que se eles soubessem todo o meu passado!... Eu fui um homem que andei direito e que nunca mandei marcar minhas dívidas nos negociantes» (Homem, 90 anos).

No momento em que sua identidade é desvalorizada pela sujeira em que mergulhou pelo fato de ter que se apresentar numa Delegacia como um «quinta coluna» e ser considerado um traidor da Pátria, o estigmatizado em contrapartida invoca alguns dos conteúdos positivos que lhe garantem a sua identidade de colono italiano: seu valor pessoal a partir da construção de sua existência pela prática do trabalho.

«O meu estudo foi em italiano, mas eu sabia muito mais que o professor. Hoje em dia o que eu sei eu aprendi sozinho, por mim mesmo, estudando. Conheceu o Pero Vota? Eu aprendi muito com ele e também ensinei muito a ele. Agora a senhora sabe como pode tirar medida, da altura de uma árvore com a sombra do sol?... Eu sei!...» (Homem, 90 anos).

Todos os conteúdos da construção da vida de colonos, incluem as representações (de um passado de lutas: o trabalho duro na lavoura no início da colonização, a luta pela organização da comunidade, a abertura de estradas, a fundação e pagamento de escolas para os filhos e de Igrejas para a prática da religião. O Estado brasileiro, sempre ausente, é recordado, quando se quer chamar a atenção sobre o próprio valor. Sentiram-se brasileiros, especialmente pelo fato de através do próprio trabalho duro estarem construindo o Brasil. Esta era é a maior fonte de sua valorização.

Evocam também o fato e fundamentalmente o fato de terem servido à Pátria, qualificando-se assim, a si próprios de brasileiros de fato:

«Foi entre 1926 e 1927. Eu era casado. Os nomes vinham no jornal. Eram sorteados. Eu fui sorteado para ir para o Rio de Janeiro. Aí eu disse:"Eu sou casado, quero ficar aqui em Blumenau" e fiquei. Fui lutar em Palmas, Joaçaba, Iratí (Paraná), em Porto União era o nosso acampamento. O gelo quebrava as barracas. Foi uma luta desgraçada. Fui de Palmas. Levei um mês para chegar a Porto União».

O entrevistado (90 anos) fala de um tempo e de um lugar (Porto União) em que a justiça se fazia pelas próprias mãos:

«Naquele tempo não era como agora. Falou em briga, podia contar com a morte».

No momento em que sua identidade é desvalorizada ao ser confundido com um traidor da pátria, é invocado como conteúdo positivo de sua identidade nacional a prestação do serviço militar (IX).Durante as entrevistas se percebe a emoção ao apresentarem o livro do serviço militar, contendo todas as normas e orientações sobre o mesmo. No caso peço o livro ao entrevistado e ele:

«Não vai perde. Tem 13 meses de serviço militar. Quer ver minha carteira? Sabe ler, né? Lê a carteira militar, lê que eu gosto...».

Pergunto então: «Daquela ofensa que lhe fizeram de lhe chamar de "quinta-coluna", lembra ou já esqueceu?»

«Lembro, isto não se esquece jamais. Meu Deus!... sabendo que este negócio está muito errado, desses canalhas que querem se aproveitar de uma pessoa que não tem culpa» (Homem, 90 anos).

O exército era a única instituição que configurava concreta e oficialmente sua identificação com o Brasil. Importa salientar que o exército foi a instituição que lhes possibilitou o aprendizado do português. Em depoimento, um entrevistado conta que seu pai pagava aulas extras de português no exército, gastando para isto todo o soldo que recebia como soldado. Este trabalhou depois como negociante e o conhecimento do português, como meio de comunicação, era importante. Este entrevistado me assegurou que em sua casa falavam o português. No entanto, atribuir a qualquer colono de origem estrangeira, o estigma de «quinta-coluna», por não se comunicar em língua nacional transformou-se em algo banal e corriqueiro, deixando marcas profundas nos atingidos pelo estereótipo.

Fiori (1994) afirma que:

«Se de um lado, o não uso do idioma português era considerado um ato de traição à pátria brasileira, de outro, o emprego (do idioma estrangeiro (independentemente de qualquer analise política) qualificava o falante impunha-lhe um estereotipo, estigmatizava-o; se a língua era o italiano, trata-ia-se de um fascista; se o idioma era o alemão, tratava-se de nazista, um "quinta-coluna"».

Durante a Segunda Guerra, a imagem dos «inimigos da Pátria» foi reforçada diariamente tanto pelas notícias internacionais emitidas pelos Aliados (Agências de notícias norte americanas) de onde eram distribuídas para o mundo como também, pelo serviço de divulgação da polícia na capital federal e muito especialmente no caso de Santa Catarina, pelos jornais de Florianópolis na mão do governo estadual", cuja publicação diária de casos concretos, onde pessoas eram identificadas e presas como «quinta colunas», recriavam no imaginário da população os «inimigos da Pátria», confirmando aos olhos de todos, assim, todas as suspeitas do governo. Assim a violência se legitimava: «Era preciso acabar com esses inimigos».

Esta estigmatização que os atingia mais profundamente pelo fato de se saberem vítimas acusados de um crime que não existia, deixou-os traumatizados. Tentaram resolver esta dor pelo esquecimento dos fatos ocorridos. Mesmo que estes «não se esqueçam jamais» (XII)

Destruição da memória afetiva - Por memória afetiva entende-se o cultivo e o reconhecimento das raízes culturais, representadas por símbolos, como retratos, livros, cartas, objetos, cantos, armas (espingardas que tinham trazido da Europa, e que aqui lhes eram muito úteis), lembranças, enfim, da terra de origem.

A destruição dos símbolos materiais, e da própria língua (XIII) tirou algo que era muito caro a quem os possuía. Destruindo os seus símbolos os colonos foram atingidos emocionalmente. Talvez esteja aqui toda a força da violência simbólica.

Foi destruído tudo o que representou campo de cultura. A destruição da língua materna, como parte da integridade cultural era, na verdade a mais cobiçada, pelo governo como também a destruição da memória cultural representada pelos velhos, que aqui personificavam a memória viva oral. Nesta perseguição, eles foram o principal alvo da violência, com abalos emocionais sobre eles próprios e suas famílias. Estas, de modo geral, se sentiam muito mal com aquilo que estava acontecendo a estes pais ou avós, que não sabiam falar português e que, a verdade representavam a autoridade desprestigiada.

A destruição desta memória foi feita tanto pelos «policiais, que rasgavam e queimavam tudo o que não fosse brasileiro» (Mulher, 71 anos), como pelos próprios colonos, que para não correrem o risco de serem denunciados e terem que ir para a cadeia, preferiam destruir o que representasse este perigo.

«Famílias de Rio dos Cedros tinham pequenas bibliotecas, revistas vindas da Itália, jornais da Itália, quadros, verdadeiras jóias e tesouros e outras lembranças do Rei Humberto 1 e da Rainha, Francisco II da Áustria e a rainha Regina. As famílias, de medo, queimavam os livros, às vezes cartas e retratos também» (Homem, 70 anos).

«Quadros da rainha Margherita e Victor Emmanuele III. Tudo isto foi queimado. Os soldados queimavam tudo o que encontrassem» (Homem, 86 anos).

Muitos, na esperança de reavê-los, enterravam os mesmos ou os escondiam, debaixo de uma pedra. Em todos os depoimentos, constatou-se que os livros nunca mais foram recuperados, pois apodreceram:

«A maioria tinha muito medo. Havia pessoas que queimaram muitos livros, talvez muitas lembranças, por exemplo, imagem de um santo que estava escrito embaixo em italiano, eram queimados e jogados fora. Eram muitas coisas, documentos foram jogados fora, queimados, escondidos. Eu lembro daqueles jornais que eu tinha falado antes: meu pai pegou, botou num caixão, pregou e levou num capinzal, lá em cima, no meio do mato. (Homem, 70 anos).

«O meu pai tinha espingarda e livros italianos, teve que levar tudo embaixo de uma pedra no morro do Arduino Dalpiaz. Se viessem os investigadores e pegassem, ia todos para a cadeia. Os livros apodreceram» (homem, 86 anos).

«O avô tinha coletâneas de livros sempre atualizados. A maior biblioteca. Enterrou os livros» (Homem, 70 anos).

De outro lado, havia ordem oficial de tirar, até dos túmulos, qualquer inscrição em língua estrangeira, e isto vigorava desde 1938, por ocasião da perseguição ao Integralismo (XIV).

O que se pode analisar é que toda esta destruição representou grande ofensa, para aqueles que perderam seus objetos. Isto foi sentido como própria ameaça a sua integridade física, pois destruir objetos queridos é também atingir e destruir os donos deles. Representou, também, a morte da memória afetiva para os filhos da 1° geração, que cresceram sem conhecer suas raízes. Como seres essencialmente emocionais muitos destes espaços interiores foram mortos também.

Um outro momento, muito patético, é o constrangimento a que foram submetidos, na troca de nomes próprios e na insistência que lhes faziam, especialmente no exército, conforme os entrevistados, de que deviam esquecer os antepassados e deixar de falar esta língua atrasada e exótica: a «nação» pede que se esqueçam os antepassados. O dialeto não é língua é algo exótico, atrasado. E preciso abandoná-lo.

No exército os filhos dos colonos tinham oportunidade de aprender o português. No entanto, o exército também incentivou muito o esquecimento dos antepassados. Em todos os depoimentos constatou-se, que havia a vontade de falar e de se comunicar em português. Não só se pedia que se esquecesse os antepassados, mas se incentivava o aportuguesamento dos nomes.

Assim se expressa um expedicionário cujo pai se chamava Giovanni e a mãe Amábile, a respeito do problema que estes nomes italianos passaram a representar para os que desconheciam a língua:

«No exército perguntavam: "Por que teu pai tem esse nome? Por que Giovanni? Mas, o que quer dizer Giovanni?" - "Quer dizer João" - "E Amábile?" - ‘E assim mesmo. E como se lê". Os conselhos que se recebia do exército é que se deveriam esquecer os antepassados» (Homem, 75 anos).

«Até 1936 chamava-me Luigi... . Quando estava servindo o exército, o capitão Manoel Alire Borges Carneiro disse que não ficava bem este nome. Eu era imediato dele. Ele gostava tudo, na ponta da linha. Ai; não levou dois meses e foi trocado o meu nome em Indaial. Eles combatiam muito o comunismo. Devíamos falar o português e esquecer os antepassados. Eu era contra esquecer os antepassados. Eu era contra esquecer, porque eles não tinham culpa de ser italianos. Se eu pudesse, iria, hoje, para a Itália...! Não foi vontade minha trocar. Foi vontade do capitão. Ele dizia que era mais popular e pronunciável (Homem, 76 anos).

Na verdade até aquele momento quase todos os nomes que recebiam o batismo eram os dos santos católicos e eram italianos. A troca de nomes e sobrenome foi, muito empregada pelos próprios italianos, para facilitar a vida, durante a nacionalização forçada.

Outra forma através da qual os colonos foram agredidos em sua identidade cultural era a proibição de escutar rádio da Itália. Os depoentes negam qualquer ligação política com o nazismo e ou o fascismo, ao tentar acompanhar, pelo rádio, os acontecimentos a nível mundial.

Era «saudosismo» diziam. A manutenção da língua, usos e costumes tinham um sentido sentimental. Sabe-se que antropologicamente é o momento da construção do espaço da dignidade, procura de poder e prestígio do grupo.

«Não se podia escutar rádio. (Proibições tempo de guerra)» (Homem, 70 anos).

«Vocês lembram pra quem vocês torciam aqui? Se torciam pela Alemanha ou pela Itália? Durante a guerra de ‘39 pra frente?»

«A maioria dos alemães torciam pela Alemanha, na Itália tinha uma emissora, não me lembro mais o nome dessa emissora, e os italianos que possuíam seus rádios, escutavam o noticiário que vinha de lá, mas não eram por ser a favor ou ser contra o Brasil, nada disso. É que, este ou aquele que escutava aquele noticiário, não era ‘‘quinta-coluna ‘‘, nada disso, escutavam por ser descendentes daquela terra, por saudosismo. Eu, por exemplo, tinha meu rádio e escutava o noticiário que vinha da Itália» (Homem, 80 anos).

Os velhos: a autoridade desprestigiada - Os velhos foram os mais atingidos no que se refere à violência que se abateu sobre uma população que não sabia se comunicar em português (V). Representariam eles, exatamente, a tradição viva de tudo aquilo que era necessário destruir? Seriam os mais vulneráveis? Representariam a autoridade, cuja coluna vertebral deveria ser quebrada? Seriam os mais fracos, já que a prepotência sempre é exercida sobre os mais desprotegidos?

O depoimento que segue exemplifica, explicitando a própria essência da violência: a necessidade de mantê-los subordinados. Assim se expressa um entrevistado:

"Bom, agora podem ficar em casa" disseram os investigadores. Eles vieram de carroça, e naquele dia, alegres pela boa nova de não precisarem mais se apresentar, pararam, no primeiro boteco, tomaram uma pinguinha, ficaram alegres e saíram cantando. Foram para casa. Pouco antes de chegarem em casa, duas curvas antes, dois policiais de bicicleta chegaram mais perto da carrocinha. Avistaram os dois cantando e coisa e tal...:

"VOLTEM."’. Então recomeçaram esta via sacra por não sei quanto tempo» (Homem, 86 anos).

Na verdade bastava uma palavra, uma «parola». Em tudo sobressai o exagero. Mesmo que ninguém desafiasse, abertamente, a polícia, pois a população estava aterrorizada, pode-se facilmente imaginar que uma língua não se muda por decreto. Muitos continuaram falando italiano, com os cuidados que a situação impunha. E mesmo que fosse por uma única («parola» muitos foram parar na polícia. Os exemplos são muitos:

«Meu pai foi na prisão. Eu também fui para levar fumo e meu pai estava diante do Hotel. Falei em italiano (baixinho) se queria ir para a casa. Ele disse que iria comer alguma coisa aí. Aí ele pediu um "Panet com café". A polícia escutou e prendeu. Aí eu fui e disse: "Deixa este velho em paz, que ele tem 81 anos". "Você também está preso!". Aí ele também me prendeu. Fomos os dois na prisão. Aquilino Bona trouxe comida. O meu pai não comeu. Ele disse: "Quando se fica velho se passa de tudo. Nunca precisei de autoridade na vida ". Na hora que fui preso, fiquei perdido. Fiquei ressentido» (Homem, 86 anos, 16 filhos).

«Perguntou quanto custava uma enxada, respondeu com um mero número. Foi preso» (Homem, 70 anos).

Os depoentes avaliam a violência como um «abuso desnecessário» um «excesso», uma «vergonha». O estigma de inimigo da pátria anulou a identidade real e os reduziu ao único aspecto que interessava realçar: não sabiam falar português! Como cidadãos de segunda categoria, assim considerados aos olhos dos governantes, eles tiveram, novamente, a sua cidadania dilacerada e se calaram, introjetaram o medo e submissão. Desenvolveram, também, processos de defesa mútua, como relata um entrevistado que faz comparação entre as atitudes dos italianos e as dos alemães:

«Mas aqui entre os italianos, havia sempre o desejo de se defenderem um com o outro. Estavam sempre de olho, para não caírem as malhas da polícia, eles eram ladinos... Talvez, alguém chamaria covardia, mas da minha parte não, porque em certo sentido, é ser um pouco prevenido, para não ir para a cadeia, deixar um pouco o "barco correr". O alemão, não, ele é mais teimoso. Outros dizem mais decidido, mais consciente. Iam para a cadeia, sofriam os rigores da lei e não queriam ceder» (Homem, 86 anos).

Muitos velhos perseguidos pela polícia e delatores tinham seus prório filhos lutando contra o Nazismo, na segunda Guerra Mundial, como expedicionários ao lado dos Aliados.

A imobilização dos colonos - Os colonos não podem denunciar os excessos e não tem condições de defesa por desconhecerem a língua de seus agressores. Com exceção de algumas poucas pessoas bi1íngüeS, que moravam na cidade, usava-se o italiano em todas as atividades culturais, religiosas e econômicas. A sensação de impotência por não saber se defender no idioma nacional, foi forte em todos os depoimentos:

«Em Rodeio quem sabia se defender eram bem poucos. Quem sabia falar era o Sílvio Scoz, que era o prefeito. Nem o delegado sabia falar português».

Aqui também aparecei com muita clareza, o que Sonia Felipe (VXII) afirma:

«A pessoa para se sentir igual tem que se comunicar nos signos de seu interlocutor. Nesse sentido, o conhecimento da língua é o espaço da dignidade. Defender-se é saber dar uma resposta à altura. Não ter esse instrumento para a comunicação é sentir-se como um verme.»

Outro momento de impotência ante o arbítrio dos policiais refere-se ao fato do abuso sexual praticado contra as filhas dos colonos. Os policiais, aproveitando-se do medo que tinham os colonos de ser humilhados, por possuírem objetos «proibidos», muitas vezes cometiam abusos, assédio sexual, sem temerem serem denunciados pelos colonos, que, amedrontados se calavam. Ninguém reagia.

«Esses investigadores invadiam as casas, às vezes com pretexto de ver se tinham armamentos e livros. Às vezes, desapareciam objetos de valor, em casa; denunciar não se podia, porque naquele tempo, não se podia denunciar.... Havia um investigador, era chamado de Rafael, aquele era um safado pelo seguinte: porque ele ía nas colônias, no interior, ele era meio velho, já casado, ele queria começar a namorar as filhas dos colonos e se não, ameaçava prender os pais. E os pais tinham que deixar. Engravidou moças e depois se mandou» (Homem, 86 anos) (XVIII).

Como conclusão podemos acrescentar que os italianos não reagiram, e, talvez, esta seja uma conseqüência dos historicamente violentados. Sentiram-se, mais uma vez, inferiorizados, por não saberem falar a língua de seu país. Sua entrada no Integralismo fora a primeira tentativa de participação nos destinos do Brasil, e do exercício de cidadania. Foram desarticulados e torturados (ao menos os chefes). Agora cai sobre eles, como um terremoto, mais uma aterrorização que os imobiliza e amedronta:

Paulilo (XIX) pondera:

«Até que ponto o governo precisava de uma população amedrontada? Outras categorias reagiram e conseguiram os seus direitos. Quando os camponeses aderem ao integralismo e pedem os seus direitos, mexem na estrutura social. Getúlio mexeu nas estruturas e a elite cafeeira fez a revolução de 1932, envolvendo outras instâncias. São Paulo queria uma constituição que lhe desse mais direitos. Houve massacres e depois negociação e conseguiram o que queriam. Mas os camponeses?....

Nos depoimentos dos colonos percebe-se que sentiram o castigo impingido como sendo forte demais. A percepção do problema se configura como um excesso desnecessário, pois não havia motivos para serem culpados por um erro que não praticaram. Os depoentes fazem questão de afirmar a vontade que tinham, além de aprender a falar português, ao mesmo tempo, de poderem conservar as raízes culturais, como direito inalienável. «A Pátria é brasileira, mas as raízes são italianas».Ao mesmo tempo, os mais novos afirmam nas entrevistas que, sentindo-se humilhados e tratados como cidadãos de segunda categoria, redobraram os esforços, no intuito de aprender o português, muitas vezes, por sua própria conta. Na verdade, muitos velhos morreram, sem saber falar a língua nacional.

«Mas foi mana coisa forte demais. Pois se é para ter mau país brasileiro, que fala só português, até eu concordava. Mas não haviam escolas. Mas estes que vieram da Itália não podiam ensinar português para mim. Só falavam italiano. Agora, eu falo português de fato. Faço questão mais de falar português que italiano. Aprendi por minha conta. Mas não quero perder o idioma italiano» (Homem, 76 anos).

Pode-se afirmar, como conclusão, que a frustração de não «ser nada» para o Estado nacional pela violência desencadeada, foi sentida e introvertida. O reprimido se cala. Esta emoção fica registrada no inconsciente. Os italianos não falaram mais sobre o que lhes tinha acontecido.

O que sucedeu, pode ser considerado como um divisor de águas, a partir do abalo que o fato provocou na identidade étnica dos colonos, identidade esta compreendida especialmente como fidelidade lingüística no que concerne a transmissão do uso do dialeto.

Como verificação própria avalio que somente em 1975 por ocasião do centenário da imigração um fato novo veio revalorizar a identidade étnica restituindo ao dialeto italiano a sua condição de ser uma língua como as outras. A partir da socialização - via palestras - do estudo sobre a bilingüidade dos colonos de Rodeio que se constituiu na dissertação da professora Andrietta Lenard (UFSC, 1975), a comunidade se conscientizou do valor de sua língua italiana.

Até a década de ‘70 quando se perguntava a um colono se falava o italiano, a resposta vinha pronta: "Não, só falo o dialeto" (onde estava subentendido que era um pouco mais do que nada). «Somos italianos mas não sabemos falar italiano, só sabemos o dialeto... que não é língua!».

Isto era certamente o resultado da estigmatização ocorrida 30 anos antes. De outro lado o depoimento, 50 anos depois, «Estou reconquistando o orgulho de ser filho de colonos e de falar com orgulho da minha língua materna, confirma que a deteriorização da identidade étnica foi algo concreto. No entanto, não é tão fácil de perceber uma reflexão maior. A violência termina assim o seu ciclo, quando o dominado nega a sua própria dominação.

NOTAS

I - Anita Moser, natural de Rodeio, é professora de Sociologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Tem feito estudos em 1980-83, sobre o processo de trabalho industrial numa fábrica de confecções em Rodeio, onde em 1974 foi utilizada em massa a mão de obra rural feminina do lugar. Em 1990 fez pesquisa sobre a presença do movimento dos "Sem Terra" dos descendentes dos imigrantes italianos vindos do Rio Grande do Sul para o Oeste catarinense.

II - Muitos dos colonos perseguidos tinham seus filhos lutando, na Itália, contra o totalitarismo.

III - "Terremoto" sugere guerra total. É esta a figura de linguagem com que os italias re-apresentam o ocorrido.

IV - O entrevistado fala de um guarda cabolclo, chamado Dionísio, que era bom e condescendente, não prendia, só se estivesse perto dos amigos dele, pois se fosse em uma roda só de italianos, podia falar italianos, podia falar italiano, que ele não prendia. (Homem, 86 anos).

V - Em cada município, são inúmeros od descendentes de italianos que ficaram 24 horas na prisão.

VI - Sobre os filhos dos colonos da 2° geração que participaram, como expedicionáriso, na Segunda Guerra Mundial, há relatos sobre o que significou sua saída do ambiente da roça para os treinamentos do quartel e depois, para os campos de Guerra: "No primeiro tempo, no quartel, eu tremia. Era triste, diminuí cinco quilos. Fomos para Caçapava. Veio americano ensinar como era pra lutar na guerra. Os americanos eram limpos e bem educados, os chefes brasileiros eram estúpidos e grosseiros. Eles nos chamavam de filhos da puta, porcarias, vocês não valem nada. No Rio de Janeiro foi triste. Fiquei um mês e meio fazendo treinamento de guerra. Arrastar-se no chão com um fuzil na mão, o capitão atirava a trinta centrímetros do chão. Foram atingidos 10. Sofremos muito. No PIC (Diamantina) era só ir à misa e trabalhar na roça. Antes de ir pra Guerra, estávamos em 8.000 acampados. Fomos 10 km de caminhão, todos no trem e fechados, sem ver nada. Tínhamso a impressão que nos tratavam como animais. No navio desceram em duas fileiras. Lorenzi morreu de pneumonia na Itália. Lá, nós podíamos falar italiano."

VII - Havia este costume na Itália de Mussolini. As conseqüências de terem de tomar óleo eram diversas: além da humilhação de ver-se reduzido a condição de um animal este castigo levava muitos a morrer nas prisões, em função da desidratação que o óleo provocava.

VIII - Parece que a palavra "terremoto" consegue diferenciar a época em que conmstruíram sua existência e socializavram seus membros na base dos valores contidos linguagem com que como grupo étinico se reconheciam.

IX - Interessante o estudo de M. D´ACÂMPORA, A Construção da Imagem do Inimigo: o Papel dos Joranis Durante a Segunda Guerra Mundial em Florianópolis (1939/1945), Tese, Mestrado em História, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1992.

X - É muito comum encontrar-se nas paredes das casas dos colonos a par de fotos da família, uma foto de um jovem com o uniforme do serviço militar. Era o único e forte sinal de sua perternça ao Brasil como cidadão cumpridor de seus direitos cívicos.

XI - D’ACÂMPORA, op. Cit.

XII - Talvez seja interessante levantar em todos os recantos de Santa Catarina a história e a memória destes fatos. Nossa identidade se fundaria em bases mais honestas. Assumiríamos também este lado negado e temido: a história se faria justiça a tantos que sofreram e morreram humilhados e se restabeleceria a verdade. E especialemente estar-se-ia mais alerta para violências deste tipo não mais tivessem chance de acontecer.

XIII - O que ficou claro, nas entrevistas, é que durante estes anos de proibição da língua, e da proibição de reunir-se, também deixaram a prática das cantorias. Os italianos cantavam muito. Qualquer reunião era motivo para cantar. "Todos aqueles cantos estão perdidos. A gente pegou a moda caipira e moda brasileira."

XIV - Ver em Anexo XIII o Decreto-Lei n° 12, da Prefeitura de Blumenau, de 1938.

XV - Entre os 25.334 homens das três armas, exército, marinha e aeronáutica, que o Brasil mandou para a Guerra, na Itália, 453 lá morreram. Entre esses estavam também muitos filhos destas regiões, cujos país estavam sendo perseguidos qui no Brasil por que falavam o italiano. Em Rodeio, por exemplo, partiram 30 pracinhas, que fizeram parte do exército brasileiro. No 50° aniversário do fim da Segunda Guerra, a prefeitura do Município de Rodeio ergueu um monumento aos filhos dos colonos que lá lutaram, e cujos pais estavam sendo aqui perseguidos.

XVI - Este mesmo entrevistado afirma, em seguida,que na verdade, isto até foi bom, pois em Timbó eram os alemães que tinham os negócios. Antes da proibição de falar a língua, a gente chegava e nunca era atendido. Durante a perseguição começaram a atender, pois os italianos se faziam entender melhor.

XVII - Felipe Sonia é doutora em Filosofia, professora no Departamento de Filosofia da UFSC. Organiza o núcleo de estudos sobre a violência, pesquisa e escreve sobre o tema.

XVIII - Em seguida o entrevistado nomeia os filhos que o Rafael deixou por aqui e com quem se casaram etc.

XIX - Paulilo Maria Ignez é professora doutora em Antrolpologia Social na Pós-Graduação em Sociologia na UFSC.

XX - R. M. GROSSELI, Vencer ou Morrer - Camponeses Trentinos (Vênetod r Lombardos) nas Florestas Brasileiras, Florianopólis, ed. UFSC, 1987, p. 250-253.

ANEXO I - Contrato Caetano Pinto

ANEXO II - Serviço de prevenção contra a «quinta-coluna»

ANEXO III - Decreto-Lei

* ANEXOS

IPOL

Link Comunidade Italiana: ECCO!
Comentarios (3)Add Comment
tomiello
escrito por Visitante, 2005-04-05 15:57:40
minha familia e italiana mais eu nao sei nada sobre eles
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CROSARA
escrito por Visitante, 2005-06-28 00:11:24
Busco por descendentes de: ADELE CROSARA e seu irmao RICCARDO CROSARA eram filhos de GIULIO CROSARA e LETIZIA CROSARA. Qualquer informacao favor contatar: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso (italianos).
eu nao gostei
escrito por nivaldo, 2007-12-20 09:51:04
eu nao gostei porque
nao achei o que eu queria
a minha pesquisa smilies/angry.gif smilies/sad.gif smilies/shocked.gif smilies/cry.gif[url=]

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